Filha de Kim Jong-un ganha espaço em ensaios para sucessão na Coreia do Norte
Kim Jong-un intensifica, em fevereiro de 2026, a exposição pública da filha, Kim Ju Ae, em eventos militares na Coreia do Norte. A adolescente passa a acompanhar inspeções de lançadores de mísseis e projetos estratégicos, em um movimento que analistas veem como ensaio organizado para a sucessão na quarta geração da dinastia Kim.
Sinais calculados de uma sucessão em curso
A presença de Kim Ju Ae ao lado do pai deixa de ser episódica e ganha padrão. Desde o início do ano, a jovem aparece com mais frequência na mídia estatal, sempre em contextos ligados ao poder militar. Imagens recentes a mostram observando, ao lado do líder, o teste de um lançador de mísseis e visitas a instalações estratégicas.
O quadro chama a atenção da inteligência sul-coreana. A NIS, agência nacional de inteligência da Coreia do Sul, acompanha se a jovem, que estaria no início da adolescência, participará da próxima reunião do Partido dos Trabalhadores. Parlamentares em Seul dizem que a agência observa com atenção como ela será apresentada e se receberá um título formal. “O foco é entender se o regime decidiu consolidá-la como sucessora”, resume um congressista sul-coreano, sob condição de anonimato.
O movimento ocorre em um regime que constrói com extremo cuidado a imagem da família governante. Kim Il-sung, fundador do Estado norte-coreano em 1948, pavimenta por décadas a transição para o filho Kim Jong-il. A passagem de poder para Kim Jong-un, em 2011, também vem precedida por aparições seletivas em atos militares e partidários. Agora, a engrenagem parece se repetir com uma figura feminina, algo inédito na história da dinastia.
Kim Ju Ae surge com destaque em fotos oficiais, posicionada ao centro da comitiva ou logo atrás do pai, em plano de autoridade. A mídia estatal, controlada pelo governo, descreve a presença da jovem em termos elogiosos, ainda que evite confirmar explicitamente seu papel como herdeira. Em alguns comunicados, comentaristas do regime a tratam como “respeitável filha” ou “preciosa filha do estimado líder” – fórmulas que, para especialistas, funcionam como código interno de prestígio.
Arsenal em expansão e recado para vizinhos
A escalada simbólica de Ju Ae ocorre em paralelo ao avanço visível do programa de armamentos. Segundo parlamentares informados pela NIS, Kim Jong-un supervisiona o desenvolvimento de um grande submarino com deslocamento estimado em 8.700 toneladas, projetado para transportar até dez mísseis balísticos lançados por submarino. A avaliação de especialistas é que, pelo porte da embarcação, o projeto pode incluir um reator nuclear para propulsão.
Esse tipo de submarino amplia o alcance geográfico da dissuasão norte-coreana, pois permite o lançamento de mísseis longe do território nacional. Em um cenário de tensão constante na península, a possibilidade de um vetor nuclear móvel preocupa diretamente Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, que mantêm cerca de 28,5 mil soldados em solo sul-coreano. “Um submarino com essa capacidade mudaria o cálculo de risco na região”, afirma um pesquisador de segurança em Seul.
A presença da jovem herdeira em inspeções ligadas a esses projetos serve, segundo analistas, a mais de um objetivo. Para o público interno, sinaliza continuidade: a próxima geração da família Kim aparece associada às armas que o regime apresenta como garantia de sobrevivência nacional. Para o exterior, funciona como recado de longo prazo. Não se trata apenas do líder atual, mas de um projeto de poder pensado para décadas.
O calendário também pesa. Desde 2022, a Coreia do Norte intensifica testes de mísseis balísticos de curto, médio e longo alcance, alguns com capacidade declarada de atingir o território americano. A vitrine recente de lançadores, mísseis hipersônicos em desenvolvimento e possíveis plataformas submarinas completa o quadro de modernização. Em meio a esse esforço, a imagem de Ju Ae, de mãos dadas com o pai diante de foguetes e submarinos, ganha dimensão política imediata.
Dinastia em transformação e dúvidas pela frente
A provável ascensão de Kim Ju Ae abre uma fase nova para um regime construído sobre uma narrativa patriarcal e militarizada. Uma mulher no centro da sucessão rompe com a prática de três gerações de líderes homens, embora mantenha intacto o núcleo hereditário do poder. Para especialistas em Coreia do Norte, isso não significa mudança ideológica, mas renova a embalagem da autoridade.
Diplomacias da região avaliam que uma transição ordenada dentro da família reduz, no curto prazo, o risco de disputas internas na elite em torno do poder. A continuidade do nome Kim tende a preservar os atuais rumos do programa nuclear e balístico, bem como o isolamento calculado em relação ao Ocidente. “Quem cresce dentro desse sistema é treinado para preservar o legado, não para desmontá-lo”, observa um ex-diplomata asiático que serviu em Pyongyang.
O impacto externo, porém, pode ser outro. A perspectiva de uma quarta geração no comando, aliada a submarinos capazes de carregar até dez mísseis cada, pressiona ainda mais debates sobre sanções, defesa antimíssil e corrida armamentista no entorno. Coreia do Sul e Japão já discutem, desde 2024, investimentos adicionais em escudos antimísseis e aumento de gastos militares na casa de dois dígitos em alguns programas estratégicos.
As próximas semanas devem oferecer pistas importantes. A eventual aparição de Ju Ae em uma reunião do Partido dos Trabalhadores, com um título formal, marcaria uma virada clara, transformando especulação em rito político. A ausência de qualquer menção oficial, por outro lado, indicaria que Kim Jong-un prefere manter espaço de manobra, usando a filha como símbolo, mas ainda não como herdeira declarada.
Enquanto a Coreia do Norte avança em submarinos de 8.700 toneladas e em mísseis cada vez mais sofisticados, a figura da adolescente ao lado do líder sintetiza a mensagem central do regime: o programa nuclear e a dinastia caminham juntos. O mundo ainda não sabe qual será o papel exato de Kim Ju Ae, mas, a cada foto divulgada em Pyongyang, fica mais difícil ignorar que a sucessão já começa a ser ensaiada diante das câmeras.
