EUA reavaliam ataque preventivo ao Irã após novos alertas nucleares
O governo dos Estados Unidos volta a discutir, nesta semana, um possível ataque preventivo contra o Irã, após novos alertas de inteligência sobre risco nuclear. A revisão acontece poucos meses depois de Washington anunciar que havia “obliterado” as principais instalações atômicas iranianas.
Pressão interna, dúvida estratégica
A mudança de tom expõe uma contradição sensível na política externa americana. Em pronunciamentos públicos feitos no fim do ano passado, autoridades próximas à Casa Branca afirmam ter “destruído completamente” a capacidade nuclear operacional do Irã. Agora, relatórios recentes de agências de inteligência, compartilhados com membros-chave do Conselho de Segurança Nacional, indicam que Teerã mantém ao menos parte da infraestrutura e do conhecimento necessários para retomar o programa em curto prazo.
Fontes envolvidas nas discussões descrevem um clima de urgência nas reuniões realizadas em Washington desde o início de fevereiro. Analistas falam em prazos de “meses, não anos” para que o Irã volte a enriquecer urânio em níveis considerados críticos, caso não haja uma resposta externa. “O cenário que víamos como remoto no fim de 2024 agora aparece no horizonte imediato”, admite um funcionário do governo americano, sob condição de anonimato. A avaliação reacende debates no Congresso, que acompanha de perto qualquer passo que possa levar a um confronto direto no Oriente Médio.
Memória recente de ataques e promessas
Os Estados Unidos conduzem, há pelo menos duas décadas, uma estratégia de pressão graduada sobre o programa nuclear iraniano, alternando sanções econômicas, negociações diplomáticas e ações clandestinas. Em declarações de outubro de 2025, altos representantes da Defesa celebram uma operação que, segundo eles, “obliterou” as principais instalações de enriquecimento, com alvos identificados em Natanz, Fordow e outras áreas sensíveis. O anúncio, feito em tom de vitória, reduz momentaneamente o temor de uma escalada militar ampla.
Novos relatórios, porém, sugerem que a ofensiva não atingiu todos os elementos cruciais da cadeia nuclear. A inteligência detecta movimentação de técnicos, redes de fornecedores e sinais de pesquisa dispersa em diferentes regiões iranianas. “Não se trata apenas de prédios e centrífugas, mas de pessoas, tecnologia e financiamento. Esses vetores continuam vivos”, afirma um especialista em segurança nuclear ouvido pela reportagem. A constatação leva a uma revisão silenciosa dos discursos otimistas e reabre o dossiê iraniano na mais alta cúpula do governo americano.
Risco de escalada no Golfo e impacto no petróleo
A possibilidade de um novo ataque preventivo contra o Irã, ainda em 2026, provoca apreensão entre aliados dos EUA no Oriente Médio e na Europa. Um bombardeio direcionado a alvos militares e de infraestrutura pode desencadear retaliações imediatas contra bases americanas no Iraque, na Síria e no Golfo Pérsico. Autoridades regionais calculam que, em um cenário de confronto amplo, o tráfego de navios petroleiros pelo estreito de Ormuz sofra queda brusca, com impacto direto nos preços globais do petróleo, que já oscilam na casa dos US$ 90 por barril.
Economistas ouvidos por governos europeus projetam, em relatórios reservados, alta de até 30% nas cotações do petróleo em poucas semanas, se o Irã ameaçar fechar ou restringir a passagem em Ormuz, por onde circulam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. “Uma operação militar mal calibrada pode transformar uma crise regional em choque energético global”, alerta um assessor de política externa de um país do G7. O temor chega a bancos centrais, que avaliam o risco de nova pressão inflacionária em 2026, depois de dois anos de tentativa de estabilização de preços.
Diplomacia sob tensão e cálculo político interno
Diplomatas americanos reconhecem, em conversas reservadas, que qualquer ação preventiva contra o Irã enfraquece a já frágil arquitetura de negociações nucleares na região. Acordos como o firmado em 2015, conhecido como JCPOA, nunca se recuperam totalmente após a saída unilateral dos EUA em 2018. Um novo ataque tende a consolidar, em Teerã, a narrativa de cerco ocidental e a fortalecer setores mais duros do regime, que defendem abertamente a obtenção da bomba atômica como garantia de sobrevivência.
No plano interno, a Casa Branca precisa equilibrar pressões distintas. Grupos mais hawks, favoráveis a uma resposta militar rápida, cobram um “sinal inequívoco de força” e citam o risco de um Irã nuclear como “ameaça existencial” a Israel e a aliados árabes. Setores do partido governista, por outro lado, alertam para o custo político de mais uma guerra longa, em ano de ciclo eleitoral intenso. Pesquisas recentes indicam que mais de 60% dos americanos preferem soluções diplomáticas a novas intervenções militares de grande escala.
O que pode acontecer a seguir
Nos próximos dias, o governo americano deve concluir uma revisão formal das opções militares e apresentar cenários ao presidente, que incluem desde ações cirúrgicas com mísseis até ofensivas cibernéticas para paralisar sistemas de comando iranianos. Cada variante vem acompanhada de estimativas de danos colaterais, tempo de reação de Teerã e impacto provável na segurança regional. “Não existe opção com risco zero; a escolha é entre graus diferentes de incerteza”, admite um ex-integrante do Pentágono.
A comunidade internacional acompanha o movimento com cautela e tenta abrir espaços para mediação, por meio da ONU e de potências intermediárias com trânsito em Teerã. Países asiáticos dependentes do petróleo do Golfo defendem uma “janela mínima de 90 dias” para negociações intensivas antes de qualquer ação militar. Enquanto isso, mercados financeiros precificam o medo de uma escalada súbita, e capitais buscam proteção em ativos considerados seguros. A pergunta que paira sobre Washington e sobre o mundo é se um ataque preventivo conteria o risco nuclear ou acenderia o estopim de um conflito sem volta no Oriente Médio.
