Ex-vereadora é morta em casa no RS; polícia apura feminicídio
A ex-vereadora de Nova Prata e diretora administrativa da Secretaria de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul, Roseli Vanda Pires Albuquerque, 47 anos, é encontrada morta dentro do apartamento onde mora, no centro do município, na madrugada deste sábado (21/2). O ex-marido, Ari Albuquerque, com quem foi casada por 28 anos, também aparece sem vida no local. A Polícia Civil investiga o caso como feminicídio ocorrido durante o processo de separação do casal.
Crime em meio à separação choca cidade da Serra Gaúcha
O relógio marca cerca de 3h30 quando a rotina silenciosa do centro de Nova Prata se rompe. Dentro do prédio onde Roseli vive, a Brigada Militar é acionada após a mãe da ex-vereadora avisar que recebe, instantes antes, uma mensagem da filha e não consegue mais falar com ela. Ao entrar no apartamento, os policiais encontram Roseli e Ari já sem sinais vitais.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) confirma as duas mortes. O imóvel é isolado para perícia e a investigação fica a cargo da Delegacia de Polícia de Nova Prata. De acordo com as primeiras informações, Ari não reside mais no local há cerca de seis meses, desde o início da separação, mas mantém a chave do apartamento. Não há registro de medida protetiva solicitada por Roseli contra o ex-marido.
Horas antes do crime, a ex-vereadora janta com um dos filhos, a nora e uma amiga. O encontro, típico de uma sexta-feira comum, é registrado em fotos e publicado nas redes sociais. Pouco depois, a madrugada encerra de forma brutal os 28 anos de história compartilhada pelo casal e interrompe a trajetória política e profissional de uma figura conhecida na região.
Responsável pelo inquérito, a delegada Liliane Kramm afirma que o caso é tratado como feminicídio, crime de ódio motivado pela condição de gênero, incluído no Código Penal brasileiro desde 2015. “Era uma pessoa muito querida na cidade”, resume a delegada, ao confirmar que a hipótese principal é de que Ari ataque a ex-mulher e, em seguida, tire a própria vida.
De liderança local a símbolo de uma estatística em alta
Natural de Paraí, na mesma região serrana, Roseli constrói carreira política e administrativa ao longo de duas décadas. Ex-vereadora de Nova Prata, participa ativamente da política local e estadual. Em 2020, disputa o cargo de vice-prefeita pelo PSD, em chapa com Volnei Minozzo. No Legislativo, mantém atuação ligada a políticas públicas e ações comunitárias. Também atua como assessora parlamentar do ex-deputado estadual Danrlei antes de assumir a diretoria administrativa da Secretaria de Esporte e Lazer do Estado.
A notícia da morte percorre a cidade de cerca de 27 mil habitantes desde as primeiras horas da manhã. Nas redes sociais, moradores e autoridades locais destacam o envolvimento de Roseli em projetos sociais e esportivos. A Prefeitura de Nova Prata divulga nota de pesar e anuncia luto oficial de três dias. “Em reconhecimento à sua dedicação à vida pública e aos serviços prestados à comunidade, foi decretado Luto Oficial de três dias”, informa a gestão municipal.
O caso reacende o alerta sobre violência doméstica e feminicídios no país. No Brasil, uma mulher é morta, em média, a cada sete horas em crimes classificados como feminicídio, segundo dados recentes de organismos oficiais. A maior parte dos agressores é companheiro ou ex-companheiro, muitas vezes em contextos de separação, quando aumentam as ameaças e o controle sobre a vida da vítima.
No apartamento de Roseli, a polícia tenta reconstruir minuto a minuto o que acontece até a madrugada de sábado. A investigação analisa mensagens, ligações e o histórico do relacionamento. A ausência de medida protetiva registrada no sistema será examinada em detalhes. Especialistas ouvidos por autoridades apontam que pedidos de proteção ainda esbarram em medo, vergonha e falta de informação sobre os caminhos legais disponíveis.
Investigação, proteção e o debate sobre violência de gênero
A Delegacia de Polícia de Nova Prata conduz o inquérito e trabalha com prazos legais que podem chegar a 30 dias, prorrogáveis, para concluir as apurações. A perícia no apartamento deve indicar a dinâmica exata do crime, os tipos de ferimentos e a sequência dos fatos. A análise de celulares e computadores de Roseli e Ari tende a revelar se há ameaças anteriores, brigas recentes ou planejamentos de encontro na madrugada.
O caso coloca em evidência um ponto sensível da proteção às mulheres em processo de ruptura conjugal. Separações de longa duração, como os 28 anos de casamento de Roseli e Ari, costumam envolver dependência emocional, financeira e redes familiares entrelaçadas. Organizações que atuam com violência doméstica alertam que o período entre o fim da relação e a consolidação da nova rotina é um dos mais perigosos. A morte de uma liderança pública reconhecida na região dá rosto a essa estatística e pressiona o poder público por respostas mais rápidas.
Roseli deixa dois filhos, que agora lidam com a perda repentina da mãe e com o choque da morte do pai no mesmo episódio. A cidade entra em luto, mas também em discussão. Em conversas nas ruas e nas redes sociais, moradores questionam se sinais anteriores foram ignorados, se o Estado poderia ter agido antes e que tipo de rede de apoio está disponível para mulheres em situação de risco.
Nos próximos dias, a Delegacia deve ouvir familiares, amigos e pessoas próximas ao casal, além de aguardar laudos periciais. A conclusão do inquérito vai definir responsabilidades e esclarecer a sequência dos acontecimentos naquela madrugada. A cada nova informação, o caso de Roseli se soma a um debate mais amplo, que ultrapassa as fronteiras de Nova Prata e volta a perguntar que medidas, na prática, podem impedir que discussões de separação terminem em morte.
