Filipe Luís exalta atuação e relativiza derrota do Flamengo na Recopa
Filipe Luís tenta mudar o foco do Flamengo após o vice da Recopa Sul-Americana para o Lanús, nesta sexta-feira (27), ao destacar a atuação da equipe. O técnico admite a frustração com o resultado, mas insiste que o desempenho em campo confirma o time em rota competitiva para a temporada.
Derrota no placar, superioridade no jogo
No vestiário do Maracanã ainda pulsando após a derrota, Filipe Luís fala em tom sereno. O Flamengo perde o título para o Lanús, mas o treinador insiste que o placar não conta toda a história da noite. Ele aponta números internos de desempenho e a sensação de controle em boa parte dos 90 minutos como evidência de que o time faz “o suficiente para vencer”.
O cenário é o de um elenco abalado pela perda de mais uma taça internacional, menos de dois anos depois do vice na final de 2024 da Libertadores. A diferença, desta vez, segundo o técnico, está na forma como o grupo reage. “Nós jogamos para ganhar. Criamos, pressionamos, competimos até o fim. O resultado não está totalmente nas nossas mãos, mas a maneira como jogamos, sim”, diz, ao reforçar o compromisso com uma ideia de jogo que privilegia posse de bola alta, ocupação ofensiva do campo e intensidade sem bola.
Futebol como jogo de controle limitado
A análise de Filipe Luís se apoia em uma ideia que ele repete desde que assume o comando: é possível controlar o desempenho, não o placar. A Recopa, disputada em dois jogos entre campeão da Libertadores e da Copa Sul-Americana, expõe essa fronteira. O Flamengo demonstra superioridade técnica, troca mais passes, finaliza mais vezes e passa longos períodos instalado no campo adversário. Ainda assim, vê o troféu escapar pelos detalhes.
Essa leitura contrasta com a reação imediata da arquibancada, que mistura aplausos pontuais à entrega do time com vaias a escolhas do treinador. O clube que empilhou títulos entre 2019 e 2022 convive mal com o papel de vice, sobretudo em casa. Filipe insiste em outra perspectiva. “A torcida quer ganhar sempre, e nós também. Mas precisamos entender que, em 90 minutos, um desvio, uma falha individual, uma bola na trave podem mudar tudo. Se o time joga bem, estamos mais próximos de vencer 70% ou 80% dos jogos ao longo do ano. Hoje foi um dos 20%”, afirma, numa tentativa de transformar a derrota em lição estatística.
Pressão, bastidores e construção de elenco
Nos bastidores, dirigentes evitam discursos inflamados e falam em “projeto de temporada”. A diretoria investe pesado desde 2023 para manter o orçamento de folha salarial em patamar superior a R$ 35 milhões mensais, com a meta de alcançar pelo menos duas finais de competições continentais até 2027. A perda da Recopa não muda esse plano, mas adiciona pressão em um ambiente que nunca opera em temperatura baixa.
Filipe Luís chega ao cargo carregando o peso da própria história no clube, como lateral multicampeão entre 2019 e 2021. Agora, precisa se afirmar como treinador em um vestiário que ainda guarda líderes daquela era. Jogadores experientes falam, em conversas reservadas, sobre o incômodo em repetir o roteiro de domínio territorial sem taça, como ocorreu em fases decisivas da Libertadores de 2022 e 2024. O comandante responde com trabalho de vídeo, sessões táticas específicas para bola parada defensiva e conversas individuais para reforçar confiança de quem erra em jogos grandes.
Mensagem ao elenco e à torcida
O discurso público após a Recopa mira dois alvos ao mesmo tempo: o vestiário e a arquibancada. Ao exaltar a atuação, o técnico protege o elenco de uma devassa imediata e tenta evitar que a primeira decisão do ano contamine as próximas. “Eu não posso chegar aqui e jogar tudo no lixo porque perdemos por um gol. Se eu fizer isso, também jogo no lixo o esforço de quem correu 120 minutos, marcou, criou, brigou em cada bola”, argumenta, ao justificar a escolha de ressaltar mais o desempenho que o fracasso no placar.
A torcida, por sua vez, reage em ondas. Parte vê coerência em valorizar o desempenho e lembra que o calendário de 2026 ainda reserva Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e nova campanha continental. Outra parte cobra mudanças imediatas, sobretudo em escolhas pontuais de escalação e substituições. Nas redes sociais, o índice de menções negativas ao treinador dispara na madrugada, enquanto influenciadores rubro-negros se dividem entre quem fala em “projeto” e quem classifica o vice como alerta precoce.
Impacto esportivo e mental na temporada
Na prática, a derrota tem peso simbólico maior que financeiro. A Recopa distribui premiação inferior a torneios como Libertadores e Mundial, mas funciona como termômetro competitivo. A perda do título limita o Flamengo a um vice em sua primeira final de 2026 e reabre debates sobre a capacidade do elenco de decidir em jogos únicos ou séries curtas. O próprio técnico admite a necessidade de evoluir nessas situações. “Temos que aprender a transformar superioridade em placar. Não é só jogar bem, é jogar bem e ser cirúrgico”, reconhece.
O aspecto mental entra no centro do planejamento. A comissão técnica já estrutura, para as próximas semanas, um cronograma que inclui conversas com o departamento de psicologia, trabalho específico de recuperação de atletas mais pressionados e rotação controlada em jogos do Estadual para reduzir o desgaste. A ideia é impedir que o vice da Recopa se torne uma narrativa de fracasso repetido. No Ninho do Urubu, integrantes do departamento de futebol lembram que a temporada ainda tem pelo menos nove meses de competições e que um elenco com arrecadação anual projetada em mais de R$ 1 bilhão não pode se deixar guiar por um jogo isolado.
Próximos desafios e a narrativa em aberto
O calendário oferece pouco tempo para lamentações. Em menos de 72 horas, o Flamengo volta a campo pelo Campeonato Carioca, e, em abril, estreia na fase de grupos da Libertadores, torneio que concentra a maior expectativa esportiva e financeira do clube. A forma como o time responde imediatamente ao vice da Recopa tende a orientar o clima no Maracanã nos próximos jogos e a percepção sobre o trabalho de Filipe Luís.
O técnico sabe que, no Flamengo, o discurso sobre controle limitado de resultados só se sustenta se as vitórias voltarem a aparecer em sequência. Ao escolher enfatizar o desempenho e a entrega da equipe em uma noite de frustração, ele tenta construir um colchão de confiança para atravessar as turbulências naturais da temporada. Resta ver se, diante de um clube acostumado a medir grandeza em taças, a aposta na lógica e na paciência vai resistir ao próximo tropeço ou se a Recopa de 2026 será lembrada como ponto de inflexão em uma trajetória que ainda está sendo escrita.
