Fifa suspende Prestianni após ofensa racista a Vinicius Júnior
A Fifa confirma nesta segunda-feira (23) a suspensão provisória de Gianluca Prestianni, do Benfica, acusado de ofensa racista a Vinicius Júnior. O lateral argentino está fora do jogo de volta contra o Real Madrid, amanhã, em Madri, pela Champions League.
Clima de guerra esvaziado em Madri
A decisão chega na véspera da partida que ameaça extrapolar o futebol. Organizadas do Real Madrid preparam um grande protesto no Santiago Bernabéu desde o apito final em Lisboa, em 12 de fevereiro, quando o time espanhol vence o Benfica por 1 a 0, com um gol de placa de Vinicius Júnior.
A comemoração do brasileiro diante da torcida portuguesa, que o insulta durante boa parte do jogo, acende o estopim. Prestianni se aproxima, leva a camisa ao rosto para esconder os lábios e, segundo Vinicius e outros jogadores em campo, o chama de “macaco”. O árbitro é avisado, a partida fica paralisada por cerca de 10 minutos e a imagem do argentino com a boca coberta corre o mundo.
Mbappé, companheiro de Vinicius no Real Madrid, reforça a acusação ao deixar o gramado. “Ele disse macaco. Eu ouvi”, declara o francês, em entrevista rápida aos canais de TV. A denúncia de racismo entra no relatório da arbitragem e vira caso para os comitês disciplinares do futebol europeu já no dia seguinte.
Nas redes sociais, o nome de Prestianni explode. Em poucas horas, o argentino recebe milhares de mensagens, muitas com ameaças explícitas de violência no jogo da volta, marcado para amanhã, em Madri. A delegação do Benfica pede proteção reforçada à polícia espanhola e aos organizadores da Champions, temendo hostilidade desde a chegada ao aeroporto.
A possibilidade de um reencontro direto entre Vinicius e o lateral argentino transforma o duelo esportivo em novela global. Emissoras de TV e plataformas de streaming anunciam a transmissão destacando o “clima de revanche”. A tensão ameaça se sobrepor ao placar: o Benfica precisa vencer por pelo menos dois gols para avançar à fase de grupos.
Estratégia para conter racismo e violência
A suspensão preventiva de um jogo, anunciada com destaque pela Fifa e aplicada pela Uefa, funciona como uma válvula de escape. Prestianni é afastado enquanto a investigação sobre a ofensa racista segue em curso. O recado dos organizadores é direto: a prioridade é reduzir o risco de confrontos em campo e nas arquibancadas.
A medida provoca alívio imediato no Real Madrid. O clube sabe que Vinicius Júnior volta a ser alvo preferencial de torcidas adversárias e tenta blindar o atacante em um dos momentos mais delicados de sua carreira na Europa. No sábado, três dias antes do anúncio, o brasileiro ouve gritos de “Morra Vinicius Júnior. Morra!” na derrota para o Osasuna pelo Campeonato Espanhol, episódio agora sob investigação da LaLiga.
Dentro do Benfica, a decisão cria um dilema. O clube português perde seu lateral titular em um jogo decisivo, mas escapa do peso simbólico de escalar um jogador acusado de racismo em um dos palcos mais vigiados do planeta. A nota oficial divulgada nesta segunda tenta equilibrar o discurso.
“O Clube lamenta ficar privado do jogador enquanto o processo está ainda em investigação e irá apelar desta decisão da UEFA, mesmo se dificilmente os prazos em causa terão qualquer efeito prático para o jogo da segunda mão do play-off da Liga dos Campeões”, afirma o texto. Em seguida, o Benfica reforça que mantém “compromisso inabalável no combate a qualquer forma de racismo ou discriminação”, citando a história do clube e o legado de Eusébio.
Nos bastidores, dirigentes reconhecem que o ambiente em Madri assusta. Grupos organizados de torcedores do Real Madrid planejam mosaicos, faixas e cânticos contra Prestianni, que vinham sendo articulados há dias em fóruns e aplicativos de mensagem. A retirada do argentino de cena reduz a temperatura, ainda que não elimine o debate.
Para a Fifa, o caso se torna mais um teste na resposta a episódios de racismo, problema recorrente no futebol europeu e internacional. A entidade tenta mostrar agilidade, depois de anos de críticas por punições brandas, multas simbólicas e decisões que pouco afetam a rotina esportiva de clubes e jogadores envolvidos.
Pressão crescente sobre clubes e entidades
A suspensão provisória de Prestianni produz efeitos imediatos no campo esportivo e no campo político. Em termos de jogo, o Benfica precisa reorganizar a defesa a menos de 24 horas da partida e buscar uma vitória por dois gols sem a sua opção original para a lateral. Em termos de imagem, o clube se vê pressionado a sustentar o discurso de combate ao racismo enquanto defende, em instâncias esportivas, o direito de escalar o jogador.
O Real Madrid entra em campo com vantagem no placar e, agora, com ambiente menos inflamado. A ausência de Prestianni retira da partida um elemento de confronto direto que poderia dominar a noite, dentro e fora do estádio. A Fifa tenta deslocar o foco do drama disciplinar para o futebol, reforçando que a Champions League não pode ser palco de ameaça, ódio e perseguição racial.
Vinicius Júnior permanece em silêncio público até o início da tarde desta segunda, protegido pelo clube e pela seleção de assessores que o acompanha desde os primeiros casos de racismo na Espanha. O brasileiro volta a ser personagem central de um debate que ultrapassa o esporte, expõe autoridades locais e pressiona ligas nacionais e continentais.
O histórico recente pesa. Nos últimos três anos, diferentes episódios de racismo contra o atacante em estádios espanhóis geram inquéritos, notas de repúdio, promessas de mudança e punições pontuais. A cada nova denúncia, cresce a cobrança por medidas mais duras, que atinjam não apenas indivíduos, mas também clubes e organizadores de competições.
A decisão de afastar Prestianni antes do fim da investigação pode servir de precedente. A Fifa sinaliza que, diante de uma acusação consistente, é possível agir de forma preventiva para evitar novas agressões, tumultos e cenas que constrangem patrocinadores, emissoras e torcedores. A mensagem é dirigida a dirigentes, jogadores e torcidas que ainda tratam o racismo como parte do jogo.
O que ainda está em jogo
O caso não se encerra com a suspensão de um jogo. A Uefa mantém aberta a apuração do que aconteceu no Estádio da Luz, com base em imagens de TV, relatórios da arbitragem, depoimentos de jogadores e manifestações dos clubes. Prestianni pode receber punição mais longa, que o tiraria de boa parte da temporada europeia.
O Benfica promete recorrer, mesmo reconhecendo que dificilmente terá o argentino liberado a tempo para enfrentar o Real Madrid. O clube português tenta, ao mesmo tempo, proteger seu ativo esportivo, preservar sua imagem e não ser associado à defesa de condutas racistas. A linha é fina e qualquer descompasso deve ser cobrado por torcedores, patrocinadores e opinião pública internacional.
Em Madri, a expectativa é de um jogo mais concentrado no resultado, ainda que o tema do racismo siga presente nas arquibancadas, nas transmissões e nas entrevistas pós-jogo. O desempenho de Vinicius Júnior volta a ser termômetro de um ambiente que parece oscilar entre a idolatria esportiva e o ataque racial.
As entidades que organizam o futebol europeu entram em mais uma noite sob vigilância. A forma como lidam com esse caso, dentro e fora de campo, ajuda a definir até onde estão dispostas a ir para transformar discursos contra o racismo em prática concreta. A resposta não virá apenas do placar em Madri, mas das próximas punições, recursos e decisões que ainda vão surgir desse episódio.
