Extravasamento em mina da Vale alaga área da CSN em Ouro Preto
Um extravasamento de água com sedimentos em uma cava da Mina da Fábrica, da Vale, alaga áreas da CSN em Ouro Preto na madrugada deste domingo (25/1/2026). Oficinas, almoxarifado e acessos internos são invadidos pela lama, mas cerca de 200 funcionários são retirados sem ferimentos.
Lama avança sobre estrutura vizinha e força evacuação
A madrugada ainda é de incerteza quando a água barrenta rompe os limites da cava da Mina da Fábrica, na zona rural de Ouro Preto, Região Central de Minas. O fluxo desce em direção à unidade Pires, da CSN Mineração, e transforma áreas internas em um corredor lamacento, com correnteza que chega a 1,5 metro de altura em alguns pontos.
A movimentação dentro da CSN é imediata. O plano de ação de emergência interno é acionado, e cerca de 200 funcionários que estavam em um escritório e em áreas operacionais deixam o local às pressas. A retirada ocorre de forma organizada, segundo fontes ligadas à mineradora, e ninguém se fere. Três oficinas mecânicas, o almoxarifado, acessos internos e a área de embarque de minério ficam alagados.
Imagens gravadas por trabalhadores mostram a água turva arrastando objetos e cobrindo paredes até a metade. Em alguns trechos, caminhonetes e máquinas aparecem cercadas pela lama. As bacias de contenção da CSN conseguem segurar parte significativa do volume, mas a força da enxurrada atinge estruturas de apoio e interrompe a rotina de um dos principais polos de mineração da região.
A informação sobre o incidente corre rápido por grupos de mensagens em Congonhas e Ouro Preto. Moradores passam a falar em rompimento de barragem, lembrando tragédias recentes em Minas. A Defesa Civil de Congonhas informa que não é acionada oficialmente, mas decide enviar equipes ao local. A Prefeitura de Ouro Preto também desloca agentes da Secretaria de Segurança e Trânsito e do Departamento de Defesa Civil para vistoria in loco.
Vale nega relação com barragens e fala em extravasamento controlado
Horas depois, a Vale tenta conter outra onda, a de boatos. Em nota, a mineradora afirma que não há rompimento de barragem e que a ocorrência se restringe a uma cava da Mina da Fábrica. “Houve extravasamento de água com sedimentos de uma cava da mina de Fábrica, em Ouro Preto (MG). O fluxo alcançou algumas áreas de uma empresa. Pessoas e a comunidade da região não foram afetadas”, diz o comunicado.
A companhia reforça que as barragens sob sua responsabilidade na região “seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança e monitoradas 24 horas por dia, 7 dias por semana”. As causas do extravasamento ainda estão sob apuração interna. A empresa diz ter comunicado os órgãos ambientais e reguladores e afirma que “prioriza a proteção das pessoas, comunidades e meio ambiente”.
Do lado da CSN Mineração, o tom é de cautela e acompanhamento próximo. A empresa confirma que o alagamento começa “na madrugada de hoje (25/1)” após “uma ocorrência em uma cava pertencente à Mineradora Vale” e detalha as áreas afetadas: almoxarifado, acessos internos, oficinas mecânicas e área de embarque. “Importante ressaltar que todas as estruturas de contenção de sedimentos da CSN Mineração estão operando normalmente”, informa a companhia.
Equipes de ambas as empresas se concentram, ao longo da manhã, na limpeza das áreas tomadas pela água e pela lama. Profissionais começam a remover resíduos, avaliar danos em máquinas e reconstruir acessos internos. Ao mesmo tempo, técnicos aguardam a chegada de fiscais ambientais do estado e da União, que devem medir o alcance do impacto sobre o solo, cursos d’água e sistemas de drenagem locais.
O secretário de Defesa Civil de Ouro Preto, Moisés Santos, confirma que o órgão recebe a informação sobre o “possível colapso” ainda de madrugada e desloca equipes para checar o cenário. A Prefeitura destaca que o episódio ocorre em área rural distante da sede do município e de distritos mais povoados, o que reduz o risco imediato para moradores. “Neste momento, agentes […] estão se deslocando até o local para averiguação in loco”, registra a nota oficial.
Pressão por transparência e reforço na segurança da mineração
O extravasamento reacende a sensibilidade em torno da mineração em Minas Gerais quase uma década após o desastre de Mariana, em 2015, e sete anos depois de Brumadinho, em 2019. Mesmo sem vítimas e sem impacto direto em comunidades, qualquer anormalidade em estruturas da Vale provoca desconfiança e atenção redobrada de moradores, gestores públicos e investidores.
A diferença central, neste episódio, está na resposta rápida e na abrangência limitada da lama. O fluxo se concentra em áreas industriais da CSN, protegidas por bacias de contenção que conseguem segurar boa parte do volume. Não há registro de contaminação de rios até o momento, nem de interdição de estradas públicas. O dano, por ora, é material e operacional, com paralisação parcial de oficinas e áreas de embarque.
A cena de veículos ilhados e estruturas cobertas de barro, no entanto, expõe a fragilidade de pontos intermediários do sistema de gestão de água e rejeitos, como cavas e reservatórios auxiliares. Especialistas costumam alertar que a segurança não depende apenas da integridade final de grandes barragens, mas também da eficiência de canais de drenagem, diques menores e estruturas de transbordo, que podem falhar em períodos de chuva intensa.
A investigação sobre as causas do extravasamento deve apontar se houve falha de projeto, erro operacional, obstrução por sedimentos ou combinação desses fatores. Eventuais conclusões podem resultar em ajustes técnicos, reforço em canais de escoamento, ampliação de bacias de contenção e revisão de protocolos de monitoramento em tempo real. Órgãos como a Agência Nacional de Mineração (ANM) e órgãos ambientais estaduais tendem a exigir relatórios detalhados, com prazos específicos para correção de problemas.
Para trabalhadores, o episódio funciona como teste dos planos de emergência internos. A evacuação de cerca de 200 pessoas sem feridos indica que o protocolo é conhecido e aplicado, mas a proximidade da lama de áreas de circulação levanta dúvidas sobre sinalização, rotas de fuga e treinamento contínuo. Sindicatos e associações de empregados acompanham o caso e podem pressionar por simulados mais frequentes e melhorias na comunicação de risco dentro das plantas.
Fiscalização em campo e expectativa por laudos técnicos
Os próximos dias serão decisivos para dimensionar o impacto do extravasamento e definir responsabilidades. Equipes ambientais devem coletar amostras de água e solo, checar a presença de metais pesados e avaliar se o material carreados pelos sedimentos altera a qualidade de córregos próximos. Laudos técnicos costumam levar semanas, mas inspeções preliminares podem apontar, ainda neste início de semana, se há necessidade de medidas emergenciais adicionais.
A Vale promete colaborar com todas as investigações e insiste que o episódio não altera o quadro de estabilidade de suas barragens na região. A CSN Mineração, por sua vez, acompanha a situação “de forma permanente” e já aciona autoridades competentes. Prefeituras de Ouro Preto e Congonhas mantêm equipes em campo para monitorar qualquer mudança no cenário.
Enquanto a limpeza avança nas áreas internas e os sistemas de drenagem são desobstruídos, permanece a pergunta que move mineradoras, órgãos públicos e moradores: o que precisa mudar na operação diária para que episódios como este não se repitam, mesmo em menor escala? A resposta, mais uma vez, passa por transparência, fiscalização efetiva e capacidade de transformar cada ocorrência em correção concreta, antes que a lama deixe de ser apenas um susto operacional.
