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EUA tentam selar paz na Ucrânia até março de 2026 com referendo e nova eleição

A administração Donald Trump pressiona Ucrânia e Rússia por um acordo de paz e eleições nacionais até março de 2026, em negociações reservadas em Abu Dhabi e Miami. A meta inclui um referendo sobre o controle de territórios ocupados, como o Donbass, e a substituição do atual governo ucraniano.

Trump busca encerrar guerra e virar a página até 2026

O novo prazo surge depois de mais de um ano de promessas frustradas de uma solução rápida para a guerra iniciada em fevereiro de 2022. Primeiro, aliados de Trump falam em 24 horas para encerrar o conflito. Depois, em 100 dias. Agora, três fontes com acesso direto às conversas trilaterais relatam à agência Reuters que o alvo é março de 2026, com possibilidade de prorrogação para maio.

As discussões envolvem delegações dos três países e se concentram em dois pontos centrais: o destino do leste da Ucrânia e o futuro político de Kiev. A equipe norte-americana, liderada pelo enviado especial Steve Witkoff e pelo genro de Trump, Jared Kushner, defende um pacote que combina cessar-fogo, referendo territorial e eleições nacionais. O desenho do plano responde, ao mesmo tempo, a interesses russos e às prioridades eleitorais da Casa Branca.

Referendo no Donbass e pressão por saída de Zelensky

O impasse territorial continua a travar qualquer avanço mais robusto. Moscou insiste no controle de todo o Donbass, região industrial no leste, consolidando a ocupação de áreas já anexadas em 2022. Kiev rejeita ceder território sem algum tipo de legitimação popular. A proposta americana tenta contornar o bloqueio com um referendo supervisionado internacionalmente, no qual eleitores decidiriam a quem pertencem as áreas em disputa.

O modelo, porém, é visto com desconfiança em Kiev, que lembra plebiscitos organizados pela Rússia em zonas ocupadas, sem reconhecimento internacional. Ainda assim, negociadores ucranianos admitem estudar a ideia, desde que a votação ocorra em condições de segurança e com eleitores registrados antes da guerra. “A Ucrânia não abdica de território por decreto ou chantagem militar”, afirma publicamente o presidente Volodymyr Zelensky, que condiciona qualquer concessão à consulta à população.

Ao mesmo tempo, a Casa Branca de Trump insiste na realização de eleições nacionais na Ucrânia assim que um esboço de paz esteja fechado. Em conversas recentes em Abu Dhabi e Miami, a delegação americana reforça que o pleito precisa ocorrer “em breve”, segundo pessoas a par das reuniões. A pressa coincide com um desejo antigo do presidente russo, Vladimir Putin, de ver Zelensky fora do poder e substituído, se possível, por um líder mais pragmático ou abertamente pró-Rússia.

A pressão por eleições levanta temores em Kiev de que o processo acabe contaminado por influência externa, em meio a um país exausto por mais de quatro anos de guerra e deslocamento em massa. Autoridades ucranianas alertam que organizar uma votação nacional segura exige, no mínimo, seis meses de preparação, da atualização de cadastros ao reposicionamento de eleitores que fugiram das zonas de combate.

Calendário eleitoral dos EUA pesa sobre negociações

Por trás do calendário ucraniano, há um relógio ainda mais rígido: as eleições intercalares dos Estados Unidos, marcadas para novembro de 2026. Trump quer chegar à disputa com um conflito a menos no noticiário e mais espaço para focar na economia e na segurança interna. Uma guerra em aberto na Europa, com impacto sobre energia e inflação global, dificulta esse plano.

Assessores admitem, em privado, que a Casa Branca prefere encerrar o dossiê Ucrânia até o primeiro semestre de 2026, antes da fase mais intensa da campanha para renovar toda a Câmara e um terço do Senado. “Quanto mais cedo resolvermos isso, melhor para o país”, argumenta um aliado, em conversa sob reserva. A priorização do cálculo doméstico reforça críticas de que a negociação pode atender mais às urgências políticas de Washington do que às necessidades de segurança de Kiev.

Enquanto o acordo amplo não se materializa, os negociadores se concentram em medidas pontuais. Ucrânia e Rússia concordam em trocar 314 prisioneiros de guerra e sinalizam abertura para novos encontros. Zelensky afirma que a próxima rodada pode ocorrer em território americano, o que daria a Trump a imagem de mediador direto entre as partes. Moscou, por sua vez, arrasta discussões técnicas e tenta ganhar tempo no terreno militar, ampliando posições e consolidando linhas de defesa.

País exausto, guerra prolongada e uma paz incerta

A eventual combinação de referendo territorial e eleição presidencial redefine o mapa de poder na Ucrânia e redesenha a segurança europeia. Um resultado favorável à Rússia no leste consolidaria a perda de parte do território ucraniano e fortaleceria Putin internamente. Uma mudança de governo em Kiev, com ascensão de figuras mais favoráveis a uma acomodação com Moscou, reduziria a margem para futuras revisões do acordo.

Do outro lado, a aprovação de um compromisso considerado duro demais para Kiev pode gerar frustração em uma sociedade que resiste há anos e enterra dezenas de milhares de mortos. Críticos do plano alertam para o risco de uma paz “imposta de fora”, que não se sustenta a longo prazo e abre espaço para novos conflitos internos, inclusive entre veteranos de guerra e grupos políticos rivais.

Na Europa, a forma como a guerra termina influencia a coesão da Otan e o equilíbrio do continente frente a uma Rússia fortalecida ou enfraquecida. Um cessar-fogo duradouro, ainda que imperfeito, reduz gastos militares emergenciais e devolve previsibilidade a cadeias de energia e alimentos. Um fracasso nas conversas, ao contrário, prolonga a instabilidade e mantém a região presa a sanções, crises de refugiados e sucessivos pacotes de ajuda militar.

As próximas rodadas de negociação vão indicar se março de 2026 é mesmo um objetivo realista ou apenas um novo marco retórico em uma guerra que teima em não acabar. A alternativa de maio, já em discussão, esbarra nos prazos técnicos para organizar uma eleição segura em meio a um país devastado. Enquanto os relógios diplomáticos avançam, tanques e artilharia continuam a definir fatos no front, lembrando diariamente que qualquer papel assinado à mesa só vale se sobreviver ao campo de batalha.

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