Filipe Luís relata início traumático como técnico e defende apoio a treinadores
Filipe Luís admite que sai “quase chorando” dos primeiros treinos como técnico do Flamengo. Em seminário da Conmebol nesta segunda (13), ele revela que não sabia montar atividades e que precisou de ajuda para seguir na nova função.
Da lateral à prancheta: choque de realidade no Flamengo
A confissão vem pouco mais de um mês após sua demissão do clube, no início de março de 2026, depois das perdas da Supercopa e da Recopa. Ídolo recente no gramado, o ex-lateral descreve um começo de carreira no banco bem distante da segurança que exibia como jogador multicampeão.
No auditório da Conmebol, diante de treinadores, dirigentes e analistas, Filipe conta que chega ao sub-20 do Flamengo em 2023 convencido de que entender o jogo bastava. A realidade derruba essa certeza na primeira semana. “Quando eu me aposento, com 38 anos, eu tinha a ideia de como eu queria que o meu time jogasse. Eu tinha muito claro, muito marcado. Então, o único que me faltava era saber como eu fazer para que a minha equipe jogasse como eu quero. Então, isso para mim é o mais complicado”, admite.
O ex-jogador relata que a dificuldade não está em falar de tática ou em escolher o time, e sim em transformar um modelo de jogo em exercícios diários, com começo, meio e fim. Sem isso, a sensação é de fracasso diante dos garotos. “Eu não sabia fazer treinamentos”, reconhece. Nos primeiros dias, volta para casa destruído. Sai do campo “quase chorando” porque, segundo ele, não enxerga progresso nos treinos da base.
O descompasso entre a experiência de 20 anos em alto nível – com passagens por Atlético de Madrid, Chelsea e seleção brasileira, além de cinco títulos pelo Flamengo como jogador – e a inexperiência metodológica expõe uma lacuna comum no futebol. Ex-atletas assumem times grandes sem formação específica para planejar sessões, construir ciclos de trabalho ou lidar com frustração diária.
Humildade, método e saúde mental no centro do debate
Para não naufragar logo na largada, Filipe busca apoio fora de si. Ele convida o auxiliar Iván Palanco, especialista em metodologia de treinamento, para estruturar as atividades do Flamengo. “Fui buscar uma pessoa que sabe de metodologia, sabe fazer treinamentos, que se encaixa com a minha ideia de jogo. E aí o segredo é ter gente melhor que você ao lado”, resume.
Palanco passa a dividir a rotina de montagem de treinos, microciclos e ajustes diários. A parceria, conta o ex-técnico, não atua só no campo. Ele afirma que o auxiliar também o ajuda a lidar com a frustração da primeira semana, quando a autoconfiança desaba. “Eu pensava que sabia tudo. E na primeira semana eu saí quase chorando, porque não via nada na primeira semana de treinamentos na base. Então isso para mim foi também uma lição de humildade. ‘Menos mal que eu comecei aqui na base, porque é muito mais difícil do que eu pensava’.”
O relato se espalha rapidamente entre dirigentes e profissionais presentes no seminário, organizado pela confederação sul-americana na sede da entidade. Em um ambiente em que treinadores costumam enfatizar conquistas, Filipe escolhe expor fragilidades. Ao falar em “lição de humildade”, ele toca em um ponto sensível: a saúde emocional de técnicos sob pressão diária por resultados.
Num país em que demissões em massa são rotina – em 2025, o Brasileirão registra mais de 20 trocas de comando apenas na Série A – a fala do ex-técnico do Flamengo reforça a necessidade de redes de apoio psicológico e metodológico. Não só para jovens profissionais, mas também para técnicos consagrados que assumem elencos caros sem tempo para errar. Ao admitir que quase desiste na primeira semana, Filipe joga luz sobre um bastidor raramente discutido em público.
O treinador também compara o vestiário estrelado do profissional com a realidade da base. Para ele, trabalhar com jogadores consagrados é, paradoxalmente, mais simples. “Para mim, foi muito mais fácil lidar com os jogadores profissionais que com os jogadores da base”, afirma. Ele argumenta que atletas experientes, muitos com Copa do Mundo e Champions League no currículo, enxergam o jogo como um negócio de sobrevivência. “Eles estão jogando a vida. Eles precisam dessa informação para jogar bem. Então, se você dá uma informação que não é muito clara, vão te fazer perguntas.”
Entre adolescentes da base, diz, a lógica é outra. “Os jogadores da base não querem saber. Querem ‘me dá a bola que eu quero jogar’ e é isso”, descreve. A diferença de maturidade, na visão de Filipe, explica por que a categoria sub-20 o desafia mais do que o elenco principal. A percepção reforça o debate sobre formação de atletas e a necessidade de preparar jovens para escutar, questionar e entender o jogo para além da bola no pé.
Transição, bastidores do Flamengo e o que vem pela frente
Filipe assume o comando do Flamengo em meio a uma expectativa rara para um técnico estreante. Ex-lateral da seleção, campeão da Libertadores e do Brasileiro pelo clube em 2019, ele conhece de dentro o vestiário que passa a liderar. “Eu tive a oportunidade de treinar o Flamengo, que hoje, sem subestimar ninguém, é o melhor elenco da América do Sul”, afirma no palco da Conmebol.
Essa intimidade, sustenta, facilita a gestão de grupo. Ele ressalta a força de um elenco com jogadores de três Copas do Mundo e títulos de Champions League, o que, em sua visão, reduz conflitos internos. “A gestão do grupo para mim foi muito fácil porque é um grupo muito bom a nível de liderança”, diz. Segundo ele, lideranças ativas, ambição coletiva e diálogo transparente diminuem ruídos, ainda que frustrações individuais persistam entre reservas e preteridos.
O desfecho no campo, porém, não corresponde à narrativa de harmonia. Em pouco tempo, o Flamengo perde a Supercopa e a Recopa, dois títulos que costumam servir como termômetro para o ano. O clube encerra o ciclo no início de março e demite o treinador, que deixa a Gávea com conquistas expressivas na base e participação em um elenco profissional multicampeão.
O efeito imediato de seu depoimento na Conmebol vai além da própria carreira. Ao admitir desconhecimento técnico em um ponto central da função, Filipe pressiona, ainda que indiretamente, federações, clubes e escolas de treinadores a reverem a transição do campo para o banco. Cursos de licença, estágios supervisionados e acompanhamento psicológico contínuo passam a ser discutidos não como luxo, mas como requisito para reduzir o desgaste emocional e melhorar o nível de treinamento.
Em paralelo, o discurso pode mexer com a forma como torcedores e dirigentes julgam o trabalho de um técnico, especialmente nos primeiros meses. Se até um ex-jogador de elite diz que sai “quase chorando” por não conseguir transformar ideias em treino, o que esperar de nomes menos experientes, muitas vezes sem o mesmo suporte?
Filipe evita projetar publicamente o próximo clube, mas deixa claro que não abandona a carreira. Afirma que aprende “como funciona esse trabalho” e que o mergulho na base fortalece sua visão para o profissional. O futuro imediato deve passar por novos estudos, cursos de formação e, possivelmente, experiências fora do eixo Rio-São Paulo.
A dúvida agora é se o mercado brasileiro, tão impaciente com resultados, está disposto a acolher treinadores em processo de aprendizagem explícita. A resposta pode definir não só o próximo passo de Filipe Luís, mas também o ritmo de renovação de uma geração inteira de técnicos no futebol do país.
