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Ex-presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol é condenado à prisão perpétua

O ex-presidente da Coreia do Sul Yoon Suk Yeol é condenado à prisão perpétua por insurreição nesta quinta-feira (19/2), em Seul. A Justiça o responsabiliza por liderar a tentativa de golpe e o decreto de lei marcial de dezembro de 2024.

Decreto noturno, tropas nas ruas e ruptura política

O veredicto encerra, ao menos nos tribunais, uma crise que começa na noite de 3 de dezembro de 2024, quando Yoon decreta lei marcial e ordena a mobilização de tropas em torno da Assembleia Nacional. Em poucas horas, o país mergulha em incerteza, partidos suspendem atividades e canais de TV exibem, em tempo real, o avanço de veículos militares por Seul.

Yoon, então com 65 anos, manda prender políticos da oposição e tenta isolar o Parlamento, numa manobra que o tribunal agora classifica como insurreição e tentativa de subversão da Constituição. A juíza Ji Gwi-yeon afirma que o ex-presidente atua como “principal insurgente” e que sua intenção é “paralisar a Assembleia por um período considerável”.

O decreto dura poucas horas, mas deixa marcas profundas. A oposição transforma o episódio em símbolo de autoritarismo e pede a cabeça do presidente. Em abril de 2025, após processo de impeachment e série de denúncias criminais, Yoon é destituído do cargo. O Partido Democrático, de centro-esquerda, colhe os frutos na urna: vence as eleições parlamentares de abril de 2024 por margem expressiva e, em junho de 2025, leva a Presidência com a vitória de Lee Jae-myung.

O julgamento por insurreição se torna o ponto mais sensível dessa reviravolta. Promotores pedem a pena de morte e descrevem Yoon como “impiedoso”, argumentando que qualquer punição mais branda enviaria “um recado fraco” a futuros conspiradores. A Corte rejeita a execução, mas impõe prisão perpétua, a sanção mais dura já aplicada a um ex-chefe de Estado sul-coreano desde a redemocratização em 1987.

País dividido entre golpe e defesa da ordem

Do lado de fora do tribunal, centenas de manifestantes se aglomeram sob temperaturas de inverno. Cartazes alternam acusações de “traidor” e gritos por anistia. Grupos pró-Yoon, muitos compostos por homens jovens e idosos, erguem bandeiras nacionais e repetem slogans contra a esquerda. “No início, eu não apoiava Yoon, mas a lei marcial abriu meus olhos”, diz o músico Oh Jung-hyuk, de cerca de 50 anos, à BBC. “Podemos ver o quão profundamente enraizadas estão as forças de esquerda em nossa sociedade.”

A cena repete, em escala ampliada, os protestos que tomam as ruas no fim de 2024 e ao longo de 2025. Em uma ponta, manifestantes pedem prisão do presidente e de seus ministros. Na outra, apoiadores denunciam suposta fraude eleitoral em 2024, falam em interferência da China e defendem que o Partido Democrático quer unificar o país com a Coreia do Norte. Teorias da conspiração, que permanecem à margem por anos, entram de vez no debate público.

Analistas atribuem parte desse ambiente ao próprio Yoon. Como presidente, ele acusa “forças comunistas norte-coreanas” infiltradas na oposição e trata adversários como “elementos antinacionais”. Durante o julgamento, não recua. Classifica a lei marcial como “medida para proteger a liberdade e a soberania do povo e preservar a nação e sua Constituição”.

A narrativa encontra eco em canais de YouTube de direita com centenas de milhares de inscritos, que falam em perseguição política e golpe do Judiciário. Para professores como Don S. Lee, da Universidade Sungkyunkwan, o caminho é mais terreno: um presidente eleito em 2022 por menos de 1% dos votos, com promessa de “princípios, transparência e eficiência”, chega a 2024 encurralado por escândalos, baixa aprovação e um Congresso hostil.

Ao mesmo tempo em que enfrenta queda de popularidade, Yoon vê a primeira-dama, Kim Keon Hee, entrar no centro da crise. A esposa é acusada de tráfico de influência e de receber bolsas de luxo de um pastor. Em novembro de 2024, ele pede desculpas em nome dela, mas bloqueia tentativas de investigação no Parlamento. A estratégia desagrada até aliados e incentiva a oposição a endurecer o jogo, com corte de orçamento e ameaças de impeachment a ministros que se recusam a apurar o caso.

Impacto institucional e recado às democracias

O caso Yoon redefine o limite entre disputa política dura e ataque frontal às regras do jogo na Coreia do Sul. A Constituição do país concede imunidade penal ao presidente em exercício, exceto nos casos de insurreição e traição. A decisão desta quinta-feira fixa na prática o significado dessa exceção: ordenar prisões de adversários e usar tropas para silenciar o Parlamento é tratado como crime máximo de Estado.

Ex-ministros também pagam preço alto. Han Duck-soo, primeiro-ministro que assume interinamente após a destituição de Yoon, recebe pena de 23 anos de prisão por participação na tentativa de insurreição. O ex-ministro do Interior, Lee Sang-min, é condenado a 7 anos. Os tribunais classificam a mesma noite de 3 de dezembro como marco de ruptura, reforçando a ideia de que lei marcial, ali, se torna sinônimo de golpe fracassado.

No plano político, o Partido do Poder Popular, legenda de Yoon, entra em desordem. Lideranças regionais disputam o comando, facções brigam por distância segura do ex-presidente e candidatos evitam usá-lo em campanhas, embora precisem da sua base mais fiel. A oposição, agora no governo com Lee Jae-myung, colhe vitória, mas herda um país polarizado, com parte do eleitorado convencida de que a democracia funciona contra, e não a seu favor.

Analistas ouvidos pela imprensa internacional apontam também o impacto externo. A Coreia do Sul, frequentemente citada como exemplo de sucesso democrático no Leste Asiático, passa a ser examinada como laboratório de resistência institucional a golpes internos. O endurecimento das sentenças é lido como recado a militares, presidentes e futuros candidatos que cogitem usar a agenda anticomunista ou a tensão com o Norte como justificativa para concentrar poder.

Um ex-promotor no banco dos réus e as perguntas abertas

A trajetória de Yoon adiciona camadas de ironia à cena desta quinta-feira. Promotor de carreira, ele ganha projeção nacional ao conduzir o caso de corrupção contra a ex-presidente Park Geun-hye, destituída em 2016. Em 2022, transforma essa fama em capital eleitoral e vence por margem mínima o liberal Lee Jae-myung, apoiado por jovens homens com discurso antifeminista e linha dura com a Coreia do Norte.

Quatro anos depois, o ex-caçador de poderosos aparece algemado, condenado primeiro a 5 anos por abuso de poder e obstrução da própria prisão, e agora a prisão perpétua por insurreição. Ao deixar o tribunal, mantém o tom desafiador. Afirma que “a verdade vai prevalecer” e que “a história julgará” sua decisão de decretar lei marcial.

A defesa promete recorrer às instâncias superiores, em um processo que pode se arrastar por anos, mesmo com Yoon já atrás das grades. O atual governo discute, em paralelo, reformas para reforçar controles sobre o uso de forças armadas em crises políticas e para limitar ainda mais os poderes presidenciais em fim de mandato.

O país segue dividido entre quem vê na sentença a confirmação de que as instituições resistem a aventuras autoritárias e quem enxerga apenas perseguição aos derrotados. A Coreia do Sul tenta virar a página, mas a pergunta que paira sobre Seul é menos jurídica e mais política: até onde uma democracia consegue punir seus próprios líderes sem aprofundar as fissuras que eles mesmos ajudaram a abrir?

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