Ciencia e Tecnologia

Falha em fluxo de hélio no SLS ameaça adiar missão Artemis 2

A NASA detecta uma falha no fluxo de hélio no estágio superior do foguete SLS e se prepara para retirá-lo da plataforma. O problema, identificado na noite de 20 de fevereiro, ameaça adiar para abril o lançamento da Artemis 2, previsto para 6 de março.

Inspeção de rotina vira corrida contra o relógio

O alerta surge no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, quando equipes examinam o Space Launch System (SLS) na plataforma 39B. Durante uma varredura na noite de sexta-feira, 20, técnicos percebem uma interrupção no fluxo de hélio no estágio superior, componente responsável por pressurizar tanques e garantir a alimentação correta dos motores.

Na manhã deste sábado (21), o administrador da NASA, Jared Isaacman, torna público o problema em uma postagem no X, antigo Twitter. Ele afirma que a falha “quase certamente afetará a janela de lançamento de março” e admite que o foguete deve deixar a plataforma para voltar ao Edifício de Montagem de Veículos (VAB), onde passará por uma inspeção detalhada e, se necessário, por reparos.

O cronograma atual prevê o lançamento da Artemis 2 entre 6 e 9 de março, com uma última possibilidade no dia 11. Caso o SLS não esteja pronto até lá, a agência perde a primeira oportunidade do ano de enviar astronautas de volta à vizinhança lunar. As próximas janelas úteis, segundo o site especializado Space, se abrem em abril, nos dias 1º, 3, 6 e 30.

A descoberta chega em um momento de confiança interna. Horas antes, a NASA celebrava um ensaio geral que, segundo a própria agência, “ocorrera de forma excelente”. Nenhum problema relevante havia sido detectado. O diagnóstico sobre o hélio derruba esse otimismo e recoloca o programa Artemis sob pressão de prazos, orçamentos e expectativas políticas.

Por que uma falha de hélio pode travar uma missão à Lua

O hélio não participa da queima que impulsiona o foguete, mas atua como gás de pressurização em sistemas internos. Sem esse fluxo constante, válvulas podem não se abrir no momento correto, tanques podem perder estabilidade e a alimentação de propelente para os motores pode falhar. Em um veículo do porte do SLS, qualquer anomalia nesse circuito se torna motivo de veto imediato ao lançamento.

A Artemis 2 é o primeiro voo tripulado do novo programa lunar da NASA. A missão leva três astronautas da agência e uma astronauta canadense em uma viagem de cerca de 10 dias ao redor da Lua, a bordo da cápsula Orion. O quarteto não pousa na superfície, mas testa, em condições reais, todos os sistemas que precisam funcionar antes de um novo desembarque humano no solo lunar, algo que não acontece desde a era Apollo, encerrada em 1972.

Um atraso agora não é apenas uma frustração para fãs de exploração espacial. O cronograma da NASA para a próxima década depende de uma sequência de lançamentos bem-sucedidos. A Artemis 2 funciona como ponte entre o voo não tripulado Artemis 1, concluído em 2022, e a Artemis 3, planejada para levar novamente humanos à Lua. Cada mês perdido aumenta a pressão sobre contratos bilionários e metas assumidas publicamente pelo governo dos Estados Unidos.

A janela de lançamento é outro fator que não admite improviso. Para que a missão funcione, a trajetória da Orion precisa se encaixar em um alinhamento específico entre a Terra e a Lua. Se o foguete perde essa combinação de ângulos, energia e tempo, o voo se torna mais caro, mais arriscado ou simplesmente inviável. Por isso, ao ultrapassar 11 de março, a NASA precisa aguardar cerca de três semanas até que um novo arranjo orbital volte a favorecer a viagem.

Pressão técnica, impacto político e próximos passos

A retirada do SLS da plataforma 39B, caso se confirme, exige uma operação complexa. O transporte de volta ao VAB consome dias e demanda checagens adicionais em toda a estrutura do foguete, que supera 98 metros de altura. Cada deslocamento desse porte aumenta o risco de surgirem novos ajustes e empurra ainda mais o calendário para a frente.

O adiamento potencial recai sobre a rotina dos quatro astronautas já designados, que seguem em treinamento intensivo para uma data específica. Também alimenta críticas de parlamentares que veem o programa Artemis como caro e atrasado, em um ambiente em que empresas privadas avançam com seus próprios veículos de grande porte. Um novo revés técnico fortalece o debate sobre custos e prioridades da agência.

A NASA, por outro lado, prefere assumir atrasos a correr riscos com uma tripulação a bordo. Cada falha detectada antes da decolagem reforça o discurso de que o sistema de segurança funciona. A forma como a agência lida com esse incidente, da transparência das informações às decisões sobre nova data, ajuda a moldar a confiança pública no retorno humano à Lua.

As próximas horas definem o tamanho do impacto. Engenheiros avaliam se a interrupção no fluxo de hélio pode ser solucionada na própria plataforma ou se a remoção ao VAB é inevitável. Se a resposta técnica for dura e exigir intervenções profundas, a missão Artemis 2 deixa de mirar março e passa a disputar, com margem mais apertada, os poucos dias disponíveis em abril. Enquanto a NASA redesenha o cronograma, a pergunta que permanece é se o SLS conseguirá cumprir, em ritmo compatível com as promessas, o papel de foguete símbolo da nova era lunar americana.

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