EUA pressionam presidente interina da Venezuela a romper com Irã, China e Rússia
Autoridades dos Estados Unidos colocam em dúvida, nesta terça-feira (27), a disposição de cooperação da presidente interina da Venezuela e exigem sinais concretos. Washington condiciona o apoio político ao novo governo à revisão imediata das alianças estratégicas de Caracas com Irã, China e Rússia.
Pressão pública e recado da inteligência
A cobrança parte de altos funcionários do governo americano e é reforçada por avaliações recentes da comunidade de inteligência. Relatórios sigilosos circulam em Washington desde o início de janeiro e apontam resistência de setores do novo governo venezuelano em se afastar de parceiros vistos como rivais estratégicos dos EUA. A data de 27 de janeiro de 2026 marca a primeira vez em que essa pressão ganha forma pública e explícita.
Em declarações à imprensa em Washington, integrantes do Conselho de Segurança Nacional descrevem a presidente interina como “ainda ambígua” em relação à política externa. Em off, um assessor resume o clima: “Não faz sentido falar em alinhamento democrático enquanto Caracas mantém laços operacionais com Teerã, Pequim e Moscou”. O recado, segundo diplomatas que acompanham as conversas, é que a cooperação futura dependerá de gestos rápidos e verificáveis.
Ruptura com aliados estratégicos no centro da disputa
A exigência mais sensível mira diretamente a rede de alianças construída por Caracas nas duas últimas décadas. Os EUA querem que a presidente interina anuncie, ainda no primeiro semestre de 2026, a expulsão de diplomatas, assessores militares e consultores técnicos ligados a Irã, China e Rússia. O pacote inclui missões instaladas na Venezuela desde meados dos anos 2000, quando o país aprofunda a parceria energética e militar com esses três governos.
A pressão atinge acordos avaliados em dezenas de bilhões de dólares. Contratos na área de petróleo, energia elétrica, telecomunicações e defesa envolvem empresas estatais chinesas e companhias russas ligadas ao setor de armamentos. No caso iraniano, autoridades americanas citam pelo menos três projetos de cooperação tecnológica em refinarias e sistemas de monitoramento, firmados entre 2012 e 2018. Uma ruptura abrupta pode paralisar obras de infraestrutura e afetar o já frágil abastecimento interno venezuelano.
Washington argumenta que esses vínculos ampliam a presença militar e de inteligência de potências rivais na América Latina. Em uma das falas mais duras do dia, um porta-voz do Departamento de Estado afirma que “não é compatível falar em transição confiável enquanto generais estrangeiros circulam livremente em bases venezuelanas”. A acusação não vem acompanhada de provas públicas, mas encontra eco em parte do Congresso americano, que há anos cobra sanções mais severas a empresas ligadas à Venezuela.
Risco de redesenho geopolítico na região
As exigências dos EUA projetam impacto direto sobre o equilíbrio de forças na América Latina. Se a presidente interina cede, a Venezuela se afasta do eixo alternativo que inclui Rússia, China e Irã e se aproxima de um padrão mais próximo de aliados tradicionais de Washington, como Colômbia e Chile. Analistas ouvidos reservadamente veem na ofensiva americana uma tentativa de reposicionar Caracas em um tabuleiro global marcado por guerra na Europa, tensões no Oriente Médio e disputa tecnológica entre Washington e Pequim.
Os efeitos podem ultrapassar a fronteira venezuelana. Países que dependem de acordos triangulados com Caracas e Moscou, por exemplo, podem perder acesso facilitado a crédito e a equipamentos militares. Empresas chinesas instaladas na região, que usam a Venezuela como porta de entrada para contratos em pelo menos quatro países vizinhos, podem rever investimentos. Em termos de segurança, a eventual saída de assessores russos e iranianos reconfigura o mapa de monitoramento e treinamento militar em uma área que soma mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados.
Internamente, a presidente interina enfrenta um dilema. Ao atender às demandas de Washington, ela sinaliza pragmatismo econômico e ganha a perspectiva de alívio em sanções e acesso a financiamento de organismos multilaterais num horizonte de 12 a 24 meses. Ao resistir, preserva apoios militares e políticos vinculados aos antigos parceiros, mas corre o risco de ver o país permanecer isolado dos principais mercados ocidentais. Grupos da oposição tradicional venezuelana já cobram publicamente uma “virada clara” em direção aos EUA e à Europa Ocidental.
Economia, oposição e incertezas
Setores empresariais na América Latina acompanham com cálculo próprio. Uma reorientação da política externa venezuelana pode destravar, ainda em 2026, acordos de fornecimento de petróleo pesado para refinarias no Golfo do México e no Nordeste brasileiro, hoje limitados por sanções. Exportadores da própria Venezuela, sufocados por quase uma década de retração, veem no eventual relaxamento de restrições uma chance de recuperar parte dos US$ 30 bilhões em receitas externas perdidas desde 2014.
A oposição interna, fragmentada e pressionada por uma sociedade exausta de crise, tenta explorar o momento. Lideranças mais moderadas defendem negociações condicionadas a prazos claros. “Não se trata de trocar um bloco por outro, mas de devolver ao país alguma margem de escolha”, afirma um dirigente oposicionista, sob condição de anonimato. Alas mais radicalizadas acusam a presidente interina de “submeter a soberania nacional a uma tutela estrangeira” caso aceite o pacote americano na íntegra.
A China reage com cautela e inicia consultas discretas com governos da região para medir o alcance da ofensiva de Washington. A Rússia, envolvida em múltiplos frontes de conflito, tende a usar a disputa venezuelana como vitrine de resistência a pressões ocidentais. O Irã, alvo de sanções e suspeitas permanentes, provavelmente transforma qualquer expulsão de seus diplomatas em motivo de confronto retórico e diplomático com os EUA.
Transição sob teste e próximos passos
Os movimentos dos próximos dias indicam se a presidente interina pretende comprar a briga com antigos aliados ou testar um meio-termo. Integrantes do governo americano falam, nos bastidores, em uma janela de poucas semanas para anunciar medidas concretas, como a redução de pessoal em embaixadas sensíveis ou a suspensão temporária de novos acordos de defesa. Esse cronograma informal serve como termômetro da confiança de Washington no novo comando em Caracas.
A transição política venezuelana entra assim em um estágio em que cada gesto externo tem custo interno elevado. Rupturas bruscas podem aliviar a pressão econômica, mas aprofundar tensões sociais e militares. Manobras graduais podem preservar alguma estabilidade, ao preço de prolongar a desconfiança americana. A pergunta que persiste, em Caracas e Washington, é se um governo interino, limitado por tempo e por legitimidade, consegue redesenhar alianças de duas décadas sem abrir uma nova frente de crise na região.
