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EUA pressionam por eleições na Ucrânia até março de 2026 para encerrar guerra

O governo dos Estados Unidos pressiona Ucrânia e Rússia para encerrar a guerra até março de 2026, com eleições nacionais e um referendo sobre o Donbass. As conversas trilaterais ocorrem em Abu Dhabi e Miami e miram um acordo que redesenhe o mapa do leste ucraniano.

Prazo curto para uma guerra longa

Depois de prometer resultados em 24 horas e, depois, em 100 dias, Washington agora trabalha com um horizonte de pouco mais de um ano para tentar selar a paz. Segundo três fontes ouvidas pela agência Reuters, a administração Trump define março de 2026 como o momento ideal para um acordo que envolva o fim dos combates, a realização de eleições nacionais na Ucrânia e uma consulta popular sobre o futuro do Donbass.

As negociações, que já se estendem por mais de um ano, avançam em etapas. Delegações dos três países se reúnem em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, e em Miami, nos Estados Unidos. Os encontros recentes produzem alguns gestos concretos, como a troca de 314 prisioneiros de guerra, mas esbarram no ponto central do conflito: quem controla o território ocupado pela Rússia no leste ucraniano.

A Rússia exige o reconhecimento de todo o Donbass sob sua autoridade. A Ucrânia recusa qualquer cessão permanente de terra sem que a população local seja consultada. Esse impasse, repetido desde o início das conversas, permanece quase intacto. O referendo proposto pelos Estados Unidos surge como tentativa de destravar a disputa, mas levanta dúvidas sobre segurança, legitimidade e condições de voto em uma região devastada pela guerra.

Pressa eleitoral em Washington, resistência em Kiev

A equipe norte-americana é liderada pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro de Donald Trump e figura central nos canais informais de negociação. Nas últimas rodadas em Abu Dhabi e Miami, os dois deixam claro o plano: atrelar o fim da guerra à realização de eleições presidenciais ucranianas e a um referendo sobre o status do Donbass.

O calendário não é neutro. A Casa Branca quer virar a página do conflito para concentrar forças nas eleições de novembro de 2024 nos Estados Unidos, que renovam o Congresso e definem a correlação de forças em Washington. A prioridade, reconhecem interlocutores, é reduzir o peso da guerra na agenda externa e liberar capital político para a disputa doméstica.

Esse movimento dialoga com um desejo explícito do presidente russo, Vladimir Putin. O Kremlin vê o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky como obstáculo direto a qualquer arranjo favorável à Rússia e espera a ascensão de um líder mais alinhado aos interesses de Moscou. Ao defender que a eleição na Ucrânia ocorra “em breve”, a equipe de Trump ecoa, em parte, essa expectativa.

Kiev reage com cautela. A cúpula ucraniana lembra que organizar uma eleição em meio a uma guerra envolve logística complexa, segurança reforçada, atualização de listas de eleitores deslocados e votação em áreas ainda sob ataque. O próprio governo avalia que só o planejamento de um pleito presidencial leva cerca de seis meses, sem contar o desafio adicional de preparar um referendo regional sobre fronteiras contestadas.

Donbass no centro do tabuleiro

O Donbass, região industrial e mineradora no leste da Ucrânia, é foco de tensão desde 2014, quando grupos separatistas pró-Rússia tomam cidades-chave e recebem apoio militar de Moscou. A anexação da Crimeia pela Rússia, no mesmo ano, inaugura uma fase de confronto aberto que se aprofunda com a invasão em larga escala do território ucraniano, em 2022. Hoje, a Rússia controla faixas importantes da região e tenta consolidar ganhos no terreno enquanto as negociações se arrastam.

O referendo defendido por Washington pretende funcionar como válvula de escape: caberia aos moradores do Donbass decidir se permanecem sob soberania ucraniana ou se consolidam a ligação com Moscou. Críticos temem uma votação sob ocupação militar e sem observação independente robusta, o que poderia transformar o processo em mera chancela de uma realidade imposta pelas armas.

Do lado ucraniano, aceitar um pleito nessas condições significa correr o risco de perder formalmente uma parte sensível do território. Para a Rússia, a votação oferece a chance de legitimar, ainda que parcialmente, conquistas obtidas ao longo de anos de guerra. Os Estados Unidos tentam se colocar como mediador pragmático, disposto a avalizar um acordo que encerre o conflito, mesmo que à custa de fronteiras redesenhadas.

Negociações em marcha lenta e horizonte incerto

Os encontros recentes produzem um pequeno avanço: a troca de 314 prisioneiros de guerra e o compromisso de uma nova reunião, possivelmente em solo americano, segundo o presidente Volodymyr Zelensky. O gesto ajuda a reduzir tensões imediatas e mantém a mesa de diálogo aberta, mas não altera o fato de que o ponto decisivo, o mapa do leste, segue indefinido.

À medida que o tempo passa, a Rússia explora o impasse político para avançar milimetricamente no campo de batalha. Cada novo ganho territorial fortalece a posição de Moscou na mesa de negociações e aumenta a pressão sobre Kiev. Ao mesmo tempo, um eventual fracasso no cumprimento dos prazos de 2026 pode abrir espaço para uma escalada militar, com impacto direto sobre civis, infraestrutura energética e cadeias de abastecimento na Europa.

Diante da percepção de que março de 2026 é uma meta ambiciosa demais, negociadores já falam em empurrar o pacote de eleições e referendo para maio do mesmo ano. Mesmo essa alternativa, porém, é vista como utópica por autoridades ucranianas envolvidas no planejamento do processo eleitoral. Sem cessar-fogo estável e garantias mínimas de segurança, urnas e fim da guerra continuam sendo promessas no papel.

As próximas rodadas de diálogo vão testar até onde Estados Unidos, Ucrânia e Rússia estão dispostos a ceder para transformar esse roteiro em realidade. Enquanto não há resposta, a guerra segue definindo, a cada dia, quais serão as fronteiras que os eleitores poderão confirmar ou rejeitar quando, e se, forem chamados às urnas.

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