Falha em sistema de hélio obriga NASA a adiar Artemis II para abril
A NASA decide retirar o foguete lunar SLS da plataforma no Centro Espacial Kennedy, após detectar uma falha no sistema de hélio, e afasta qualquer possibilidade de lançamento da missão Artemis II em março de 2026. O problema, identificado após testes realizados até 19 de fevereiro, força a agência a mirar, no mínimo, uma nova janela de lançamento em abril.
Do “verde” ao recuo em 48 horas
O recuo começa no sábado, 21 de fevereiro, menos de dois dias depois de a equipe de lançamento celebrar um ensaio de abastecimento descrito como bem-sucedido. Na sexta-feira, técnicos no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, diziam ver o dia 6 de março como uma data viável para o primeiro voo tripulado do programa Artemis. A mudança de tom em tão pouco tempo expõe a fragilidade do cronograma da agência para retomar voos humanos ao espaço profundo.
O novo problema aparece no sistema que envia hélio para a parte superior do SLS, o foguete de 98 metros que sustenta a missão Artemis II. O gás, invisível para o público e vital para os engenheiros, é usado para pressurizar tanques de combustível e limpar as tubulações que levam hidrogênio e oxigênio líquidos aos motores. Sem esse fluxo estável, não há contagem regressiva segura.
A falha surge depois de a NASA concluir, na quinta-feira, o último teste de injeção de hélio. O fluxo simplesmente deixa de chegar ao topo do foguete. Os controladores de lançamento ainda não sabem o que causa a interrupção e decidem colocar o veículo em uma configuração segura usando um procedimento alternativo. A solução improvisada protege o SLS, mas não serve para um dia de lançamento.
Na segunda-feira, 23 de fevereiro, a agência publica um comunicado reafirmando que o foguete e a cápsula Orion precisam voltar ao prédio de montagem de veículos, o VAB, a cerca de 13 quilômetros da plataforma 39B. “O rápido trabalho para iniciar os preparativos para o retorno do foguete e da espaçonave ao VAB pode preservar a janela de lançamento de abril”, diz a nota, condicionando qualquer plano aos resultados da análise de dados e dos reparos.
Calendário em xeque e risco acumulado
A retirada do SLS da plataforma elimina, de forma definitiva, a hipótese de decolagem em março e empurra a missão para, no mínimo, abril. A NASA já havia apontado os dias 1, 3, 4, 5, 6 e 30 de abril como datas possíveis, mas executivos admitem avaliar também janelas em maio e junho. Cada semana de atraso pressiona o programa Artemis, peça central da estratégia americana para retornar à Lua e abrir caminho para viagens futuras a Marte.
Artemis II prevê um voo de cerca de 10 dias ao redor da Lua, usando uma manobra de assistência gravitacional para impulsionar a espaçonave. A bordo estarão os astronautas da NASA Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, além do canadense Jeremy Hansen. Será a primeira vez que humanos deixam a órbita baixa da Terra desde a missão Apollo 17, em 1972, uma lacuna de mais de 50 anos na exploração tripulada do espaço profundo.
O novo revés surge no momento em que a equipe de lançamento acredita ter domado o velho inimigo do SLS: os vazamentos de hidrogênio. Em ensaios anteriores, inclusive antes do voo não tripulado Artemis I, em 2022, microvazamentos nesse combustível extremamente leve e volátil já haviam forçado paradas de contagem. Nas últimas semanas, engenheiros substituem duas vedações nas linhas de abastecimento e relatam desempenho “absolutamente incrível” no segundo ensaio geral.
Ainda assim, sensores registram umidade inesperada perto das novas vedações, o que mantém acesa a desconfiança de que o foguete possa carregar problemas ocultos. “Não tenho certeza de onde veio”, admite Charlie Blackwell-Thompson, diretora de lançamento do programa, ao comentar a umidade e o histórico de vazamentos. Ela reforça que não há uma única causa clara para as falhas anteriores, mas defende que as trocas de componentes funcionam dentro do esperado.
O hélio, agora no centro da crise, é escolhido justamente por ser inerte e se manter gasoso em temperaturas extremas, condição ideal para lidar com hidrogênio líquido a cerca de -253 °C e oxigênio líquido perto de -183 °C. Sem um fluxo confiável desse gás, a pressurização dos tanques e a limpeza das linhas de combustível ficam comprometidas. Em termos simples, o foguete não consegue ser abastecido e esvaziado de forma segura.
Investigação técnica e incerteza sobre abril
O administrador da NASA, Jared Isaacman, afirma em uma publicação nas redes sociais que os engenheiros trabalham com três suspeitos principais. Um filtro defeituoso entre o sistema de solo e o foguete, uma válvula com mau funcionamento a bordo do SLS ou um problema no cabo umbilical de desconexão rápida, estrutura que se solta do veículo no instante da decolagem. Isaacman lembra que uma válvula de hélio já havia criado dificuldades durante a preparação do Artemis I, em 2022.
Qualquer que seja a causa, o veredito é o mesmo: o acesso adequado só é possível dentro do VAB. A viagem de ida e volta, em cima de uma plataforma móvel, leva horas e submete o conjunto de 1,6 milhão de quilos a vibrações e torções. Em fevereiro, Amit Kshatriya, administrador associado da NASA, já alertava que esse “ambiente de implementação é muito complicado” e pode até ter relação com parte dos vazamentos de hidrogênio observados no passado.
O histórico recente reforça a cautela. Durante a preparação para o Artemis I, o SLS deixa a plataforma três vezes antes de, enfim, voar, em novembro de 2022, cerca de oito meses após a primeira tentativa de lançamento. Agora, qualquer repetição de problemas com hélio ou hidrogênio tende a empurrar Artemis II não só para além de abril, mas possivelmente para o segundo semestre.
A agência admite que pode ser necessário realizar mais um ensaio geral com combustível depois da volta do foguete ao complexo de lançamento. Em comunicado interno, porta-vozes explicam que a equipe ainda avalia quais testes adicionais serão exigidos. Cada novo ciclo de abastecimento, drenagem e movimentação amplia a chance de surgirem falhas em vedações, válvulas e linhas de fluido que já se mostraram sensíveis.
O impacto vai além do cronograma técnico. Parceiros internacionais acompanham de perto os desdobramentos, já que o sucesso de Artemis II condiciona a sequência da campanha, que inclui o pouso lunar de Artemis III e futuras missões com módulos habitáveis na órbita da Lua. Um atraso em cascata pode afetar contratos industriais, acordos de cooperação e o próprio debate político em Washington sobre o ritmo e o custo do retorno humano à superfície lunar.
Pressão por respostas e corrida contra o tempo
A cada atualização, a NASA tenta equilibrar transparência e prudência. A prioridade formal segue sendo a segurança da tripulação, mas a pressão por manter o calendário é evidente. A missão Artemis II concentra expectativas de cientistas, indústria e opinião pública, que veem no voo o passo decisivo para sair da órbita baixa, hoje dominada por operações rotineiras na Estação Espacial Internacional.
Os próximos dias definem se a promessa de uma janela em abril permanece realista ou se o programa entra em mais uma rodada de revisões. Engenheiros precisam localizar a falha no sistema de hélio, testar a solução, levar o foguete de volta à plataforma e, possivelmente, repetir um ensaio completo de abastecimento, tudo sem reabrir antigas feridas com o hidrogênio. A cada manobra, cresce a sensação de que o caminho de volta à Lua continua menos linear do que os calendários oficiais sugerem.
