EUA pressionam novo líder do Irã por renúncia pública à bomba nuclear
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Hegseth, cobra que Mojtaba Khamenei declare publicamente, nesta terça-feira (10), que o Irã não buscará armas nucleares. O apelo ocorre dez dias após o início da guerra aberta entre EUA, Israel e o regime iraniano, detonada pelo assassinato de Ali Khamenei em Teerã.
Pressão pública em meio à guerra
A declaração de Hegseth marca a primeira resposta direta de alto escalão do governo americano à nomeação de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã. O recado vem em tom de advertência, em um momento em que Washington tenta conter o risco de o conflito regional se transformar em uma crise nuclear.
“O novo líder do Irã faria bem em dar ouvidos às palavras do nosso presidente, que é não buscar armas nucleares, e declarar isso publicamente”, afirma o secretário. A fala, transmitida por canais oficiais dos EUA, mira não apenas Teerã, mas também aliados preocupados com a escalada militar no Golfo Pérsico e no Levante.
O avanço das operações militares desde 28 de fevereiro, quando um ataque coordenado de Estados Unidos e Israel matou Ali Khamenei e parte do núcleo duro do regime, redesenha o mapa de poder em Teerã. Mojtaba, filho do líder morto, assume o posto máximo sob forte contestação interna e desconfiança externa, sem sinalizar mudanças na linha dura que marcou o governo de seu pai.
Questionado sobre rumores de que Mojtaba teria sido ferido em ataques recentes contra alvos iranianos, Hegseth evita alimentar especulações. “Não posso comentar”, limita-se a dizer, reforçando o clima de incerteza em torno da real capacidade de comando do novo líder e da coesão do regime.
Conflito se espalha pela região
A ofensiva que mata Ali Khamenei em Teerã desencadeia uma reação em cadeia no Oriente Médio. Em poucos dias, o Irã lança mísseis e drones contra Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã, alegando mirar apenas bases, navios e instalações ligadas aos Estados Unidos e a Israel.
Os ataques cruzados já deixam mais de 1.200 civis mortos em território iraniano, segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, sediada nos EUA. A Casa Branca contabiliza pelo menos sete militares americanos mortos em ações diretamente ligadas às ofensivas iranianas. Em paralelo, Washington afirma ter destruído dezenas de navios, sistemas de defesa aérea, aviões e outros ativos estratégicos do Irã desde o fim de fevereiro.
No Líbano, o Hezbollah entra de forma mais explícita na guerra depois da morte de Ali Khamenei. O grupo, apoiado por Teerã há décadas, dispara foguetes e mísseis contra o território israelense sob a justificativa de vingar o líder iraniano. Israel responde com uma série de ofensivas aéreas contra o que descreve como posições e depósitos de armas do Hezbollah. Organizações locais falam em centenas de mortos no país, incluindo civis em áreas densamente povoadas.
O quadro aprofunda a sensação de que a morte de Ali Khamenei inaugura um novo patamar de instabilidade na região. Em vez de conter a influência iraniana, o ataque que elimina a velha guarda empurra o regime para uma postura ainda mais agressiva, agora sob o comando de uma liderança que chega ao poder em meio a luto, revolta e sede de vingança.
Dentro do Irã, a escolha de Mojtaba é apresentada pelo establishment como garantia de continuidade. Especialistas ouvidos por centros de pesquisa ocidentais descrevem o novo líder como figura reservada, com forte trânsito na Guarda Revolucionária e nos serviços de inteligência, e pouca disposição para concessões políticas ou sociais.
Risco nuclear e futuro incerto
A cobrança pública de Hegseth mira o ponto mais sensível da agenda internacional com o Irã: o programa nuclear. Desde o colapso do acordo firmado em 2015, analistas acompanham com preocupação o avanço da capacidade de enriquecimento de urânio e a redução do espaço para inspeções externas. Em plena guerra, o temor é que Teerã use o clima de confronto para acelerar, em segredo, o caminho até a bomba.
A chanceleria iraniana já indica que a retomada de negociações com Washington é improvável no curto prazo. Em discursos recentes, autoridades de Teerã insistem que não aceitarão conversas “sob fogo” e que a prioridade agora é responder militarmente aos ataques dos Estados Unidos e de Israel. A postura reforça a leitura de que a nomeação de Mojtaba consolida a ala mais rígida do regime no controle da política externa e de segurança.
Do lado americano, a pressão de Hegseth tenta responder às críticas internas sobre o rumo do conflito. O ex-presidente Donald Trump, ainda voz influente no debate político dos Estados Unidos, chama a escolha de Mojtaba de “grande erro” e diz estar “desapontado” com o desfecho em Teerã. Ele já havia declarado que a ascensão do filho de Ali Khamenei seria “inaceitável” e que Washington deveria ter tido mais peso no processo.
A combinação de guerra aberta, sucessão turbulenta e incerteza nuclear empurra governos da região a reverem alianças e planos de defesa. Países do Golfo reforçam sistemas antimísseis e buscam garantias adicionais de proteção americana, enquanto tentam conter o impacto econômico de rotas aéreas e marítimas ameaçadas. Investidores calculam o custo de prêmios de risco mais altos, interrupções no fluxo de petróleo e novas sanções sobre o Irã.
A pressão dos EUA para uma renúncia explícita à bomba nuclear testa, ao mesmo tempo, a autoridade de Mojtaba e a disposição do regime de se expor a um gesto visto internamente como sinal de fraqueza. O líder iraniano precisa equilibrar o discurso de resistência que alimenta sua base com a necessidade de evitar que o país se isole ainda mais e enfrente uma ofensiva militar de escala maior.
Próximos movimentos e disputa por narrativas
Os próximos dias tendem a mostrar se Mojtaba Khamenei usará a pressão americana para reforçar o discurso de cerco externo ou se buscará algum gesto calculado de acomodação. Uma declaração vaga, sem mencionar armas nucleares, pode não satisfazer Washington, mas servir para administrar expectativas internas e ganhar tempo.
No campo militar, a tendência é de manutenção da escalada controlada, com ataques pontuais e respostas calibradas, enquanto cada lado mede custos políticos e econômicos de um confronto direto mais amplo. No plano diplomático, potências europeias e asiáticas tentam reabrir canais com Teerã e com Washington para, ao menos, estabelecer linhas vermelhas em torno do programa nuclear.
O futuro do conflito e da política nuclear iraniana depende da capacidade de Mojtaba de consolidar poder num regime abalado por mortes em série na cúpula. A exigência pública de Hegseth adiciona pressão externa a esse processo interno delicado. A pergunta que permanece, em Teerã, Washington e nas capitais da região, é se o novo líder supremo escolherá a via da confrontação total ou algum caminho, ainda que estreito, de contenção.
