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EUA e Israel intensificam maior onda de bombardeios contra o Irã

Forças aéreas dos Estados Unidos e de Israel lançam na madrugada desta terça-feira (10) a ofensiva mais intensa desde o início da guerra contra o Irã, com ataques a Teerã, Karaj, Líbano e países do Golfo. As operações combinam caças, bombardeiros, mísseis e drones e ampliam o risco de uma escalada regional, enquanto o conflito entra no 11º dia.

Guerra entra em fase mais agressiva

A capital iraniana passa a madrugada sob o som constante de explosões e sirenes. Alvos em Teerã e na vizinha Karaj são atingidos por ondas sucessivas de ataques americanos e israelenses. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirma que esta terça-feira será o dia “mais intenso” da campanha militar contra o Irã, com “o maior número de caças, o maior número de bombardeiros, o maior número de ataques”.

Dados preliminares de organizações de direitos humanos e de governos mostram um saldo crescente de mortes civis e militares. A agência Human Rights Activists (HRANA), com sede nos EUA, contabiliza 1.205 civis mortos no Irã entre 28 de fevereiro e 9 de março. O Departamento de Defesa americano confirma a morte de sete militares do país desde o início do conflito. As autoridades iranianas, por sua vez, falam em dezenas de mortos e feridos só na madrugada desta terça, números ainda sem verificação independente.

O estopim da escalada atual ocorre em 28 de fevereiro, quando EUA e Israel lançam os primeiros bombardeios em território iraniano, alegando mirar a liderança e a infraestrutura militar do país. Durante esses ataques, o ex-líder supremo aiatolá Ali Khamenei é morto em Teerã, fato que altera de forma abrupta o cálculo político e militar em toda a região. A morte do dirigente, no poder por mais de três décadas, provoca uma reação em cadeia de Teerã e de grupos aliados como o Hezbollah.

Desde então, Israel afirma ter realizado aproximadamente 3.400 ataques, desativando mais de 150 sistemas de defesa iranianos. Imagens verificadas pelo BBC Verify mostram fumaça densa e incêndios em quatro instalações petrolíferas iranianas. O Ministério das Relações Exteriores do Irã acusa Israel de “envenenar civis” ao liberar “substâncias tóxicas e perigosas no ar”. O porta-voz das Forças de Defesa de Israel, tenente-coronel Nadav Shoshani, rebate e diz que os locais são “um alvo militar legítimo”.

Civis sob ataque e fronteiras em chamas

A devastação atinge com força a população civil. Em Minab, no sul do Irã, ao menos 168 pessoas, incluindo crianças, morrem em 28 de fevereiro durante um ataque a uma escola de meninas, segundo autoridades iranianas. Imagens de satélite analisadas desde o início da guerra mostram dois prédios lado a lado: uma base da Guarda Revolucionária Islâmica, completamente destruída, e a escola, que desaba parcialmente. Marcas de fogo e crateras ao redor do prédio escolar sugerem múltiplos impactos.

Especialistas ouvidos pelo BBC Verify analisam um vídeo que registra o momento anterior ao impacto na base da Guarda Pró-Revolução e identificam um míssil Tomahawk, de fabricação americana. Segundo esses analistas, nem Israel nem o Irã dispõem desse armamento, o que reforça o papel direto de Washington nos ataques mais sensíveis. O Pentágono não comenta casos específicos, mas o volume de mísseis disparados por forças americanas cresce a cada dia de conflito.

Em solo libanês, a pressão também aumenta. Israel ordena a evacuação urgente do sul do Líbano, enquanto mantém bombardeios contra posições do Hezbollah, grupo apoiado há décadas por Teerã. O Ministério da Saúde do Líbano informa que 394 pessoas morrem em uma semana de ataques israelenses. Em Beirute, um hotel no centro da cidade é atingido em operação que Israel descreve como “ataque preciso” contra comandantes da Força Quds, braço externo da Guarda Revolucionária. Quatro pessoas morrem no local.

Países do Golfo relatam um fluxo quase constante de mísseis e drones vindos do Irã. A Arábia Saudita, o Kuwait, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos confirmam ataques no domingo. O Kuwait diz ter contido um grande incêndio em um prédio governamental após um ataque na madrugada. Os Emirados informam que suas defesas aéreas interceptam 16 mísseis balísticos e 113 drones apenas no domingo. No sábado, um drone atinge o Aeroporto Internacional de Dubai. Segundo o governo, 238 mísseis e 1.422 drones são lançados contra o país na semana anterior.

No Bahrein, um ataque de drone deixa 32 civis feridos e provoca um incêndio na maior refinaria de petróleo do país. É o maior número de vítimas em um único incidente nos Estados do Golfo desde o início da guerra. Omã, Catar, Arábia Saudita e Iraque também relatam ataques em cadeia, o que reforça a percepção de que o confronto deixa de ser restrito ao eixo EUA-Israel-Irã e passa a envolver, direta ou indiretamente, quase todo o Oriente Médio.

Pressão global, economia em risco e novos frontes

As rotas marítimas no Golfo sofrem impacto imediato. O Irã ameaça “incendiar” embarcações no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás consumidos no mundo. Seguradoras marítimas elevam prêmios, armadores desviam navios para rotas mais longas e caras e operadores de energia calculam o efeito de um bloqueio prolongado sobre os preços internacionais.

O conflito rompe as fronteiras tradicionais da região. O Pentágono informa que um submarino americano afunda um navio de guerra iraniano perto do Sri Lanka, deixando 87 mortos entre 130 tripulantes, segundo autoridades locais. No Cáucaso, o Azerbaijão acusa o Irã de lançar drones sobre o enclave de Nakhchivan, ferindo duas pessoas. Teerã nega qualquer envolvimento. Em 1º de março, uma base aérea britânica na ilha de Chipre é atingida por um drone que, de acordo com o Reino Unido, parte de posições do Hezbollah no Líbano.

O uso massivo de drones e mísseis de longo alcance, em especial Tomahawks e balísticos, muda o padrão de confronto na região. Ataques à distância, com precisão crescente, permitem atingir refinarias, bases militares e centros de comando sem presença de tropas no terreno. Essa dinâmica reduz o custo político imediato para os países agressores, mas amplia o raio de destruição para além das linhas de frente, alcançando cidades densamente povoadas.

A morte de Khamenei, as baixas entre militares americanos e a fragilização da infraestrutura iraniana criam um vácuo de poder ainda em formação. Facções dentro do Irã disputam influência em Teerã, enquanto aliados de Washington e de Israel tentam calibrar apoio militar e evitar uma ruptura total das cadeias de energia. No Líbano, a ordem de evacuação do sul agrava a crise humanitária e ameaça desestabilizar um país já pressionado por colapso econômico.

Escalada aberta e incerteza sobre saída diplomática

O 11º dia de guerra deixa clara a tendência de escalada. Forças americanas e israelenses ampliam a lista de alvos em território iraniano, enquanto Teerã e seus aliados demonstram alcance para atingir bases, refinarias e aeroportos em vários países. Cada novo ataque aumenta a dificuldade de um cessar-fogo imediato e torna mais custosa qualquer saída negociada.

Diplomatas europeus e da região tentam abrir canais de diálogo, mas não há até agora anúncio de mediação formal. Governos do Golfo pressionam por garantias de segurança para suas infraestruturas críticas e para a navegação em Ormuz. Investidores acompanham o risco de uma crise prolongada de energia, que pode redesenhar fluxos de comércio e deslocar alianças. Enquanto caças e mísseis seguem no ar, a pergunta em capitais do mundo é se os governos envolvidos ainda controlam o ritmo da guerra ou se a lógica da retaliação já fala mais alto que qualquer cálculo diplomático.

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