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Exoneração de gerente acirra crise interna no IBGE sob Pochmann

A direção do IBGE exonera nesta quarta-feira (28) a gerente Ana Raquel Gomes da Silva, da área responsável pelas publicações do instituto, no Rio de Janeiro. A demissão ocorre em meio ao agravamento da crise entre o corpo técnico e a gestão do presidente Marcio Pochmann.

Demissão em meio a embates e acusações de retaliação

Ana Raquel chefiava a Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais, responsável por revisar e organizar periódicos e produtos editoriais do IBGE. A exoneração é comunicada em reunião interna na manhã desta quarta, na sede do instituto, e ainda aguarda formalização no Diário Oficial da União.

O sindicato dos servidores, Assibge, classifica a medida como “mais uma medida retaliatória” da atual gestão. Em nota, a entidade afirma que a gerente e sua equipe travam embates públicos com a direção em defesa de critérios técnicos e da história institucional. “Esse caso se soma a diversas outras exonerações e remoções arbitrárias promovidas pela gestão Marcio Pochmann, que vem conduzindo uma caça às bruxas contra servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do IBGE”, diz o texto.

A presidência do IBGE confirma, em comunicado divulgado à tarde, que Ana Raquel será substituída por José Márcio Batista Rangel, hoje na coordenação de marketing. O órgão destaca que Rangel é bacharel em jornalismo e publicidade, tem mestrado em ciência da informação e especialização em comunicação corporativa. Segundo o IBGE, ele está no serviço público federal desde 2008 e atua na elaboração, tradução e revisão de documentos técnicos no Arquivo Nacional e no Conselho Nacional de Arquivos. A nota agradece os serviços de Ana Raquel e deseja sucesso ao novo gerente.

Em carta enviada a colegas, a servidora fala em gestão “desastrada” e em ambiente interno que “tem se degradado progressivamente”. Ela indica que pretende buscar a aposentadoria e afirma que, apesar da turbulência, o corpo técnico continuará produzindo informações “alinhadas, como sempre, aos mais sólidos princípios e metodologias internacionais”.

Propaganda em publicação e início da crise

A queda de Ana Raquel é o desfecho de um atrito que começa um ano antes, em 2025, quando ela e outro servidor denunciam o uso de uma publicação do instituto para divulgar ações do governo de Pernambuco. O caso envolve o anuário “Brasil em Números”, vitrine estatística do IBGE. Segundo os técnicos, a direção aprova um material em que a gestão estadual enumera projetos em áreas como educação, habitação e emprego, em tom de balanço administrativo.

O prefácio traz assinatura da governadora Raquel Lyra (PSD) e frases que, na avaliação de servidores, rompem a neutralidade esperada de um produto oficial. “Temos o terceiro melhor ensino médio público do Brasil, somos o terceiro estado que mais gera emprego no país, e o nosso Produto Interno Bruto (PIB) cresceu acima da média nacional, durante o último trimestre”, diz um dos trechos. A reação interna é imediata, e o episódio vira símbolo da disputa sobre o limite entre divulgação institucional e propaganda política.

Depois da repercussão, Pochmann defende a parceria com o governo estadual como forma de viabilizar a publicação em cenário de restrição orçamentária. Segundo ele, não há “nenhum ferimento à forma” de tratar as informações. O argumento não arrefece a insatisfação de parte do corpo técnico, que vê na prática um risco à imagem de imparcialidade construída ao longo de décadas.

A crise, porém, não nasce ali. Desde o segundo semestre de 2024, servidores se organizam contra mudanças conduzidas pela atual gestão, que assume em agosto de 2023 após indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Um dos estopins é o projeto da fundação IBGE+, apresentado como alternativa para ampliar parcerias com o setor privado. O estatuto, que abre espaço para produção de estudos sob encomenda de empresas, é apelidado de “IBGE paralelo” e suspenso em janeiro de 2025 após forte reação interna.

Impacto sobre a credibilidade e o clima interno

A exoneração desta quarta ocorre menos de dez dias depois da demissão de Rebeca Palis da coordenação de contas nacionais, área que calcula o PIB. A saída, confirmada em 19 de janeiro, provoca um efeito em cadeia: ao menos três gerentes entregam seus cargos em solidariedade à pesquisadora. Deixam as funções Cristiano Martins, responsável pela gerência de bens e serviços, Claudia Dionísio, das contas nacionais trimestrais, e Amanda Tavares, gerente substituta.

Os movimentos aumentam a tensão num momento sensível. O IBGE se prepara para divulgar, em 3 de março, o resultado do PIB do quarto trimestre e o acumulado de 2025, indicador central para governos, investidores e famílias. Servidores ouvidos reservadamente expressam receio de que a imagem de interferência política contamine a confiança nos números, mesmo que os procedimentos técnicos permaneçam intocados.

As críticas à direção ganham forma em cartas públicas, nas quais pesquisadores falam em “viés autoritário, político e midiático”. Rebeca está entre os signatários de um manifesto divulgado em janeiro de 2025. Pochmann reage em entrevistas e encontros internos. Numa fala recente, sem citar diretamente as mudanças nas contas nacionais, ele afirma que sua função é tomar decisões e rejeita o rótulo de autoritário. “Muitas vezes o colega fala em determinada decisão: ‘Ah, isso é autoritarismo’. Para um pouquinho, vamos estudar então o que foi o IBGE nos anos 1960 e 1970, sob a ditadura militar”, diz. “Quantos colegas do IBGE foram presos, demitidos, perseguidos? O que era trabalhar numa instituição em que havia censor?”

O desconforto não se limita a cargos de chefia. Segundo o Assibge, a equipe que trabalhava com Ana Raquel será transferida para um prédio do IBGE em Parada de Lucas, na zona norte do Rio. A unidade fica a cerca de 20 quilômetros da sede na Tijuca, também na zona norte, e, de acordo com relatos de servidores, não passa pelas reformas consideradas necessárias. A entidade também aponta preocupação com a violência na região. A mudança é interpretada internamente como punição indireta ao grupo.

Próximos passos e riscos para o instituto

O acúmulo de exonerações, remoções e pedidos de saída em áreas estratégicas pressiona a cúpula do IBGE e alimenta a expectativa de novas reações fora da instituição. Parlamentares e órgãos de controle podem intensificar a cobrança por explicações formais sobre critérios de escolha de dirigentes, regras de parcerias e proteção à autonomia técnica. A disputa em torno de publicações como o “Brasil em Números” tende a acelerar a revisão de manuais internos de comunicação e de filtros para prefácios, textos institucionais e colaborações externas.

No curto prazo, o principal teste recai sobre a próxima divulgação do PIB. Qualquer ruído, atraso ou divergência metodológica ganha peso maior em um ambiente de desconfiança. A médio prazo, a pergunta que orienta servidores e usuários das estatísticas oficiais é se o IBGE conseguirá atravessar a turbulência sem abalar sua autoridade construída em mais de sete décadas. Entre cartas de protesto e trocas no comando, a batalha passa a ser não só pelos cargos, mas pela fronteira entre decisão política legítima e ingerência sobre o que os números podem ou não dizer.

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