EUA planejam operação terrestre para recuperar urânio do Irã
O governo Donald Trump avalia, nas próximas semanas, uma operação terrestre inédita para recuperar cerca de 200 quilos de urânio enriquecido no Irã. O material está em instalações subterrâneas do complexo nuclear de Isfahan e é visto por Washington como peça central na capacidade nuclear iraniana.
Da campanha de bombardeios ao impasse subterrâneo
O plano surge após a campanha de bombardeios americanos que atinge três instalações nucleares iranianas em junho do ano passado. Os ataques danificam estruturas de superfície, mas não eliminam todo o estoque de urânio enriquecido, segundo sete autoridades atuais e ex-autoridades ouvidas pela CNN. Parte significativa do material permanece protegida em túneis profundos em Isfahan, longe do alcance de bombas convencionais.
Rafael Grossi, diretor da agência nuclear da ONU, estima que cerca de 200 quilos de urânio enriquecido a 60% continuam no complexo, com outra fração armazenada em Natanz. Abaixo de 90%, o urânio ainda não serve diretamente para uma bomba, mas especialistas apontam que boa parte do caminho técnico já está percorrida. O governo Trump trata esse estoque como a fronteira entre um programa nuclear contestado e a capacidade real de fabricar armas.
Dentro da Casa Branca e do Pentágono, o debate se intensifica à medida que o Irã recupera o controle da instalação. Equipes iranianas passam meses removendo escombros e reabrindo acessos aos túneis após os bombardeios. Sem entradas de ventilação visíveis, ao contrário de outros alvos nucleares do país, Isfahan resiste melhor às investidas aéreas. O impasse técnico empurra a discussão para um terreno mais arriscado: o envio de tropas.
Missão arriscada e escalada militar
O esboço da operação prevê o emprego de forças especiais do Joint Special Operations Command, o comando de elite do Exército americano, com apoio de unidades israelenses. Esses grupos avançados teriam a tarefa de infiltrar os túneis, localizar o urânio e decidir, no local, se retiram ou destroem o material. Para isso, contariam com especialistas em armas de destruição em massa e equipes treinadas para lidar com radiação em ambientes confinados.
Um oficial das forças especiais na reserva, ouvido pela CNN, descreve a complexidade do cenário. Segundo ele, uma missão desse tipo exige uma unidade de elite como Delta Force ou SEAL Team 6, além de especialistas em desativação de explosivos, segurança externa robusta e aeronaves dedicadas à infiltração e resgate. “A logística e o risco envolvidos seriam proibitivos, para dizer o mínimo”, afirma. O entorno de Isfahan segue sob controle militar iraniano, o que obriga o envio de dezenas, talvez centenas de soldados para proteger o perímetro e garantir as rotas de saída.
O apoio aéreo já começa a ser posicionado. Pelo menos seis aeronaves MC-130J, versões modificadas do cargueiro C-130 para operações especiais, operam a partir da base RAF Mildenhall, no Reino Unido. Imagens de satélite de 5 de março mostram vários desses aviões alinhados na pista. Dados de voo apontam que quase todas as aeronaves realizam treinamentos sobre o Reino Unido e o Mar do Norte nas últimas semanas, movimento visto por analistas como preparação para um cenário de ação rápida em direção ao Oriente Médio.
Tensão nuclear e cálculo político em Teerã
Trump transforma a eliminação completa da capacidade nuclear iraniana em bandeira pública da guerra. “Uma coisa é certa: eu nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo tenha uma arma nuclear”, declara no mês passado. A frase ecoa em um momento em que o programa atômico do país persa se torna ainda mais opaco, com inspeções limitadas e um ambiente político endurecido em Teerã.
O regime iraniano responde aos ataques e à pressão externa com demonstrações de continuidade. Mojtaba Khamenei, segundo filho do ex-líder supremo Ali Khamenei, assume o posto de novo aiatolá. O gesto sinaliza que a elite no poder não pretende ceder espaço a vozes moderadas ou a uma transição negociada sob pressão americana. Mesmo sob sanções econômicas e isolamento crescente, a estrutura do regime se mantém de pé, o que reduz a probabilidade de uma mudança rápida de curso apenas pela via militar.
Dentro do governo americano, fontes reconhecem que uma operação terrestre em Isfahan seria apenas uma peça de um tabuleiro mais amplo. Recuperar ou neutralizar o urânio aliviaria, por um tempo, a preocupação com uma arma nuclear iraniana, mas não alteraria, sozinho, a lógica de confronto na região. O risco de baixas, a reação de Teerã e o impacto sobre aliados como Israel e países do Golfo entram no cálculo de custo político até março de 2026, horizonte considerado para o planejamento.
Diplomacia, guerra prolongada e o que vem a seguir
Especialistas ouvidos pela CNN avaliam que, sem um colapso completo do regime iraniano, a força militar não encerra o problema nuclear. A destruição de instalações ou a remoção do urânio pode atrasar o programa por anos, mas não elimina o conhecimento acumulado nem a capacidade de reconstrução. Em paralelo, uma incursão americana em solo iraniano tende a fortalecer alas mais radicais em Teerã e reduzir o espaço para qualquer negociação.
Esse cenário recoloca a diplomacia no centro do tabuleiro, mesmo para um governo que privilegia demonstrações de força. Algum nível de engajamento político, mediado por potências europeias, Rússia, China ou pela própria ONU, surge como condição para um desfecho estável. Enquanto a Casa Branca e o Pentágono evitam comentar publicamente o plano, a movimentação de tropas, aviões e narrativas aponta para um período prolongado de tensão. A decisão que resta é se Washington aceita o risco de uma operação que pode redefinir o equilíbrio nuclear no Oriente Médio ou se adia o confronto em busca de uma saída negociada.
