Filhote de macaco abandonado adota pelúcia como “mãe” no Japão
Abandonado pela mãe logo após nascer, há sete meses, o macaco-japonês Punch encontra num orangotango de pelúcia o substituto materno que garante abrigo e segurança. A cena, registrada no Zoológico de Ichikawa, na região metropolitana de Tóquio, viraliza nas redes sociais e transforma o filhote em símbolo improvável de adaptação e cuidado em cativeiro.
Do abandono ao abraço de tecido
Punch nasce em julho, no auge de uma onda de calor que atinge o Japão com temperaturas acima de 35 ºC em várias cidades. Minutos depois do parto, a mãe se afasta e rompe o vínculo essencial para a sobrevivência de qualquer macaco-japonês. A ruptura passa despercebida até que um visitante nota o filhote sozinho e avisa os tratadores.
Nos primeiros dias de vida, macacos-japoneses se agarram firmemente ao corpo da mãe quase 24 horas por dia. Esse contato constante não é apenas afeto: garante alimentação, regula a temperatura do filhote e ajuda a desenvolver força muscular. Sem esse corpo para segurar, Punch corre risco imediato de fraqueza e isolamento, relata o tratador Kosuke Shikano.
Os funcionários decidem agir em minutos. Na sala de manejo, testam alternativas improvisadas: toalhas enroladas, travesseiros e bichos de pelúcia diversos. Nada desperta o interesse do filhote por mais de alguns instantes. Punch solta os objetos, se encolhe num canto e volta a vocalizar em busca de uma mãe que não responde.
A equipe tenta então um orangotango de pelúcia laranja, de olhos esbugalhados, comprado na rede sueca de móveis IKEA. À primeira vista, o brinquedo parece desproporcional para o corpo minúsculo de Punch. Mas o tecido macio e os braços compridos oferecem justamente o que ele procura: superfícies fáceis de agarrar, peso suficiente para simular um corpo vivo e uma silhueta próxima à de um macaco.
“Este bicho de pelúcia tem pelos relativamente longos e vários lugares fáceis de segurar”, conta Shikano, ao explicar a escolha. “Pensamos que sua semelhança com um macaco poderia ajudar Punch a se reintegrar ao grupo, e foi por isso que o escolhemos.” Em poucos dias, Punch passa a se deslocar pelo recinto com o brinquedo sempre junto, arrastando o orangotango de pano, maior que ele, pelos corredores e plataformas.
Viralização, comoção e alerta sobre bem-estar animal
As primeiras imagens do filhote colado à pelúcia circulam em contas pequenas de funcionários e visitantes em outubro. O caso explode nas redes sociais no fim do ano, impulsionado por vídeos curtos que mostram Punch dormindo sobre o brinquedo ou tentando escalá-lo como se fosse um galho vivo. Em poucas semanas, o zoológico registra aumento de visitantes e filas na área dos macacos-japoneses, espécie também conhecida como macaco-da-neve.
Miyu Igarashi, enfermeira de 26 anos, viaja até Ichikawa depois de ver os vídeos no celular. “Ver o Punch nas redes sociais, abandonado pelos pais, mas ainda se esforçando tanto, me comoveu muito”, diz. “Então, quando tive a oportunidade de encontrar uma amiga hoje, sugeri que fôssemos ver o Punch juntas.” Ela encontra o filhote grudado ao orangotango de pano, ignorando a maior parte dos olhares humanos ao redor.
A história emociona, mas também expõe pressões crescentes sobre animais em cativeiro em meio a eventos climáticos extremos. Shikano acredita que o calor excepcional registrado em julho ajuda a explicar o abandono. O estresse térmico pode afetar o comportamento da mãe, reduzir a tolerância a estímulos e interferir no instinto de cuidado com o recém-nascido.
Nos bastidores, a equipe discute como evitar novos casos. Técnicos monitoram com mais rigor gestantes da espécie, ajustam sombreamento e ventilação dos recintos e avaliam protocolos de intervenção rápida para filhotes em risco. O episódio de Punch se torna estudo de caso interno e pauta reuniões com outros zoológicos japoneses, preocupados com ondas de calor cada vez mais longas e intensas.
Especialistas em bem-estar animal ouvidos pelo zoológico destacam que substitutos artificiais, como pelúcias e sistemas de aquecimento, são recurso conhecido em mamíferos órfãos. No caso dos macacos-japoneses, que vivem em grupos densos e altamente sociais, o desafio é garantir que esse apoio não impeça o aprendizado de códigos de convivência, vocalizações e hierarquias do bando.
Punch ensaia essa transição. Nos últimos meses, tenta se aproximar de outros macacos, mas enfrenta mal-entendidos. Faltam a ele alguns gestos e sinais que filhotes costumam aprender no contato direto com a mãe. “Punch teve algumas divergências com os outros macacos ao tentar se comunicar com eles, mas isso faz parte do processo de aprendizagem”, dizem os tratadores. Apesar dos tropeços, eles relatam que o filhote se integra de forma gradual ao grupo.
O que a história de Punch projeta para o futuro
O caso muda a rotina do Zoológico de Ichikawa. A administração passa a usar a imagem do filhote em materiais educativos, explicando ao público que a cena fofa esconde uma história de abandono e adaptação. As visitas crescem, mas os tratadores reforçam que Punch não é atração de espetáculo: continua sendo um animal em formação, em processo delicado de socialização.
Para além da comoção, a trajetória do macaco de sete meses funciona como vitrine para debates sobre limites e responsabilidades de manter primatas em cativeiro. A atenção que se concentra no brinquedo laranja empurra para o centro da conversa temas como mudanças climáticas, conforto térmico em zoológicos e estratégias de acolhimento para filhotes rejeitados.
Em termos práticos, o objetivo dos tratadores é que Punch consiga, em alguns meses, participar do grupo sem depender do orangotango de tecido para se sentir seguro. A expectativa é que, conforme ganha peso e experiência social, o filhote reduza o apego ao brinquedo até abandoná-lo de vez. “Acho que chegará o dia em que ele não precisará mais do seu brinquedo de pelúcia”, afirma Shikano.
Até lá, cada passo de Punch é acompanhado de perto. A equipe mede seu peso, observa interações com outros macacos e ajusta o manejo sempre que percebe sinais de estresse. O orangotango de pano, hoje inseparável, pode se tornar, no futuro, apenas um objeto guardado em depósito — ou uma peça de exposição, lembrança de uma fase de transição em que tecido, calor e cuidado humano se combinaram para substituir, imperfeitamente, o abraço de uma mãe.
Resta saber se a história de um único filhote será suficiente para manter aceso o interesse por políticas de bem-estar animal quando os holofotes virtuais migrarem para outro caso. A vida de Punch segue em Ichikawa. A do zoológico, agora mais exposto e cobrado, também.
