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EUA lançam estratégia de defesa para retomar supremacia militar nas Américas

O governo dos Estados Unidos formaliza, nesta sexta-feira (23), a Estratégia Nacional de Defesa de 2026, que mira restaurar a supremacia militar americana no Hemisfério Ocidental. O plano, assinado pelo secretário de Guerra Pete Hegseth e respaldado pelo presidente Donald Trump, prevê uso decisivo da força, controle de áreas estratégicas e ofensiva ampliada contra o narcotráfico na região.

Corolário à Doutrina Monroe e recado à região

No documento de dezenas de páginas, o Departamento de Guerra afirma que Washington busca “proteger nossa pátria e nosso acesso a terrenos estratégicos em toda a região”. A nova Estratégia Nacional de Defesa resgata a lógica da Doutrina Monroe, do século 19, e a atualiza em um “Corolário Trump”, que explicita o objetivo de impedir que adversários projetem poder ou instalem capacidades militares consideradas ameaçadoras nas Américas.

O texto aponta duas frentes prioritárias: o domínio sobre áreas militares e comerciais vistas como vitais e o combate ao narcotráfico, tratado como ameaça direta à segurança nacional. Para sustentar a mudança de escala, o documento passa a classificar traficantes de drogas transnacionais como “narcoterroristas” e vincula essas organizações ao risco à saúde pública e à estabilidade política na região.

O relatório afirma que os EUA vão “desenvolver as capacidades dos parceiros regionais para degradar essas organizações”, mas deixa claro que a Casa Branca não pretende ficar refém de governos locais. “Agiremos de forma unilateral e decisiva caso os governos não o façam”, registra o texto, num sinal explícito de que intervenções sem aval de países vizinhos passam a ser opção aberta sobre a mesa.

Operação que capturou Maduro vira modelo de ação

A estratégia toma como vitrine a operação “Absolute Resolve”, que leva à captura do líder venezuelano Nicolás Maduro no início do ano. O documento descreve a ação como prova de que Washington está disposto a empregar força militar com “velocidade, poder e precisão” contra alvos ligados ao narcotráfico e à corrupção estatal.

Maduro é capturado em 3 de janeiro, em Caracas, após meses de preparação. Forças de elite treinam em réplicas do esconderijo do dirigente venezuelano enquanto uma sala de situação montada em Mar-a-Lago, na Flórida, centraliza decisões. Na madrugada da operação, cerca de 150 aeronaves, incluindo caças F-35 e bombardeiros, sustentam o ataque. Um blecaute tecnológico derruba comunicações e defesas locais antes da incursão terrestre.

Segundo militares envolvidos, a equipe encontra Maduro e a mulher, Cilia Flores, por volta das 3h, quando tentam se refugiar em uma sala interna. A retirada dura menos de 20 minutos, apoiada por helicópteros que levam o casal primeiro ao navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima. Em seguida, o venezuelano é transferido para os Estados Unidos.

Em Nova York, a procuradora-geral Pam Bondi anuncia o indiciamento no Distrito Sul, com acusações de conspiração para narcoterrorismo, importação de cocaína e posse de metralhadoras. “Nenhum líder estrangeiro que transforme seu governo em cartel de drogas ficará fora do alcance da justiça americana”, afirma Bondi, ao justificar a extradição forçada.

Tensões diplomáticas e recado a aliados hesitantes

A nova doutrina não mira apenas governos hostis. Washington endurece também o tratamento com parceiros tradicionais. A Colômbia, por exemplo, perde a certificação americana na luta contra as drogas, medida que rebaixa o status do antigo aliado e sinaliza um padrão de cobrança mais agressivo. O relatório avisa que países que “não fizerem a sua parte” enfrentarão consequências diplomáticas e militares.

A mensagem provoca reação imediata em capitais latino-americanas. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condena a ofensiva militar na Venezuela e a prisão de Maduro. Em publicação nas redes sociais, o petista classifica o ataque como “flagrante violação do direito internacional” e alerta para o risco de um precedente que normaliza intervenções unilaterais. “É uma afronta gravíssima à soberania venezuelana e um precedente extremamente perigoso”, escreve Lula.

O presidente convoca uma reunião ministerial de emergência em Brasília para discutir a resposta brasileira e cobra uma manifestação firme da ONU. A chancelaria reforça que o governo não reconhece o último pleito venezuelano, mas rejeita o uso da força para resolver impasses políticos. Nos bastidores, diplomatas avaliam que a combinação de nova doutrina e operação militar amplia o risco de escalada regional, com pressões cruzadas sobre organizações como a OEA e a própria ONU.

No Pentágono, a narrativa é oposta. Assessores de Trump descrevem o plano de 2026 como correção de rota após décadas de “acomodação” com regimes acusados de explorar o vácuo deixado pelos EUA. A ênfase em “opções militares confiáveis” para garantir acesso exclusivo a terrenos estratégicos deixa claro que disputa por portos, bases aéreas e rotas comerciais na América Latina entra em um novo patamar.

Supremacia em disputa e incertezas à frente

A ofensiva de Washington ocorre em um contexto de competição global com outras potências e de aumento do fluxo de cocaína em direção ao território americano. Estimativas internas citadas por autoridades apontam que centenas de toneladas de entorpecentes ainda cruzam anualmente o Caribe e a América Central rumo aos EUA, apesar de décadas de cooperação policial.

Ao atrelar explicitamente o combate às drogas à projeção militar, a Estratégia Nacional de Defesa de 2026 embaralha fronteiras entre segurança interna e política externa. Países que resistirem a operações conjuntas podem enfrentar não só sanções econômicas, mas também ameaças de ações diretas. Governos que aceitarem o alinhamento, por outro lado, tendem a receber mais recursos, treinamento e equipamentos, ao preço de maior dependência estratégica de Washington.

A reação brasileira indica que a disputa não será apenas militar. A batalha se desloca também para arenas diplomáticas e jurídicas, em que conceitos como “narcoterrorismo” e “intervenção humanitária” serão testados em resoluções, tribunais e organismos multilaterais. A forma como a ONU, a OEA e blocos regionais responderem à captura de Maduro e ao novo corolário da Doutrina Monroe ajudará a definir o limite da ação americana nas próximas crises.

Trump e sua equipe de defesa veem a estratégia como ponto de partida, não como ponto final. Novas operações, sanções e acordos de acesso militar devem ser anunciados nos próximos meses, à medida que a Casa Branca consolida sua leitura de “supremacia” no Hemisfério Ocidental. A pergunta que se impõe, em Caracas, Brasília e Washington, é até onde essa busca por controle exclusivo pode ir sem empurrar a região para uma nova era de confrontos abertos.

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