Ciencia e Tecnologia

Falha em fluxo de hélio no SLS ameaça lançar Artemis 2 só em abril

A NASA detecta um problema no fluxo de hélio do foguete SLS e se prepara para retirá-lo da plataforma de lançamento neste sábado (21), na Flórida. A falha técnica coloca em risco a decolagem da missão Artemis 2, prevista para a primeira janela entre 6 e 9 de março.

Varredura de rotina vira alerta vermelho

O alerta surge durante uma varredura noturna de segurança na sexta-feira (20), na plataforma 39B do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, um dia depois de a agência celebrar um ensaio considerado “excelente”. Técnicos identificam uma interrupção no fluxo de hélio no estágio superior do Space Launch System (SLS), peça central do programa que tenta levar humanos de volta à Lua quase meio século após a era Apollo.

Hélio não queima nem impulsiona o foguete, mas cumpre uma função discreta e vital: pressuriza tanques e linhas de combustível, mantém válvulas funcionando e garante que o propelente chegue corretamente aos motores. Quando esse fluxo falha, o risco é de perda de controle e danos ao veículo, algo incompatível com uma missão tripulada. Diante do quadro, a direção do programa decide preparar a retirada do SLS da plataforma para o Edifício de Montagem de Veículos (VAB), onde a equipe pode acessar a estrutura com mais segurança.

Em postagem no X/Twitter, o administrador da NASA, Jared Isaacman, admite que a falha muda o clima no Kennedy. “Isso quase certamente afetará a janela de lançamento de março”, escreve. Ele indica que a reversão para o VAB é “muito provável” e admite que a equipe trabalha com a perspectiva de um atraso de pelo menos três semanas, caso o reparo exija desmontagem e novos testes integrados.

O cronograma original reserva três oportunidades principais de lançamento em 6, 7 e 8 de março, com uma margem extra no dia 9 e uma data isolada em 11 de março. Se nenhuma delas puder ser usada, o foguete só volta a ter chances reais em abril, em janelas distribuídas pelos dias 1º, 3, 6 e 30, condicionadas ao alinhamento preciso entre Terra e Lua e à disponibilidade de equipes e instalações.

O que está em jogo na missão à Lua

Artemis 2 é a primeira missão tripulada do novo ciclo de exploração lunar dos Estados Unidos. O plano prevê um voo de cerca de 10 dias ao redor da Lua, sem pouso, para validar o conjunto foguete–cápsula antes de tentativas mais ambiciosas. Três astronautas da NASA e uma astronauta da Agência Espacial Canadense ocupam os assentos da cápsula Orion, que deve decolar no topo do SLS e retornar ao Pacífico depois de um sobrevoo lunar em alta velocidade.

O programa Artemis soma dezenas de bilhões de dólares em contratos, parcerias internacionais e compromissos políticos, e a segunda missão tripulada funciona como vitrine da capacidade técnica da agência. Cada atraso repercute em cadeia. Um problema no SLS agora empurra a agenda de pousos tripulados previstos para a segunda metade desta década, pressiona fornecedores e reacende o debate sobre custos e complexidade do foguete mais potente em operação.

A notícia pega a comunidade espacial de surpresa porque, horas antes da detecção da falha, a NASA divulga que o último ensaio completo do sistema termina sem anomalias. A avaliação interna é de que o cronograma de março está seguro. A descoberta repentina de um defeito em um subsistema crítico evidencia a margem estreita em que trabalha um programa dessa escala, em que um único componente fora de especificação reabre uma sequência inteira de checagens.

O impacto não é apenas técnico. A agência administra expectativas de um público que acompanha cada etapa desde o sucesso de Artemis 1, em 2022, quando uma Orion não tripulada orbita a Lua e retorna em segurança. Governos parceiros, como o Canadá, a Europa e o Japão, observam de perto, já que suas próprias missões, cargas e investimentos dependem da cadência de lançamentos do SLS nos próximos anos.

Segurança, cronograma e a disputa pela Lua

A retirada do SLS da plataforma 39B representa, na prática, a escolha deliberada da NASA pela segurança em detrimento da pressa. A manobra até o VAB, feita por um enorme veículo rastreado, leva horas e consome dias de preparação, e cada ida e volta adiciona custo e complexidade. Ainda assim, a agência insiste que não colocará a tripulação em risco para preservar uma data no calendário.

A decisão pesa ainda mais num cenário de disputa crescente pela Lua. A China acelera seu próprio programa tripulado e promete uma presença permanente na superfície lunar ainda nesta década. Empresas privadas, como SpaceX e Blue Origin, disputam contratos para pousadores e infraestrutura em órbita. Qualquer desvio no caminho de Artemis 2 é visto como oportunidade para rivais tecnológicos e geopolíticos.

Dentro do programa, o adiamento provável se transforma em teste político. Congressistas que defendem orçamentos robustos para a NASA cobram resultados visíveis, enquanto críticos apontam o SLS como um projeto caro e lento em comparação a foguetes reutilizáveis comerciais. Um atraso de três semanas pode parecer modesto, mas soma-se a uma série de revisões de cronograma e alimenta o argumento de quem pede mudanças estruturais.

O calendário de 2026 já concentra outros marcos relevantes da exploração espacial humana, pressionando centros de controle, equipes de engenharia e cadeias de suprimentos. Se Artemis 2 escorrega para abril, a agência precisará recalibrar simulações, treinamentos de tripulação e reservas de uso de radares, navios de resgate e redes de comunicação de longa distância.

Reparos, nova data e uma corrida contra o tempo

Os próximos dias definem o fôlego da missão. Engenheiros vão isolar o trecho afetado do sistema de hélio, inspecionar válvulas e linhas de pressão e decidir se o conserto exige a substituição de componentes. Só depois de uma nova rodada de testes, em solo e na plataforma, a NASA se arrisca a anunciar uma data revisada de lançamento.

A agência trabalha publicamente com a possibilidade de manter 2026 como o ano que marca o retorno de astronautas às proximidades da Lua, ainda que algumas semanas mais tarde que o desejado. Enquanto isso, a imagem do SLS deixando a torre na 39B rumo ao VAB simboliza o dilema central da exploração tripulada: cada passo em direção a outro mundo começa com a decisão de recuar um pouco na Terra.

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