EUA e Irã fecham cessar-fogo de 2 semanas e reabrem Ormuz
Estados Unidos e Irã concordam com um cessar-fogo condicional de duas semanas a partir desta terça-feira (7/4), que inclui a reabertura do estreito de Ormuz ao tráfego marítimo. O acordo, mediado pelo Paquistão, tenta conter a escalada militar após mais de um mês de ataques coordenados entre Washington, Teerã e Israel.
Pressão máxima e risco de guerra aberta
O entendimento ocorre poucas horas depois de o presidente americano, Donald Trump, elevar o tom ao limite. Em mensagem publicada na rede Truth Social, ele ameaça que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada” caso o Irã não reabra o estreito, por onde passam historicamente cerca de 20% das exportações globais de petróleo.
Teerã havia fechado a passagem em reação aos bombardeios iniciados em 28 de fevereiro por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos. O bloqueio atinge em cheio o coração do Golfo Pérsico, região que concentra alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo e sustenta, há décadas, o abastecimento energético da Europa e da Ásia.
Na manhã desta quarta-feira (8/4), o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anuncia que o cessar-fogo “passa a valer imediatamente”. Seu governo atua há semanas como principal mediador entre Washington e Teerã, em meio a uma sucessão de ataques, retaliações e ameaças de destruição mútua.
Trump afirma ter concordado em “suspender o bombardeio e os ataques contra o Irã por um período de duas semanas” em troca da reabertura de Ormuz. “Já atingimos e superamos todos os objetivos militares”, escreve, sem detalhar quais seriam esses objetivos nem apresentar dados sobre danos ou baixas.
As ameaças do presidente americano, que já havia dito que os EUA poderiam “destruir o Irã em uma noite”, recebem críticas públicas do secretário-geral da ONU e do papa. Ambos alertam para o risco de um conflito regional se transformar em guerra de grandes proporções, com impacto direto sobre a economia global.
Plano iraniano e disputa pelo controle de Ormuz
O Irã aceita reabrir o estreito por duas semanas, mas faz questão de manter o controle do fluxo marítimo na área. Navios voltam a transitar com o tráfego coordenado pelas forças militares iranianas, em uma solução que busca conciliar a exigência americana de passagem livre com a insistência de Teerã em preservar sua autoridade sobre a rota estratégica.
Ao mesmo tempo, o governo iraniano envia a Washington um plano de 10 pontos, que se torna a base política do cessar-fogo. O documento, ainda não divulgado integralmente, prevê a cessação completa da guerra em quatro países — Irã, Iraque, Líbano e Iêmen —, o fim das sanções americanas, a liberação de fundos e ativos iranianos congelados e o pagamento de compensações pelos custos de reconstrução.
O texto inclui também um compromisso formal: o Irã “se compromete plenamente a não buscar a posse de armas nucleares”. Em comunicado, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do país declara que “a vitória do Irã no campo de batalha também será consolidada nas negociações políticas”, em tom de celebração interna.
Mesmo com o cessar-fogo em vigor, desconfianças persistem. Khashayar Joneidi, correspondente da BBC News Persa em Washington, descreve “um déficit de confiança” entre os dois países às vésperas de novas negociações presenciais. Ele aponta dois impasses centrais: o controle do tráfego em Ormuz e o programa nuclear iraniano.
“Os EUA condicionaram o cessar-fogo à livre circulação de navios no estreito de Ormuz, enquanto o Irã insiste em manter controle sobre o tráfego marítimo na região, citando sua posição geográfica como prioridade estratégica”, afirma Joneidi. Ele acrescenta que a mídia estatal iraniana divulga que Washington teria aceitado algum nível de enriquecimento de urânio no Irã, algo que autoridades americanas negam de forma categórica.
Impacto no petróleo, na região e o papel de Israel
A reabertura de Ormuz afasta, ao menos por duas semanas, o cenário de um choque imediato no mercado de petróleo. Antes do fechamento do estreito, cerca de um quinto do petróleo negociado no planeta cruzava diariamente o corredor entre o Golfo Pérsico e o mar de Omã. O bloqueio prolongado poderia disparar preços, pressionar inflação global e limitar a recuperação de economias ainda frágeis.
O cessar-fogo também tenta conter a expansão do conflito para vizinhos do Irã. Sharif afirma que a pausa valerá para o Líbano, onde Israel diz enfrentar o Hezbollah, grupo xiita apoiado por Teerã. A liderança israelense, no entanto, envia sinais contraditórios.
Poucas horas após o anúncio de Trump, sirenes voltam a soar em cidades israelenses, e as forças de segurança dizem interceptar mísseis lançados do Irã. Explosões são ouvidas em Jerusalém na noite de terça-feira (7/4), em um lembrete de que a trégua permanece frágil.
Em seguida, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declara: “Israel apoia a decisão do presidente Trump de suspender os bombardeios contra o Irã por duas semanas, sujeita à abertura imediata do estreito e à paralisação de todos os ataques contra os EUA, Israel e países da região”. O comunicado, porém, faz uma ressalva explícita: “o cessar-fogo não inclui o Líbano”.
Israel mantém tropas em solo libanês e repete que não deixará o país até eliminar a ameaça do Hezbollah. Não há sinal, até agora, de que o governo esteja disposto a interromper operações militares ali ou em outras frentes, o que mantém o risco de novas escaladas.
Negociações em Islamabad e incertezas adiante
O Paquistão convida as delegações dos países envolvidos para reuniões em Islamabad na sexta-feira (10/4). O objetivo declarado é avançar rumo a “um acordo conclusivo que resolva todas as disputas”, nas palavras de Sharif. A Casa Branca confirma que há discussões sobre encontros presenciais, mas a porta-voz Karoline Leavitt avisa que “nada é definitivo até ser anunciado pelo presidente ou pela Casa Branca”.
As conversas se dão sob uma memória recente desfavorável. No ano anterior, duas rodadas de diálogo entre Washington e Teerã terminaram em nova escalada militar, em vez de alívio duradouro. Negociadores lembram que, nos dois casos, ataques e operações secretas continuaram mesmo durante as tratativas.
Para o Irã, as próximas duas semanas são a chance de transformar ganhos no campo de batalha em avanços econômicos concretos: fim de sanções, liberação de ativos e reconhecimento de seu papel regional. Para Washington, o desafio é segurar o custo de uma ofensiva prolongada, proteger rotas de energia vitais e, ao mesmo tempo, impedir que Teerã avance em seu programa nuclear.
O cessar-fogo de 14 dias funciona, por enquanto, como válvula de escape para uma crise que ameaça transbordar o Golfo Pérsico e atingir o Líbano, o Iraque e o Iêmen. O equilíbrio, porém, depende de atores que não sentam diretamente à mesa, como o Hezbollah e aliados regionais do Irã.
A conferência em Islamabad deve mostrar se o acordo em torno de Ormuz é o início de uma reacomodação mais ampla no Oriente Médio ou apenas uma pausa tática antes de uma nova rodada de violência. Em uma região acostumada a tréguas breves, a resposta pode determinar o rumo do mercado de energia — e da segurança global — pelos próximos anos.
