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Filha de Kim Jong-un ganha espaço e alimenta aposta em sucessão

A filha de Kim Jong-un, identificada por serviços de inteligência como Kim Ju Ae, assume cada vez mais espaço público na Coreia do Norte em 2025. A presença constante ao lado do pai em eventos militares e partidários acende o alerta de Seul para uma possível preparação como sucessora do regime. Parlamentares sul-coreanos afirmam que ela pode ganhar, em breve, um título oficial no Partido dos Trabalhadores.

Presença calculada ao lado do líder

Kim Ju Ae, que analistas estimam estar no início da adolescência, deixa de ser figura ocasional na mídia estatal e passa a marcar presença em momentos estratégicos. Ela aparece em fotos e vídeos oficiais inspecionando instalações militares, observando testes de armamento e caminhando ao lado do pai em visitas técnicas, sempre cercada por generais e altos funcionários do regime.

A Agência Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS, na sigla em inglês) acompanha o movimento com atenção redobrada. Deputados que recebem relatórios sigilosos da agência relatam que o foco agora é a próxima reunião do Partido dos Trabalhadores, prevista para os próximos meses. A expectativa é verificar se Ju Ae será apresentada com um título específico, gesto que, na política norte-coreana, costuma sinalizar planos de longo prazo.

Relatos de parlamentares sul-coreanos indicam que Kim Jong-un inclui a filha em agendas sensíveis, como inspeções de projetos de mísseis e encontros com chefes militares. Para o regime, cada aparição é mensagem interna e externa. Internamente, reforça a imagem de continuidade da dinastia iniciada por Kim Il-sung em 1948 e consolidada por Kim Jong-il nas décadas seguintes. Externamente, mostra que o país se prepara para uma quarta geração de liderança sob o mesmo sobrenome.

Armas, submarinos e recado à região

O aumento da visibilidade de Ju Ae acontece enquanto Kim Jong-un acelera programas de armamento e tecnologia militar. Segundo parlamentares em Seul, o líder supervisiona o desenvolvimento de um grande submarino com deslocamento estimado em 8.700 toneladas. Especialistas sul-coreanos avaliam que a embarcação pode carregar até dez mísseis balísticos lançados por submarino, capazes de atingir alvos em toda a região do Pacífico.

Autoridades de inteligência não descartam que o submarino seja projetado para receber, no futuro, um reator nuclear, o que ampliaria a autonomia e a capacidade de dissuasão do país. Para a Coreia do Sul e o Japão, dois aliados centrais dos Estados Unidos na região, esse tipo de avanço técnico reforça a urgência de coordenação em defesa antimísseis. Para Washington, é mais um elemento de pressão em um tabuleiro que já inclui a guerra na Ucrânia e a tensão no estreito de Taiwan.

A sucessão em Pyongyang não muda apenas nomes no alto escalão. A consolidação de uma herdeira aparente, ainda que não declarada, tende a estabilizar o poder interno em torno do clã Kim. Facções militares e burocráticas, que poderiam disputar espaço em um cenário de incerteza, se alinham a uma figura que simboliza continuidade. Esse movimento reduz, no curto prazo, o risco de rupturas internas, mas reforça a ideia de um regime fechado à participação popular ou a reformas políticas.

Analistas em Seul e Tóquio destacam que a preparação de Ju Ae pode influenciar, desde já, negociações futuras sobre programas nucleares e sanções. Um regime que se apresenta como dinastia estável tende a negociar a partir de uma posição de força e de tempo longo. “Quando a elite transmite ao povo que o poder está garantido por décadas, manda uma mensagem também ao exterior: não se trata de um governo de passagem”, avalia um pesquisador ouvido por parlamentares sul-coreanos.

Sucessão, opacidade e próximos movimentos

A Coreia do Norte não anuncia planos de sucessão de forma transparente. Kim Jong-un também surge publicamente como herdeiro apenas alguns anos antes de assumir o poder, após problemas de saúde do pai em 2008 e 2009. A diferença, agora, é a idade de Ju Ae e a velocidade com que ela se torna figura central da propaganda oficial, em um país com cerca de 26 milhões de habitantes e sob sanções internacionais desde o início dos anos 2000.

A NIS pretende observar, nos próximos 12 meses, três pontos principais: a frequência de aparições de Ju Ae, os locais em que ela surge e os títulos eventualmente atribuídos. Cada detalhe pesa na leitura de especialistas, de gestos de reverência de oficiais à ordem em que ela é citada nos comunicados. Um simples adjetivo — como “respeitável” ou “querida” — já foi, no passado, usado para indicar hierarquias dentro da família Kim.

Diplomatas em Seul avaliam que uma sucessão encaminhada reduz a chance de abertura política no curto prazo, mas oferece, paradoxalmente, alguma previsibilidade estratégica. Países como Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos passam a trabalhar com a perspectiva de negociar, nas próximas décadas, com um regime liderado por alguém que hoje ainda é adolescente. As conversas sobre desnuclearização, segurança regional e ajuda humanitária tendem a levar em conta essa linha do tempo alongada.

O futuro político de Kim Ju Ae permanece sem confirmação oficial, e o regime não comenta as especulações. A forma como ela será apresentada nas próximas reuniões do Partido dos Trabalhadores, porém, pode ajudar a responder uma pergunta central para o Leste Asiático: quem comandará o país mais fechado do mundo na metade deste século?

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