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EUA e Irã selam acordo para manter diálogo em meio a ameaças militares

Estados Unidos e Irã encerram nesta sexta-feira (6) um dia de negociações tensas em Omã com um único consenso público: o diálogo continua. As delegações, mediadas pelo chanceler omanense Badr Albusaidi, concordam em retomar as conversas sobre o programa nuclear em data ainda indefinida. O gesto mantém aberto um dos poucos canais diplomáticos em uma crise que envolve ameaça de ataque militar e risco de guerra regional.

Mediação em meio à frota americana e ameaças de guerra

As delegações se reúnem em Mascate, capital do sultanato de Omã, enquanto a tensão cresce no Golfo Pérsico. Horas antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, volta a ameaçar publicamente um ataque militar caso Teerã não aceite negociar um novo acordo nuclear, que ele define como “justo com todas as partes”. O republicano afirma ter enviado uma “grande frota” à região, incluindo o porta-aviões Abraham Lincoln e caças F-35, em demonstração de força dirigida ao regime iraniano.

No salão reservado onde ocorre a mediação, Badr Albusaidi circula entre as duas delegações. Ao longo do dia, segundo relato da agência oficial iraniana Tasnim, americanos e iranianos “transmitem pontos de vista, considerações e abordagens” por meio do chanceler omanense. As conversas são presenciais, mas a comunicação entre os lados se dá, na prática, por meio do mediador, que leva propostas e recados de uma sala a outra.

Ao fim da rodada, não há anúncio de avanços concretos sobre limites ao enriquecimento de urânio, inspeções internacionais ou alívio de sanções. A única decisão divulgada é a de que as negociações “continuarão em outro momento”, sem data marcada. A frase, divulgada pela Tasnim, traduz o equilíbrio frágil de um encontro realizado sob pressão externa intensa e desconfiança mútua acumulada há décadas.

Pressão das ruas, ameaça militar e impasse nuclear

A mesa de Omã reflete não só o confronto direto entre Washington e Teerã, mas também a instabilidade interna no Irã. A atual escalada começa no início de janeiro, quando o regime enfrenta grandes protestos em várias cidades, detonados pela inflação em alta e pelo custo de vida crescente. Organizações de direitos humanos estimam em mais de 5 mil o número de manifestantes mortos durante a repressão, em meio a um bloqueio quase total da internet imposto pelas autoridades.

Trump reage aos protestos com sucessivos recados públicos à liderança iraniana. Diz que os Estados Unidos estão “prontos e armados” e alerta que atacará “com força total” se o regime insistir na repressão violenta. O tom endurece o clima regional e alimenta a percepção em Teerã de que o objetivo da Casa Branca vai além do programa nuclear, atingindo a própria sobrevivência do governo iraniano.

Autoridades iranianas rejeitam a ideia de sentar à mesa sob esse tipo de ameaça. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirma que qualquer negociação só é possível “em condições em que ameaças e demandas sejam deixadas de lado”. Em outro recado, diz que as Forças Armadas iranianas estão prontas para responder “imediata e poderosamente” a qualquer agressão ao território, ao espaço aéreo ou às águas do país. Ali Shamkhani, conselheiro do líder supremo, vai além e declara que um ataque americano seria “o início de uma guerra”.

O pano de fundo é a disputa em torno do acordo nuclear firmado em 2015 e abandonado unilateralmente por Washington anos depois. Desde então, Teerã amplia gradualmente o nível de enriquecimento de urânio e reduz a cooperação com inspetores internacionais, enquanto os Estados Unidos restabelecem sanções econômicas duras. O encontro em Omã tenta recolocar as partes em um trilho de diálogo capaz de frear a escalada antes que um incidente militar se torne irreversível.

Risco para a energia global e para a estabilidade regional

A decisão de manter o canal diplomático aberto não resolve o impasse, mas adia um confronto que teria impacto imediato sobre a economia mundial. Uma escalada entre Estados Unidos e Irã ameaça rotas estratégicas de petróleo no Golfo e no estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% das exportações globais de petróleo. Qualquer interrupção mais duradoura pressiona preços, afeta a inflação em vários países e aumenta o custo de energia para famílias e empresas.

Sanções adicionais contra o Irã continuam sobre a mesa de Washington e podem ser reforçadas a depender do rumo das conversas. Empresas ligadas à indústria de energia, transporte marítimo, finanças e seguros seguem em alerta, calculando riscos políticos e jurídicos de operar com parceiros iranianos ou em áreas próximas à zona de tensão. Para Teerã, o desfecho das negociações influencia diretamente o acesso a divisas, a capacidade de importar bens essenciais e o humor de uma população que já enfrenta alta de preços e desemprego.

Aliados dos Estados Unidos na região, como Israel e Arábia Saudita, observam com desconfiança qualquer sinal de flexibilização em relação ao programa nuclear iraniano. Para esses governos, um acordo que não imponha limites claros e verificáveis ao enriquecimento de urânio pode fortalecer o Irã militar e politicamente. Do outro lado, grupos próximos a Teerã veem na continuidade das conversas uma chance de aliviar o cerco econômico e ganhar fôlego para enfrentar a pressão interna e externa.

Negociações em suspenso e futuro incerto

Sem calendário definido, o próximo capítulo das negociações depende de decisões políticas em Washington e Teerã. O governo Trump usa o envio do porta-aviões Abraham Lincoln e de caças F-35 como instrumento de pressão, enquanto insiste em um novo pacto que inclua não só o programa nuclear, mas também mísseis balísticos e influência regional iraniana. Em Teerã, lideranças civis e militares debatem até que ponto é possível ceder sem parecer fracas diante de uma opinião pública marcada por luto e ressentimento após a repressão de janeiro.

Omã volta a se consolidar como espaço neutro para diálogos entre rivais que não se falam diretamente, repetindo um papel que exerceu em momentos anteriores da crise nuclear iraniana. O acordo para continuar a conversar, ainda que pareça modesto, reduz a chance imediata de um choque militar aberto e oferece uma janela de negociação disputada por vários atores globais. A questão que permanece, à saída das delegações de Mascate, é quanto tempo esse frágil compromisso resiste à combinação explosiva de protestos internos, pressões econômicas e uma frota de guerra à espreita no Golfo.

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