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EUA e Irã travam em Islamabad enquanto guerra se arrasta no Oriente Médio

Estados Unidos e Irã entram neste domingo (12) no segundo dia de negociações em Islamabad, sem acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio. Em meio a um cessar-fogo frágil e disputas sobre o Estreito de Ormuz, as conversas trilaterais mediadas pelo Paquistão tentam transformar uma trégua de duas semanas em cessar-fogo definitivo.

Trégua temporária, exigências máximas

As delegações chegam ao segundo dia de conversas com discursos endurecidos. O vice-presidente americano, JD Vance, afirma ter apresentado a Teerã a “oferta final e melhor” e anuncia que deixa a mesa sem acordo. Do lado iraniano, agências estatais acusam Washington de “exigências excessivas” em relação ao Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.

O encontro em Islamabad ocorre sob um cessar-fogo de duas semanas, iniciado em 7 de abril, que reduz a intensidade dos combates, mas não encerra a guerra. O Paquistão atua como mediador trilateral e tenta manter as partes no diálogo. Uma fonte paquistanesa, sob anonimato, descreve o clima nas salas de reunião como “cordial” e diz que “as negociações avançam na direção certa”.

O presidente americano Donald Trump, porém, mostra pouco apetite por concessões públicas. Em conversa com jornalistas, afirma que “tanto faz” o resultado das conversas com o Irã. “Cheguemos ou não a um acordo, tanto faz para mim. O motivo é que nós vencemos”, declara, em recado que ecoa mais para a base doméstica do que para a mesa de negociações.

Do lado iraniano, a delegação exibe peso político. Em Islamabad estão o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi. O grupo enfrenta uma equipe americana chefiada por Vance e reforçada pelo enviado especial Steve Witkoff e pelo conselheiro presidencial Jared Kushner. A própria composição dos times revela a leitura de ambos: o conflito entra em fase decisiva, mas os custos de recuo político são altos.

Guerra, Ormuz e pressão no Líbano

Enquanto negociadores se reúnem no ar-condicionado de Islamabad, a guerra segue viva em outros frontes. Israel proclama vitória militar. Em discurso televisivo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diz ter “destruído o programa nuclear e destruído o programa de mísseis” do Irã. Afirma que Teerã e seus aliados regionais saem enfraquecidos: “Eles queriam nos estrangular e [agora] somos nós que os estrangulamos. Eles nos ameaçavam com a aniquilação e agora lutam por sua sobrevivência”.

A leitura israelense contrasta com a percepção de parte da comunidade estratégica em Washington. Para o analista Trita Parsi, do think tank Quincy Institute, “nunca antes os iranianos tinham negociado com os Estados Unidos com tantas cartas na mão”. O bloqueio do Estreito de Ormuz, imposto por Teerã desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, figura como principal trunfo. O fechamento da via marítima, vital para o escoamento de petróleo do Golfo, pressiona mercados globais de energia, eleva prêmios de risco e ameaça economias dependentes de importação.

A Casa Branca anuncia o envio de navios de guerra à região. As Forças Armadas dos EUA confirmam que dois destróieres cruzam o estreito em operação preparatória de desminamento, poucas horas depois de Trump declarar que o país inicia “o processo de desbloqueio” da passagem. A resposta da Guarda Revolucionária é direta. Em comunicado reproduzido pela TV estatal IRIB, o comando naval adverte: “Qualquer tentativa de navios militares de passar pelo Estreito de Ormuz será enfrentada severamente”.

O impasse sobre Ormuz se soma a outros nós da negociação. Sanções econômicas, influência iraniana no Líbano e ataques de Israel no sul do país tornam o desenho de um acordo abrangente ainda mais complexo. Desde 2 de março, bombardeios israelenses deixam 2.020 mortos e 6.436 feridos no Líbano, segundo autoridades locais. Só no sábado, ataques no sul do país matam 18 pessoas, conforme o Ministério da Saúde libanês. O Exército israelense informa ter atingido mais de 200 alvos do Hezbollah em 24 horas e registra, na quarta-feira anterior, o dia mais mortal da guerra no país, com ao menos 357 mortos.

Israel afirma que o Líbano não está coberto pelo cessar-fogo vigente desde quarta-feira. A presidência libanesa anuncia negociações com Israel em Washington na terça-feira, iniciativa recebida com desconfiança pelo Hezbollah. Em discurso, Netanyahu diz buscar um “acordo duradouro” e impõe duas condições: “queremos o desarmamento do Hezbollah e queremos um verdadeiro acordo de paz que perdure por gerações”.

Mercados em alerta e pressão global pela paz

O bloqueio de Ormuz e a incerteza sobre a duração da guerra já afetam o cotidiano muito além da região. Cotações internacionais de petróleo reagem a cada sinal de avanço ou recuo nas conversas de Islamabad. Seguradoras marítimas recalculam riscos de navegação no Golfo. Empresas importadoras revisam contratos e prazos de entrega. Governos dependentes de combustíveis fósseis se veem forçados a planejar estoques de emergência.

A instabilidade também agrava crises humanitárias no Oriente Médio. O número de mortos e deslocados cresce em ritmo acelerado desde o início da ofensiva em 28 de fevereiro. Hospitais no Líbano, na Síria e em áreas de influência iraniana operam no limite, enfrentando falta de medicamentos, energia e equipes. Organizações humanitárias alertam que, se a trégua temporária ruir, a região pode assistir a uma nova onda de refugiados, com fluxos em direção à Europa, à Turquia e a países do Golfo.

Diante desse quadro, líderes internacionais intensificam apelos públicos por um acordo. Em Roma, o papa Francisco dedica uma vigília na Basílica de São Pedro à paz no Oriente Médio e eleva o tom. “Basta de idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta de ostentação de força! Basta de guerra! A verdadeira força se manifesta no serviço à vida”, afirma o pontífice, em recado que mira não só governantes da região, mas também as grandes potências envolvidas.

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, reconhece o peso do momento. Para ele, Estados Unidos e Irã estão em uma fase de “tudo ou nada”, o que dificulta “estabelecer uma trégua duradoura”. Ao mesmo tempo, Islamabad tenta capitalizar seu papel de mediador, oferecendo canais discretos de comunicação e tentando impedir que a retórica pública inviabilize pontes privadas.

Negociações em xeque e horizonte incerto

Se houver acordo para transformar a trégua de duas semanas em cessar-fogo permanente, diplomatas veem espaço para uma negociação mais ampla. O roteiro inclui discutir sanções, segurança marítima no Golfo, influência do Irã em países vizinhos e a situação do Líbano. Um entendimento entre Washington e Teerã pode reordenar alianças regionais, reduzir o prêmio de risco nos mercados de energia e abrir terreno para conversas sobre reconstrução.

O fracasso em Islamabad, por outro lado, tende a aprofundar a guerra. A continuidade do bloqueio de Ormuz prolonga a pressão sobre a economia global. Um eventual confronto direto entre navios americanos e forças iranianas no estreito aumentaria o risco de choque militar aberto, com impacto imediato nos preços do petróleo e em cadeias logísticas de vários continentes. No Líbano, a ausência de um arranjo para o Hezbollah pode levar a novos ciclos de ataques e retaliações.

As delegações voltam à mesa neste domingo sob relógio apertado. A trégua iniciada em 7 de abril tem prazo curto e depende de sinais concretos de avanço para se sustentar. Entre declarações de vitória, ameaças no estreito e cidades em ruínas, a pergunta que paira sobre Islamabad é simples e brutal: quem cederá primeiro para que a guerra, enfim, termine?

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