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Filha de Harry Massis é alvo de denúncia por ingressos no Morumbis

A diretoria do São Paulo entra em nova crise nesta sexta-feira (20) com a denúncia de envolvimento de Christina Massis, filha do presidente Harry Massis, em um suposto esquema de venda irregular de ingressos para um show no Morumbis. O caso acirra o debate sobre compliance no clube e aumenta a pressão política sobre o sucessor de Julio Casares.

Reunião emergencial e bastidor político

Um áudio com a acusação circula nos bastidores do São Paulo e expõe um clube já fragilizado por disputas internas. A apuração indica que a denúncia é apresentada por Olten Ayres de Abreu Junior, presidente do Conselho Deliberativo, em meio a uma série de questionamentos sobre governança e controle interno.

Diante do episódio, o Conselho Consultivo é convocado às pressas para se reunir na tarde desta sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026, no Morumbis. A pauta é clara: ouvir a defesa de Harry Massis, discutir a gravidade do caso e definir que tipo de recomendação será encaminhada ao Conselho Deliberativo.

Integram o Conselho Consultivo nomes que marcaram diferentes fases da política tricolor. Entre eles, os ex-presidentes Carlos Augusto de Barros e Silva e Carlos Miguel Castex Aidar, o jurista Ives Gandra da Silva Martins, o publicitário e apresentador Milton Neves, além de Julio Casares, que deixa a presidência em fevereiro após se tornar alvo de um processo que poderia levar ao impeachment.

O encontro, embora sem poder de decisão, ganha peso pela simbologia e pelo elenco de personagens. O órgão não pode julgar o mérito da denúncia nem afastar dirigentes, mas tem a atribuição de emitir recomendações formais ao Conselho Deliberativo, que concentra o poder político do clube.

Nos bastidores, interlocutores afirmam que Casares, Olten e o conselheiro José Eduardo Mesquita Pimenta articulam uma ofensiva para pressionar Harry Massis a renunciar ao cargo. A estratégia passa por associar o episódio de Christina a um suposto desgaste acumulado da atual gestão e ao temor de novos constrangimentos públicos.

Denúncia modesta em valor, alta em impacto

Os detalhes da acusação ainda não vêm a público, mas a informação que circula entre dirigentes é de que o valor supostamente envolvido gira em torno de R$ 3 mil. A cifra é baixa em comparação a escândalos que já atingiram o futebol brasileiro, mas o valor simbólico é alto em um clube que tenta reconstruir a própria credibilidade.

Christina Massis, que atuava na diretoria do futebol feminino de base, já está afastada do cargo. A decisão parte do próprio Harry Massis semanas antes da reunião desta sexta, descrita internamente como “medida de compliance” para reduzir conflitos de interesse e blindar a gestão. O afastamento, no entanto, não impede que o nome da dirigente volte ao centro da crise.

A presença do tema ingressos em um momento de intensa agenda de shows no Morumbis aumenta a temperatura. O estádio recebe grandes eventos e o São Paulo tenta equilibrar calendário esportivo, contratos com produtores e o relacionamento com a torcida, que convive com ingressos caros e alta demanda.

Dirigentes ouvidos em reserva afirmam que o episódio reacende discussões antigas sobre o controle da bilheteria em dias de jogo e de shows, e sobre a capacidade do clube de monitorar intermediários, cortesias e reservas. A narrativa de que se trata de um caso “pequeno” em dinheiro perde força quando associada ao histórico de desconfiança entre torcedores e cartolas.

Em outro flanco, aliados de Massis veem exagero na reação e falam em “chantagem política”. Para esse grupo, a tentativa de vincular o presidente diretamente ao suposto esquema de ingressos seria uma forma de forçar uma saída negociada, em um ambiente de disputa que se arrasta desde a transição de poder após a queda de Casares.

Pressão por renúncia e próximos passos no clube

A reunião do Conselho Consultivo funciona como termômetro da governança tricolor. Se consolidar um entendimento pela renúncia, o encontro pode abrir uma corrida imediata por espaço no comando do São Paulo e reembaralhar alianças formadas ainda na gestão Julio Casares.

O impacto não se limita aos gabinetes. Patrocinadores, torcedores e potenciais parceiros avaliam o clube também pela estabilidade institucional. A repetição de crises envolvendo a presidência, em intervalos de poucos meses, alimenta dúvidas sobre a capacidade do São Paulo de manter projetos de médio e longo prazo, dentro e fora de campo.

Na prática, qualquer recomendação que saia do Conselho Consultivo dependerá do crivo do Conselho Deliberativo para ganhar efeito concreto. Esse colegiado é quem pode abrir investigações formais, instaurar comissões internas, propor punições ou discutir um eventual processo de afastamento de dirigentes.

Especialistas em governança esportiva ouvidos em situações semelhantes costumam apontar três pontos sensíveis: transparência na apuração, independência dos órgãos de controle e clareza na comunicação com os associados. No caso do São Paulo, a forma como o clube expõe ou esconde informações sobre a denúncia deve pesar na confiança dos torcedores que já se mobilizam nas redes sociais.

Para a diretoria, o desafio imediato é separar a apuração sobre Christina das disputas herdadas do processo de impeachment de Casares. Se a denúncia prosperar e comprovar irregularidades, o São Paulo será cobrado por punições exemplares. Se o caso perder força, crescerá a pressão por responsabilizar quem tiver usado o episódio como arma política.

Enquanto a bola rola e o time principal mira compromissos como o confronto com o Bragantino pelo Brasileirão, o clube administra em paralelo uma crise que se desenha fora do gramado. A agenda de shows no Morumbis, vista como fonte importante de receita, passa a ser observada também sob o prisma do risco reputacional.

O desfecho da reunião desta sexta não encerra a novela. O Conselho Deliberativo pode abrir nova frente, convocar dirigentes, pedir documentos e ampliar o escopo das investigações. A pergunta que fica para o São Paulo é se o episódio servirá como gatilho para uma reforma profunda em seus mecanismos de controle ou apenas como mais um capítulo de uma crise política que parece não ter fim.

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