FBI libera documentos sobre acusações sem provas contra Trump no caso Epstein
Documentos do FBI que registram entrevistas com uma mulher que acusa, sem apresentar provas, o ex-presidente Donald Trump de agressão sexual são divulgados em março de 2026 pelo Departamento de Justiça dos EUA. Os arquivos, ligados ao caso Jeffrey Epstein, haviam sido retidos por erro de codificação e reacendem a disputa política sobre transparência e uso político das investigações.
Erro de codificação vira disputa por transparência
Os três memorandos recém-publicados somam mais de 50 páginas e detalham entrevistas conduzidas em 2019 com uma mulher que diz ter sido abusada sexualmente por Trump e Jeffrey Epstein na década de 1980, quando era adolescente. Ela afirma que tinha entre 13 e 15 anos na época dos supostos crimes. As alegações, porém, não são acompanhadas de provas e não resultam, até agora, em acusações criminais formais.
A divulgação ocorre depois de jornalistas e parlamentares notarem a ausência desses arquivos no banco de dados do Departamento de Justiça (DoJ), criado para reunir a documentação sobre Epstein após a aprovação de uma lei de transparência pelo Congresso, em novembro do ano passado. O governo reconhece que reteve o material por engano. Segundo o DoJ, os memorandos foram “codificados incorretamente como duplicados” durante a revisão interna e, por isso, ficaram fora das primeiras publicações.
A revelação alimenta suspeitas em Washington. Democratas acusam o departamento de encobrir informações sensíveis sobre figuras próximas a Trump, enquanto republicanos afirmam que o episódio demonstra o risco de politização de investigações. O caso chega ao público em meio à liberação em massa de documentos: milhões de páginas já foram tornadas públicas desde que a nova lei entrou em vigor.
Os papéis fazem parte do vasto acervo relacionado a Epstein, financista condenado por crimes sexuais e morto em 2019, cujo círculo de relações inclui políticos, empresários e celebridades. Entre os nomes mais citados está o de Donald Trump, mencionado milhares de vezes nos arquivos, em e-mails, registros de agenda e mensagens enviadas pelo próprio Epstein a terceiros.
Alegações sem provas e reação da Casa Branca
Nos memorandos de 2019, a mulher, cuja identidade é mantida em sigilo, relata que Epstein a apresenta a Trump na década de 1980, em um contexto de festas e encontros privados. Ela sustenta que os dois a abusam em mais de uma ocasião, quando ela ainda é menor de idade. Os agentes do FBI registram as versões, mas, de acordo com os documentos agora divulgados, não voltam a falar com a testemunha depois daquela série de entrevistas.
Não está claro, pelos arquivos, se Trump e Epstein mantêm de fato uma relação próxima no período específico em que a mulher diz ter sido abusada. Fotos e relatos públicos indicam que os dois circulam nos mesmos ambientes ao longo dos anos 1990, mas Trump afirma, em diferentes ocasiões, que rompe com Epstein no início dos anos 2000, cerca de dois anos antes da primeira prisão do financista. O ex-presidente nega “qualquer irregularidade” em relação ao criminoso sexual.
A Casa Branca responde com dureza às novas revelações. Em nota, a secretária de imprensa Karoline Leavitt afirma que as alegações são “completamente infundadas” e “sem qualquer evidência crível”. Ela diz que Trump já foi “totalmente inocentado com a divulgação dos arquivos Epstein” e lembra que o Departamento de Justiça, sob o governo de Joe Biden, não apresentou acusações contra o republicano. “Eles sabiam que o presidente Trump não tinha feito absolutamente nada de errado”, declara.
Os memorandos se somam a outra frente sensível da investigação: uma lista de denúncias recebidas pelo Centro Nacional de Operações contra Ameaças, que opera uma linha direta para informações sobre possíveis riscos à segurança. Essa relação inclui inúmeras acusações de abuso sexual contra Trump, Epstein e outras figuras públicas, muitas delas claramente não verificadas, anônimas ou sem evidências mínimas. Em janeiro, ao divulgar parte desse material, o próprio DoJ alerta que alguns documentos reúnem “alegações falsas e sensacionalistas” enviadas ao FBI pouco antes da eleição de 2020.
No comunicado, o departamento procura marcar posição: “Para sermos claros, as alegações são infundadas e falsas, e se tivessem o mínimo de credibilidade, certamente já teriam sido usadas como arma contra o presidente Trump”. A frase, incomum em um texto oficial, reforça a tentativa do órgão de se distanciar da percepção de que o acervo de Epstein pode servir como munição política em ano eleitoral.
Pressão política e próximos passos no Congresso
O sumiço temporário dos três memorandos gera reação imediata no Legislativo. Nesta semana, uma comissão da Câmara dos Representantes vota por intimar a procuradora-geral Pam Bondi para explicar a atuação do Departamento de Justiça na gestão dos arquivos de Epstein. A decisão une democratas e republicanos na Comissão de Supervisão, algo raro em um Congresso polarizado.
Parlamentares querem detalhar em que momento os documentos foram classificados como duplicados, quem revisou a codificação e por que o erro só é admitido após reportagens da mídia. A rádio pública NPR e o jornal New York Times identificam, a partir de índices e números de série, a existência de quatro entrevistas da mulher ao FBI em 2019, mas encontram apenas parte do material no site do DoJ. A pressão pública leva o departamento a localizar e liberar os três resumos faltantes.
O episódio reforça o debate sobre a capacidade do governo federal de lidar com grandes acervos digitais e com informações de alto impacto político. A nova lei determina que todo o material relacionado a Epstein seja publicado, com exceções limitadas a questões de segurança nacional ou proteção de vítimas. O cumprimento dessa regra, porém, expõe a tensão entre transparência radical e o risco de divulgar denúncias frágeis que podem destruir reputações sem o crivo de uma apuração completa.
Para sobreviventes de Epstein e defensores de vítimas de violência sexual, a divulgação integral é uma forma de corrigir décadas de omissões, acordos sigilosos e decisões judiciais questionadas. Para aliados de Trump, a enxurrada de papéis se converte em uma arena de batalhas narrativas, na qual qualquer menção ao ex-presidente vira material de campanha, mesmo quando os próprios investigadores qualificam as alegações como não críveis.
As próximas semanas devem concentrar novas audiências no Congresso e mais liberações de documentos. A cada leva, cresce a pressão para que o Departamento de Justiça demonstre critérios claros sobre o que publica e o que mantém sob sigilo. No centro desse embate, permanece aberta uma questão que vai além de Trump e Epstein: até que ponto o sistema de Justiça consegue ser transparente sem se transformar em palco de acusações sem prova?
