Festa de R$ 5 mi nas Bahamas expõe rede política de Daniel Vorcaro
O banqueiro Daniel Vorcaro desembolsa cerca de R$ 5 milhões para o aniversário da filha em uma ilha privada nas Bahamas entre julho e agosto de 2021. Cinco anos depois, mensagens, contratos e extratos financeiros obtidos pela Polícia Federal e pela CPMI do INSS revelam que a festa é apenas um capítulo de uma engrenagem de luxo, influência política e suspeitas de crimes financeiros que agora cercam o ex-dono do Banco Master.
Ilha exclusiva, pandemia e um estilo de vida sem freios
A comemoração acontece em Little Pipe Cay, ilha particular nas Bahamas. Nos e-mails trocados entre o banqueiro e uma agência de turismo de alto padrão, aparecem itens que vão do aluguel da ilha à contratação de DJ, decoração, produção completa do evento e bolsas da grife Cult Gaia recheadas de amenities para as convidadas. A conta total chega a US$ 976 mil, valor equivalente a R$ 5 milhões na cotação da época.
A festa ocorre no auge da pandemia de covid-19, quando o Brasil ainda enfrenta restrições e lida com altos números de mortes. Nos orçamentos, há previsão de testes de covid para ida e volta da família Vorcaro. A celebração em cenário paradisíaco contrasta com a crise sanitária e econômica no país, mas ajuda os investigadores a reconstruir o fluxo de dinheiro e o padrão de gastos do banqueiro que hoje está no centro da Operação Compliance Zero.
As mensagens, planilhas e contratos que detalham essa viagem integram o material apreendido pela Polícia Federal e compartilhado com a CPMI do INSS. A investigação aponta, em paralelo ao luxo, indícios de organização criminosa, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta ligados ao Banco Master, instituição que entra em liquidação extrajudicial em 2023 por decisão do Banco Central.
Do luxo às suspeitas de crime: o avanço da investigação
Os documentos revelam que o aniversário nas Bahamas não é um ponto isolado. Em 2022, a festa da filha em Angra dos Reis, no litoral fluminense, movimenta cerca de R$ 392,4 mil, com cachê de banda, hospedagem, um “welcome kit” para convidadas de R$ 19 mil e três minutos de fogos de artifício por aproximadamente R$ 16 mil. Em 2023, uma festa em Taormina, na Sicília, aparece em relatório da agência como um salto de escala: R$ 363,2 milhões em produção, acomodações, hospedagens e contratação de artistas internacionais como Coldplay e Michael Bublé.
Viagens para Nova York, Orlando, Miami, Milão, Aspen, Paris, Mônaco e Ibiza se repetem nas planilhas. Em abril de 2022, Vorcaro paga R$ 55,6 mil por quatro ingressos de um show do Bon Jovi em Miami. No mês seguinte, desembolsa cerca de R$ 3,5 mil para assistir ao musical Michael Jackson na Broadway. Em novembro do mesmo ano, registra uma gorjeta de R$ 3 mil ao gerente de um hotel de luxo no Rio de Janeiro pela ajuda com reservas no badalado Sushi Leblon.
Esse padrão de gastos se torna relevante quando a PF encontra, nas mesmas fontes de prova, conversas e registros que sugerem uma atuação coordenada para proteger os interesses de Vorcaro e do Banco Master no sistema financeiro. Em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, a corporação descreve uma “organização criminosa” que atuaria “de forma estruturada e com divisão de tarefas”. Entre os nomes citados estão o cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel, o colaborador Luiz Phillipi Mourão e o policial federal Marilson Roseno da Silva, todos presos na nova fase da operação.
Horas após a prisão, Mourão tenta se matar na Superintendência da PF em Minas Gerais, segundo as autoridades, e é levado em estado grave a um hospital em Belo Horizonte. O episódio expõe a pressão em torno do caso e reforça a percepção de que as conversas apreendidas atingem uma rede sensível de relações dentro do Estado.
Autoridades na mira e conflitos de interesse
As mensagens e documentos também indicam que servidores em posições estratégicas do Banco Central podem ter atuado para orientar o banqueiro. A PF aponta suspeitas de “consultoria remunerada” prestada a Vorcaro por Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, enquanto ambos ainda ocupavam cargos na autarquia. Os dois são afastados das funções e passam a usar tornozeleira eletrônica, em decisão judicial motivada pelo avanço das apurações.
O caso ganha outra dimensão quando os investigadores localizam, no celular de Vorcaro, um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O documento prevê pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões a partir de 2024, por três anos. Mensagens indicam ainda um encontro entre o banqueiro e o ministro em abril de 2025, provavelmente em Campos do Jordão. Procurado por meio da assessoria do Supremo, Moraes não comenta o caso.
Nas conversas com a influenciadora Martha Graeff, namorada do banqueiro, aparecem referências a outras autoridades. Vorcaro chama o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, de “um dos meus grandes amigos de vida” em 2024. Meses depois, ele exalta um projeto de lei apresentado por Nogueira como “bomba atômica no mercado financeiro”, em referência a emenda que tentava elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, mecanismo que protege correntistas em caso de quebra de bancos. A proposta não avança, e o senador não responde aos pedidos de posicionamento.
Mensagens citam ainda reunião de Vorcaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro de 2024, fora da agenda oficial, ao lado de Gabriel Galípolo, então indicado para a presidência do Banco Central. Segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência, o encontro trata da concentração bancária, e Lula afirma que o tema precisa de análise técnica. Na troca de mensagens, o banqueiro descreve a conversa como “ótima” e “muito forte”. Ao mesmo tempo, ele critica Jair Bolsonaro por dar visibilidade a uma notícia negativa para o Master nas redes sociais.
Reação da defesa, impacto político e próximos passos
O avanço das investigações leva à nova prisão preventiva de Vorcaro em março de 2026, autorizada pelo ministro André Mendonça, atual relator do caso no STF, no âmbito da Operação Compliance Zero. A primeira prisão ocorre em novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos, quando o banqueiro tenta embarcar em um jato particular. Na ocasião, a Justiça Federal decreta sua prisão preventiva e o Banco Central determina a liquidação extrajudicial do Master e a indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores.
Dez dias depois, o Tribunal Regional Federal revoga a prisão, substituindo-a por tornozeleira eletrônica. Em dezembro, o ministro Dias Toffoli assume a relatoria do inquérito no Supremo, a pedido da defesa. Em janeiro, deixa o caso um dia após a PF enviar relatório com menções ao próprio ministro, o que alimenta suspeitas sobre conflitos de interesse. O inquérito passa então às mãos de Mendonça, que autoriza a nova fase da operação e a prisão de Vorcaro.
Os advogados do banqueiro reagem. Em nota, afirmam que a prisão preventiva ocorre sem que a defesa tenha “acesso prévio aos elementos que fundamentaram a medida” e cobram que o STF apresente detalhes, como datas exatas das mensagens usadas na investigação. À CNN Brasil, o criminalista Roberto Podval critica o envio das conversas à CPMI do INSS e diz que “toda a intimidade do Vorcaro e de muitos outros está sendo devassada”.
A CPMI, por sua vez, explora os dados para mapear a atuação do Master no mercado de crédito consignado a aposentados e pensionistas. Parlamentares discutem mudanças nas regras de supervisão bancária e restrições mais duras a servidores que, ainda no cargo, prestem qualquer tipo de consultoria ao setor que deveriam fiscalizar. Integrantes da comissão defendem maior transparência em encontros entre empresários e autoridades, sobretudo quando envolvem políticas para o sistema financeiro.
O caso se transforma em teste para instituições que lidam com dinheiro público e poder econômico. As próximas decisões do STF sobre a legalidade das provas, a eventual denúncia da Procuradoria-Geral da República e o relatório final da CPMI vão indicar se a história da festa de R$ 5 milhões nas Bahamas ficará como símbolo de impunidade ou como ponto de virada na forma como o país encara os limites entre riqueza privada e influência sobre o Estado.
