EUA estudam classificar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas
O Departamento de Estado dos Estados Unidos estuda classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. A movimentação ganha força nas últimas semanas, impulsionada por pressões da família do ex-presidente Jair Bolsonaro e pela campanha de Donald Trump, que volta a usar o combate ao crime latino-americano como bandeira eleitoral.
Pressão política e cálculo eleitoral
A discussão, que corre em estudos internos desde o início de março de 2026, deixa de ser apenas tema técnico de diplomatas e especialistas em segurança. A família Bolsonaro atua junto a aliados republicanos para emplacar PCC e Comando Vermelho na lista de grupos terroristas dos EUA, usada desde 1997 para enquadrar organizações como Al Qaeda e Estado Islâmico. Trump explora o tema em discursos no interior dos Estados Unidos, associando a presença de facções brasileiras ao avanço da imigração irregular na fronteira com o México.
Assessores envolvidos na campanha republicana tratam o assunto como oportunidade dupla: endurecer o discurso contra o crime transnacional e reforçar laços com a direita brasileira. “Não é apenas uma pauta de segurança, é uma pauta de valores compartilhados”, afirma um aliado de Trump, em condição de anonimato, ao comentar as conversas com emissários do bolsonarismo. O núcleo político bolsonarista, por sua vez, vê na ofensiva em Washington uma forma de manter Jair Bolsonaro e seus filhos no centro do debate sobre crime e segurança na América Latina.
De facções criminosas a possível rótulo terrorista
A designação de organizações terroristas estrangeiras, conhecida pela sigla em inglês FTO, permite aos Estados Unidos congelar bens, bloquear contas, ampliar acusações criminais e restringir viagens ligadas a suspeitos associados aos grupos. Hoje, PCC e Comando Vermelho já são alvo de cooperação policial entre Brasil e EUA, mas operam, na prática, sob o enquadramento de crime organizado transnacional, não de terrorismo. A mudança de classificação abriria espaço para acusações mais duras em cortes federais americanas e permitiria que procuradores acionem leis tradicionais do combate ao terrorismo, inclusive com penas mais severas.
Nos bastidores, técnicos do Departamento de Estado questionam se o rótulo de terrorismo se ajusta ao padrão de atuação das facções brasileiras, voltadas sobretudo para o tráfico de drogas, controle de presídios, lavagem de dinheiro e homicídios. A legislação americana exige que o grupo pratique ou tenha capacidade de praticar atos de violência premeditada contra civis com objetivo político ou ideológico. Integrantes do governo brasileiro, em conversas reservadas, alertam que a mudança pode distorcer a realidade do crime no país e abrir precedente para que outras facções da região sejam tratadas como atores quase paramilitares, o que impactaria políticas de segurança e direitos humanos.
Impacto nas relações Brasil-EUA e na cooperação internacional
A eventual inclusão de PCC e CV na lista de terroristas dos EUA teria efeito direto sobre a cooperação jurídica e policial. Investigações que hoje tramitam por meio de acordos de assistência mútua poderiam ganhar prioridade e sigilo mais rígido. Bancos e instituições financeiras nos Estados Unidos seriam obrigados a reforçar filtros automáticos para identificar transações suspeitas ligadas a brasileiros, aumentando o risco de bloqueios preventivos e atrasos em operações legítimas. Escritórios especializados em lavagem de dinheiro projetam que a classificação de terrorismo pode ampliar sanções contra empresas de fachada e laranjas usados pelas facções, atingindo também negócios formais que mantêm vínculos obscuros com o crime.
Diplomatas ouvidos sob reserva avaliam que a relação bilateral entra em zona sensível. De um lado, o governo americano sinaliza disposição para endurecer o combate a redes criminosas que movimentam bilhões de dólares em cocaína e armas. De outro, Brasília teme ser empurrada para uma agenda de segurança desenhada mais pelo calendário eleitoral de 2026 nos EUA do que por diagnósticos técnicos. A classificação de terrorismo colocaria o Brasil ao lado de países historicamente associados a conflitos e grupos extremistas, o que pode ter efeitos simbólicos e econômicos em acordos comerciais, seguros e percepção de risco por investidores.
Uso interno da pauta e disputa narrativa
No Brasil, a ofensiva em Washington alimenta a disputa política em torno da segurança pública. Aliados de Bolsonaro argumentam que a pressão sobre PCC e CV nos EUA expõe, por contraste, uma suposta “leniência” do governo brasileiro com o crime organizado. Integrantes do Planalto reagem dizendo que o país já prende e processa milhares de integrantes das facções todos os anos e que o desafio maior está na capacidade de seguir o dinheiro e desarticular a engrenagem financeira que sustenta o tráfico.
Entre investigadores, a avaliação é mais pragmática. A eventual classificação de terrorismo pode facilitar pedidos de extradição, acesso a dados bancários e geolocalização de suspeitos que circulam por diferentes países. Ao mesmo tempo, pode empurrar lideranças das facções para rotas mais discretas na Europa e na África, esvaziando parte dos ganhos imediatos. “Cada vez que se endurece a lei em um ponto, o crime se adapta em outro”, resume um delegado que atua há mais de 15 anos no combate a facções, ao lembrar que, em duas décadas, o PCC expandiu sua presença para ao menos 15 países da América do Sul e da Europa, segundo estimativas de órgãos de inteligência.
O que vem a seguir
O estudo interno no Departamento de Estado deve produzir, nas próximas semanas, um parecer jurídico e de inteligência, que será submetido à Casa Branca. Se o governo americano decidir avançar, abre-se um processo formal de designação que pode levar meses, com consultas ao Congresso e a agências de segurança. A chanceleria brasileira acompanha o movimento com cautela e cobra, em diálogos reservados, que qualquer decisão leve em conta as posições oficiais do Brasil e a cooperação já em curso.
A ofensiva contra PCC e Comando Vermelho entra, assim, em um tabuleiro maior, em que campanhas eleitorais, disputas ideológicas e decisões técnicas se misturam. O rótulo de terrorismo, se vier, terá menos impacto no vocabulário político e mais peso nas planilhas de bancos, nas mesas de negociadores e nas rotas de avião que traficantes escolhem para circular. Resta saber se o endurecimento liderado por Washington será acompanhado de investimentos duradouros em inteligência, fronteiras e prevenção, ou se ficará restrito a mais um gesto de força em ano eleitoral.
