EUA pressionam líder interina da Venezuela a romper com Irã, China e Rússia
Autoridades americanas pressionam, em janeiro de 2026, a presidente interina da Venezuela a romper relações com Irã, China e Rússia e expulsar seus diplomatas. O apelo público expõe a desconfiança em Washington sobre o grau de alinhamento de Caracas aos interesses dos EUA. A resposta da líder venezuelana ainda é incerta e amplia a sensação de instabilidade regional.
Pressão aberta em meio a disputas globais
A ofensiva diplomática parte de setores do governo americano que veem a Venezuela como ponto sensível no tabuleiro geopolítico. A avaliação é que, nos últimos cinco anos, Teerã, Pequim e Moscou ampliam presença econômica, militar e de inteligência no país sul-americano. Em reuniões fechadas e declarações públicas, autoridades em Washington falam em “ameaça estratégica” a menos de 3 mil quilômetros do território continental dos EUA.
A cobrança à presidente interina ocorre depois de sucessivas sinalizações de cautela por parte de Caracas. A líder venezuelana evita anunciar medidas concretas contra esses parceiros, mesmo sob promessa de pacotes de ajuda e alívio de sanções por parte de Washington. Assessores americanos relatam frustração com o que chamam de “ambiguidade calculada” da interina, que mantém canais com os três aliados e, ao mesmo tempo, negocia com os Estados Unidos.
O pedido americano é explícito: corte imediato das relações diplomáticas com Irã, China e Rússia, retirada de embaixadores e expulsão de diplomatas, conselheiros militares e técnicos de inteligência. Na prática, Washington quer encerrar missões que se consolidam na última década, com dezenas de acordos de energia, mineração, infraestrutura e defesa. Um diplomata dos EUA resume, sob condição de anonimato: “Ou ela está com a gente, ou contra os interesses de segurança do continente”.
Nos bastidores, a Casa Branca tenta enquadrar o tema na lógica da disputa com Pequim e Moscou. Para formuladores de política externa em Washington, a Venezuela se converte em laboratório da influência chinesa na América Latina, inclusive com financiamento de obras em portos e refinarias desde ao menos 2010. Laços com o Irã, mais discretos em números, preocupam pela cooperação militar e pela possibilidade de uso do território venezuelano como plataforma de inteligência.
Risco de isolamento e abalo econômico
A pressão americana chega a um país em crise profunda. A Venezuela ainda tenta se recuperar de uma década de recessão, hiperinflação superior a 1.000% em alguns anos e colapso de serviços públicos básicos. Desde 2015, mais de 7 milhões de venezuelanos deixam o país em busca de trabalho, segundo organismos internacionais. O governo interino tenta, desde 2024, reconstruir a indústria de petróleo, responsável por mais de 90% das exportações.
China e Rússia são credores centrais nessa equação. Estimativas de consultorias independentes falam em dívidas superiores a US$ 40 bilhões, somando empréstimos, investimentos antecipados em petróleo e contratos de longo prazo. Romper com esses parceiros significaria reabrir todos esses acordos, inclusive aqueles que permitem à Venezuela manter algum fluxo de caixa em meio às sanções ocidentais. O Irã, por sua vez, fornece tecnologia e insumos para manter parte do parque de refino em funcionamento.
Especialistas em Caracas alertam que um rompimento brusco pode afetar o abastecimento interno em poucas semanas, pressionar o câmbio e reacender a inflação, que fechou 2025 ainda acima de 150% ao ano. Analistas de mercado calculam que, sem a cooperação técnica de Rússia e Irã, a produção de petróleo pode cair até 30% em menos de seis meses. Num cenário assim, o governo interino perderia margem de manobra para negociar reajustes salariais e manutenção de programas sociais básicos.
O isolamento também teria efeito diplomático imediato. A Venezuela é hoje um dos pontos de conexão de redes de cooperação não alinhadas aos EUA na América Latina. Grupos regionais que incluem países com governos de esquerda veem com desconfiança qualquer gesto que pareça imposição direta de Washington sobre um governo local. Um embaixador sul-americano resume o dilema: “Se ela acata tudo, vira extensão da política externa americana; se resiste, corre risco de novas sanções”.
A Casa Branca tenta modular o discurso público para evitar a imagem de ultimato. Autoridades falam em “reconfiguração gradual” de alianças e em “transição responsável”. No entanto, a fala de setores mais duros do establishment de segurança se sobrepõe. Em audiência no Congresso americano, um alto funcionário afirma que a presença combinada de Irã, China e Rússia na Venezuela é “inaceitável” e cita 2026 como “ano crítico” para reduzir essa influência.
Cenários para a presidente interina e para a região
A líder venezuelana tenta ganhar tempo. Auxiliares próximos descrevem uma estratégia de “equilíbrio forçado”: oferecer alguns gestos pontuais aos EUA, como revisão de contratos militares, sem cortar laços comerciais com os três países pressionados. A aposta é que Washington, diante de outras crises globais, aceite avanços graduais em vez de um rompimento total. Por enquanto, não há anúncio oficial de prazos ou medidas concretas.
Nas ruas de Caracas, o tema ainda aparece diluído em meio a dificuldades cotidianas. Trabalhadores se preocupam mais com salários corroídos e falta de medicamentos do que com alinhamentos diplomáticos. Mas lideranças empresariais e sindicais observam o impasse com apreensão. A Federação de Câmaras de Comércio estima que qualquer retração de crédito chinês pode reduzir em até 10% os investimentos produtivos previstos para 2026.
Países vizinhos calculam os efeitos colaterais. Governos de Brasil, Colômbia e outros destinos de migrantes venezuelanos temem nova onda de saída em massa, caso a economia volte a se desorganizar. Um colapso adicional obrigaria a reforçar programas de acolhimento e pressionaria orçamentos nacionais já apertados. O sistema político latino-americano, hoje polarizado, teria mais um foco de tensão entre grupos alinhados e críticos à estratégia americana.
Washington também corre riscos. Se a presidente interina rejeitar o pacote de exigências, a Casa Branca precisará decidir entre ampliar sanções ou aceitar uma convivência mais limitada com os rivais estratégicos na região. Um endurecimento total, com novas restrições financeiras, pode empurrar ainda mais Caracas para os braços de Moscou, Pequim e Teerã, justamente o oposto do que o governo americano declara buscar.
As próximas semanas devem mostrar até onde vai a disposição da líder venezuelana de atender às demandas americanas. Também vão testar o quanto a Casa Branca está disposta a pagar, em termos econômicos e políticos, para conter a influência de Irã, China e Rússia em um país-chave da América Latina. A pergunta que se coloca, em Washington e em Caracas, é se ainda há espaço para uma saída negociada ou se a região caminha para uma nova rodada de confrontos geopolíticos abertos.
