Exportações do Ceará para a União Europeia disparam e geram superávit recorde
As exportações do Ceará para a União Europeia somam US$ 447,1 milhões em 2025, alta de 72% em relação a 2024, e levam a balança comercial a um superávit recorde de US$ 197 milhões. O avanço reverte o déficit de US$ 45 milhões do ano passado e consolida o estado como fornecedor estratégico de aço, frutas frescas e minerais industriais para o bloco europeu.
Ceará ganha espaço em um mercado mais exigente
O salto nas vendas ocorre em um momento em que a Europa revisa cadeias de suprimento, busca fornecedores mais estáveis e aperta as regras ambientais para produtos importados. Nesse cenário, empresas cearenses ocupam espaço em nichos de maior valor, enquanto o estado combina localização geográfica favorável, porto estruturado e uma base produtiva mais complexa do que há uma década.
Estudo do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará mostra que, em 2025, 26 países europeus compram produtos cearenses. Cinco deles concentram cerca de 80% das vendas: Itália, Países Baixos, França, Polônia e Alemanha. Os dados ajudam a explicar por que o Ceará entra fortalecido na reta final de negociação e possível implementação, a partir de 2026, do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia.
A gerente do CIN, Karina Frota, vê o tratado como um acelerador de uma relação que já está em curso. “Vamos analisar de forma estratégica as adaptações necessárias para os benefícios do acordo, conforme o cronograma previsto. Após a aprovação legislativa, a implementação acontecerá de forma gradual”, afirma. A transição, segundo ela, exigirá ajustes regulatórios, certificações e adaptação a padrões técnicos europeus.
Os números revelam uma mudança de posição do Estado na rota atlântica. A Itália assume a liderança como maior mercado individual, com 20,8% das exportações e compras de US$ 93 milhões. A demanda cresce com a expansão das vendas de quartzitos, muitos extraídos de municípios como Uruoca, e com a consolidação dos produtos siderúrgicos do Complexo do Pecém, que passam a disputar espaço com fornecedores tradicionais.
Os Países Baixos aparecem logo atrás, com 20,2% e US$ 90,4 milhões, em um papel menos visível ao consumidor final, mas central na logística. O país funciona como hub do bloco, recebendo melões frescos, preparações de frutas e gorduras vegetais, que depois seguem redistribuídos para outros mercados europeus. França, com 16,7% (US$ 74,7 milhões), concentra compras de ferro, aço e combustíveis minerais. Polônia, com 13,2% (US$ 59 milhões), surge como novo destino da siderurgia cearense. Alemanha, com 10,8% (US$ 48,2 milhões), reforça a demanda por gorduras vegetais, frutas e produtos siderúrgicos.
Superávit vem de aço, frutas, minerais e queda nas importações
O resultado recorde na balança não nasce apenas da alta nas exportações. O estudo do CIN aponta recuo de 18% nas importações cearenses vindas da União Europeia, que somam US$ 250 milhões em 2025. A combinação das duas pontas explica o saldo positivo de US$ 197 milhões e mostra uma relação que se torna menos dependente de compras externas de alto valor agregado.
A Alemanha lidera como principal fornecedora, com 25,3% das importações e US$ 63,3 milhões, principalmente em máquinas, equipamentos mecânicos, plásticos e instrumentos de precisão. Os Países Baixos ocupam a segunda posição, com US$ 57,2 milhões, quase inteiramente em combustíveis minerais. A Itália responde por US$ 42,9 milhões e se destaca como vetor de crescimento, com aumento de 84,4% nas vendas, impulsionado por bens de capital, sobretudo máquinas industriais, que triplicam em relação ao ano anterior.
Espanha, com US$ 27,5 milhões, mantém foco no fornecimento de ferro e aço, apesar da queda nas vendas de combustíveis minerais. França, com US$ 11,7 milhões, especializa a pauta com produtos químicos orgânicos e máquinas elétricas. O recuo nas importações, em especial de combustíveis e parte de bens industriais, reforça o saldo positivo, mas não elimina a dependência de equipamentos europeus para modernização de fábricas e infraestrutura local.
Para o economista Eldair Melo, conselheiro do Corecon-CE, o movimento cearense está ligado a transformações mais amplas. “A Europa busca fornecedores mais estáveis e com padrões socioambientais mais altos”, avalia. Ele lembra que crises globais recentes, da pandemia à guerra na Ucrânia, empurram empresas e governos europeus a diversificar origens de insumos, inclusive na América do Sul.
O Ceará chega a esse momento com ativos que antes não estavam maduros. A operação do Complexo do Pecém, com terminal portuário e parque siderúrgico, ganha escala e reduz custos logísticos. A cadeia de frutas frescas, como o melão, já opera com alto grau de profissionalização, uso intensivo de tecnologia e capacidade de atender exigências fitossanitárias rígidas. A extração e beneficiamento de minerais industriais, como quartzitos, completam um tripé que sustenta o salto nas exportações.
A concentração em poucos setores, porém, traz riscos. A siderurgia depende do ciclo global do aço, sujeito a excesso de oferta e desaceleração econômica. Frutas frescas enfrentam variações climáticas, gargalos logísticos e barreiras sanitárias, que podem fechar rapidamente um mercado. Minerais industriais sofrem com volatilidade de preços e competição de outros fornecedores emergentes.
Desafio é agregar valor antes da largada do acordo Mercosul–UE
Eldair Melo defende que o próximo passo precisa ir além de vender mais volume. “O desafio central não é apenas exportar mais para a Europa, mas exportar com maior valor agregado e impacto no desenvolvimento local”, diz. Na avaliação dele, a pauta comercial ainda concentra commodities e produtos de baixa ou média transformação, deixando no exterior parte importante da renda que poderia ser gerada no estado.
A recomendação é diversificar e sofisticar a produção, com foco em agroindústria processada, metalurgia de maior conteúdo tecnológico, cadeias ligadas à transição energética e economia verde. O acordo Mercosul–União Europeia, previsto para começar a ser implementado em 2026, pode reforçar essa trajetória ao reduzir tarifas, facilitar acesso a insumos tecnológicos e exigir padrões ambientais mais rígidos, que já começam a ser incorporados por empresas com atuação internacional.
Karina Frota destaca que a fase que antecede a vigência do acordo é decisiva. A equipe do CIN trabalha em cenários de adaptação a novas regras e oportunidades de integração produtiva com parceiros europeus. A expectativa é de que empresas cearenses se preparem para ganhar escala, certificar produtos e disputar espaços hoje ocupados por concorrentes asiáticos e africanos.
A reorganização da relação comercial também passa por investimentos em infraestrutura e logística, dentro e fora do porto. Essa agenda inclui desde melhorias em rodovias que ligam polos de fruticultura e mineração ao litoral até a expansão de serviços especializados em comércio exterior, seguros e financiamento. A construção de um data center no Complexo do Pecém, ainda em debate, é vista por parte do setor produtivo como peça potencial para atrair serviços de tecnologia associados às cadeias exportadoras.
O Ceará entra na negociação do acordo Mercosul–União Europeia em posição estatisticamente mais confortável, com superávit recorde e presença consolidada em cinco grandes mercados do bloco. O teste real virá nos próximos anos: transformar essa vantagem num ciclo duradouro de investimentos, empregos qualificados e inovação, ou permanecer preso à oscilação de preços de aço, frutas e minerais em um mercado europeu cada vez mais competitivo.
