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EUA e Israel bombardeiam instalação nuclear de Arak, no Irã

Forças aéreas dos Estados Unidos e de Israel bombardeiam nesta sexta-feira (27) a instalação nuclear de Arak, na província de Markazi, no Irã. O alvo é um complexo estratégico ligado ao programa nuclear iraniano. Autoridades locais dizem que não há vítimas, graças a alertas de evacuação emitidos horas antes.

Ataque anunciado e alvo sensível

O bombardeio atinge uma das peças mais sensíveis da infraestrutura nuclear iraniana. O reator de água pesada de Arak, ainda em construção até o ano passado segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), é visto por Israel e por países ocidentais como um possível caminho para a produção de plutônio em grau militar.

Um funcionário da província de Markazi afirma que a ofensiva é conduzida por forças dos EUA e de Israel e reforça que não há mortos nem feridos. Segundo ele, medidas de segurança são adotadas nas horas que antecedem os ataques. Sirenes tocam, veículos com alto-falantes circulam e moradores recebem orientações para deixar o noroeste de Arak e a zona industrial de Khir Abad, áreas mais próximas da instalação.

O Exército de Israel prepara o terreno em público. Em mensagem em farsi publicada na rede X, as Forças de Defesa de Israel (IDF) avisam que “realizariam ataques contra infraestrutura militar iraniana na região”, sem detalhar alvos. Em seguida, o comando militar informa que a Força Aérea “inicia ataques contra infraestrutura pertencente ao regime iraniano em todo o país”, baseados em informações de inteligência.

Os aviões de combate miram hangares, prédios de apoio e estruturas associadas ao complexo nuclear de Arak. Imagens de satélite analisadas por especialistas mostram colunas de fumaça sobre a área industrial ao redor do reator. O governo iraniano ainda não divulga balanço oficial de danos, mas fontes locais descrevem “explosões sucessivas” na madrugada e interrupções de energia em bairros vizinhos.

Disputa em torno do programa nuclear iraniano

O reator de Arak está no centro da disputa em torno do programa nuclear iraniano há mais de uma década. A preocupação de Israel e de potências ocidentais se concentra na possibilidade de uso da água pesada para produzir plutônio, elemento que pode servir de base para uma bomba nuclear. No acordo nuclear firmado em 2015, o Irã se compromete a modificar o desenho do reator para impedir essa rota.

A AIEA confirma que, até o ano passado, a instalação não entra em operação e não contém material nuclear, condição semelhante à registrada em junho de 2025, quando Israel já havia atacado o complexo durante a guerra de 12 dias com o Irã. Naquela ocasião, a agência ressalta que o reator seguia em construção e que as salvaguardas internacionais continuavam em vigor.

O novo ataque ocorre em um ambiente ainda mais carregado. Mortes no Irã passam de 1.900 desde o início da guerra, segundo a Cruz Vermelha. O país pede que civis se afastem de áreas próximas a tropas americanas. O novo líder supremo, recém-empossado após a morte de seu antecessor, deixa de aparecer em público, alegando razões de segurança apresentadas pelo governo.

Em Teerã, autoridades acusam Israel e Estados Unidos de tentar forçar uma rendição política por meio de golpes sucessivos em infraestrutura estratégica. Em Israel, o governo apresenta os ataques como uma “necessidade de autodefesa” e insiste que o objetivo é retardar qualquer avanço que aproxime o Irã de uma capacidade nuclear militar. Em Washington, assessores de Defesa ecoam a mesma linha e falam em “campanha coordenada” para impedir que Teerã cruze o limiar tecnológico.

Risco de escalada e pressão diplomática

O ataque a Arak aprofunda a sensação de que a frente nuclear volta ao centro das tensões no Oriente Médio. Ao mirar um reator associado à produção potencial de plutônio, Estados Unidos e Israel mandam um recado direto ao regime iraniano e aos mediadores internacionais: o programa nuclear de Teerã continua sob mira militar, não apenas sob vigilância diplomática.

Diplomatas em Viena, sede da AIEA, avaliam que o episódio complica qualquer tentativa de retomada de negociações amplas sobre o acordo nuclear de 2015. Países europeus temem um efeito dominó. Se o Irã responder com novos passos no enriquecimento de urânio ou na limitação de inspeções, o espaço para soluções negociadas encolhe. Se aceitar o golpe em silêncio, o regime se expõe a críticas internas por aparente fraqueza.

Para a população iraniana, o impacto imediato é concreto. Moradores de cidades como Arak convivem com sirenes frequentes, evacuações de emergência e noites interrompidas por explosões. Empresários da região industrial de Khir Abad relatam paralisações de fábricas, atrasos em cadeias de produção e fuga de investimentos. O cenário se soma a uma inflação já elevada e a sanções econômicas prolongadas.

Israel, por sua vez, assume o risco de abrir novas frentes de atrito com aliados e rivais. A ofensiva reforça sua imagem de país disposto a agir preventivamente, inclusive sozinho, contra qualquer ameaça nuclear iraniana. Mas a repetição de ataques dentro do território do Irã aumenta a chance de erros de cálculo, inclusive com eventuais vítimas civis em futuras operações menos controladas.

Próximos passos e incertezas

A AIEA promete avaliar os danos à instalação de Arak assim que tiver acesso a imagens detalhadas e a informações oficiais. Técnicos da agência tentam entender se o ataque causa apenas destruição de superfícies ou se compromete de forma duradoura o projeto do reator. Um relatório preliminar é esperado nas próximas semanas e deve orientar a reação de capitais como Washington, Moscou, Pequim e Bruxelas.

No campo militar, analistas consideram provável uma continuidade da campanha aérea contra alvos ligados ao programa nuclear e a forças alinhadas ao Irã na região. A resposta iraniana, seja direta ou por meio de grupos aliados, definirá o grau de escalada. Entre a exibição de força e a necessidade de evitar uma guerra aberta, líderes dos três países envolvidos caminham em uma linha cada vez mais estreita. Resta saber por quanto tempo o equilíbrio se sustenta sem que a próxima explosão ultrapasse um ponto sem retorno.

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