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EUA suspendem vistos de imigrante para brasileiros por tempo indeterminado

Os Estados Unidos suspendem, a partir de 21 de janeiro de 2026, a emissão de vistos de imigrante para brasileiros e cidadãos de outros 74 países. A medida vale por tempo indeterminado e atinge quem planeja viver de forma permanente no país.

EUA miram países classificados como de alto risco

O Departamento de Estado inclui o Brasil em uma lista de 75 países classificados como de “alto risco de uso de benefícios públicos”. A decisão, apresentada como uma pausa administrativa, interrompe na prática a rota formal de imigração definitiva para centenas de milhares de candidatos em todo o mundo.

A porta-voz Amanda Roberson afirma que não há previsão de revisão da inclusão do Brasil nem espaço para exceções, ainda que o solicitante comprove renda própria. “O Brasil é um dos 75 países que foram identificados pelos altos riscos de as pessoas utilizarem benefícios públicos”, diz, em entrevista à BBC News Brasil. “Não é uma decisão especificamente sobre o Brasil, é algo que está afetando 74 outros países no mundo.”

O Brasil aparece ao lado de Colômbia e Uruguai como os únicos sul-americanos na lista. Também estão incluídos países como Afeganistão, Nigéria, Rússia, Irã e Haiti. A suspensão vale apenas para vistos de imigrante, destinados a quem pretende residir de forma permanente nos EUA e, em muitos casos, buscava a reunificação familiar ou a mudança definitiva de vida.

Vistos de turismo, negócios, estudos e outras modalidades temporárias seguem em vigor. A decisão não alcança quem planeja ir aos Estados Unidos para eventos esportivos, viagens de lazer ou programas acadêmicos, desde que use vistos não imigrantes. O governo americano insiste que o alvo da mudança é o imigrante permanente que possa recorrer à rede de assistência social.

Regras mais duras e incerteza para famílias

A nova política reforça o discurso do governo Donald Trump em seu segundo mandato, que apresenta o visto americano como um privilégio condicionado à autossuficiência financeira. “O presidente Trump tem deixado claro que imigrantes devem ser financeiramente autossuficientes e não representar um fardo financeiro para os americanos”, afirma o Departamento de Estado em nota divulgada na semana passada.

Roberson descreve a iniciativa como uma auditoria interna ampliada. Segundo ela, o objetivo é revisar procedimentos e checagens financeiras para garantir que novos imigrantes não recorram a programas como vale-alimentação, auxílio-moradia ou seguro-saúde subsidiado. “O que o Departamento de Estado está fazendo é dando uma pausa para revisar bem os nossos procedimentos, as verificações, para ver como podemos melhorar os nossos processos para garantir que novos imigrantes não vão depender de assistência pública”, explica.

Na prática, o congelamento atinge de forma imediata brasileiros com processos em andamento. Entrevistas marcadas em consulados continuam ocorrendo, mas, segundo a porta-voz, “nenhum visto vai ser entregue ou processado até que as novas regras mudem”. As restrições não são retroativas: quem já recebeu o visto de imigrante mantém o direito de entrar no país, e residentes permanentes não correm risco direto por causa da medida.

A única brecha, por enquanto, é para quem tem dupla nacionalidade. Brasileiros com outro passaporte, desde que emitido por país fora da lista de 75 nações, podem pedir o visto de imigrante usando essa segunda cidadania. “Até agora, a única exceção é para cidadãos com dupla nacionalidade”, admite Roberson. “As restrições são aplicadas a todos os diferentes tipos de vistos de imigrante”, completa.

O endurecimento atual retoma um conceito antigo do sistema migratório americano. Desde o século 19, a legislação prevê a possibilidade de barrar entrada de estrangeiros que possam se tornar “encargo público”, isto é, pessoas que dependam de programas sociais mantidos com dinheiro do contribuinte. Ao longo das últimas décadas, diferentes governos ampliam ou reduzem a lista de benefícios considerados nessa análise.

No primeiro mandato, entre 2017 e 2021, Trump expande o alcance dessa regra. A administração democrata de Joe Biden, de 2021 a 2025, recua em parte e reduz o rol de programas que podem pesar contra o imigrante. Agora, de volta à Casa Branca, Trump orienta consulados a aplicar o critério com máximo rigor, avaliando renda, histórico profissional, composição familiar e até idade do candidato.

Impacto sobre brasileiros e pressões diplomáticas

A suspensão deve redesenhar planos de emigração de brasileiros que miravam o green card por meio de reunião familiar, oferta de trabalho ou investimentos de longo prazo. Não há número oficial de quantos serão afetados, mas, nos últimos anos, consulados americanos no Brasil emitem dezenas de milhares de vistos de imigrante e de diversidade a cada ciclo.

Famílias em processo de reunificação, casais binacionais e empresas que aguardavam a chegada de funcionários estrangeiros enfrentam agora um horizonte indefinido. A pausa é anunciada como temporária, mas Roberson evita qualquer prazo. “A pausa está em vigor até que possamos garantir que os novos imigrantes sejam submetidos a uma rigorosa verificação das suas finanças”, afirma. “Não tem previsão que vai ser em algum tempo definido, realmente depende do processo interno que vamos fazer.”

Organizações de defesa de imigrantes já preparam críticas à nova diretriz, que enxergam como mais um degrau no muro burocrático levantado por Washington. Advogados especializados preveem aumento de consultas sobre alternativas em países como Canadá, Portugal e Austrália, que oferecem programas de residência baseados em pontuação profissional, investimento mínimo e demanda por mão de obra qualificada.

No campo político, a decisão tende a entrar na agenda das relações bilaterais entre Brasília e Washington. O governo brasileiro é pressionado por famílias e por setores econômicos ligados a remessas internacionais e educação no exterior a buscar esclarecimentos formais e possíveis flexibilizações. Até agora, porém, o Departamento de Estado sinaliza pouco espaço para negociação individualizada por país.

Os Estados Unidos enviam uma mensagem clara ao repetir que “o visto americano é um privilégio, não é um direito”, nas palavras de Roberson. Em público, o governo insiste que a prioridade é “a segurança do povo americano e os nossos interesses nacionais” e que toda a política de vistos precisa se alinhar à visão de Trump de colocar “os interesses nacionais dos Estados Unidos acima de tudo”.

Horizonte indefinido e disputa de narrativas

O próximo capítulo depende do ritmo da revisão interna prometida pelo Departamento de Estado. Técnicos terão de desenhar novos formulários, parâmetros de renda mínima, cruzamentos de dados e mecanismos de fiscalização para sustentar a tese de que os novos residentes não pesarão no orçamento federal, estadual ou municipal.

Enquanto isso, brasileiros com planos de mudança definitiva aos EUA ficam presos a uma fila que não anda. Alguns podem optar por rotas indiretas, buscando primeiro outra nacionalidade em países europeus ou investindo em vistos temporários, na expectativa de uma mudança futura de cenário. Outros devem simplesmente abandonar o projeto americano.

O governo Trump faz da suspensão mais um símbolo de sua plataforma de controle migratório e de proteção do contribuinte americano. O custo humano e político dessa escolha, porém, ainda não aparece por completo. Resta saber se a pressão de famílias separadas, de empresas e de governos aliados será suficiente para abreviar uma pausa hoje anunciada como sem data para terminar.

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