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EUA dizem que governo cubano ‘está nas últimas’, e Havana reage

O governo dos Estados Unidos afirma nesta quinta-feira (5) que o regime de Cuba “está nas últimas” e que a ilha vive à beira do colapso. Havana reage em poucas horas, diz que não aceita ameaças e se declara disposta a dialogar, desde que em pé de igualdade.

Pressão máxima de Washington e resposta de Havana

A escalada ocorre em meio ao bloqueio econômico imposto por Washington desde janeiro, que atinge o coração da economia cubana: o petróleo importado. Sem combustível suficiente, o país enfrenta apagões diários, filas extensas em postos de gasolina e uma disparada nos preços de alimentos básicos.

A frase sobre o governo “nas últimas” parte da porta-voz da Casa Branca, Olivia Leavitt, durante entrevista coletiva nos EUA. “Penso que, tendo em vista o fato de que o governo cubano está nas últimas e seu país, à beira do colapso, eles deveriam ser cautelosos em suas declarações dirigidas ao presidente dos Estados Unidos”, afirma. A declaração sinaliza que a Casa Branca vê o desgaste interno em Cuba como oportunidade para ampliar a pressão política.

Leavitt confirma que há conversas em andamento entre os dois países, mas ressalta que as discussões seguem os termos impostos por Washington. O recado é claro: o espaço para negociação existe, porém limitado pelas condições americanas, que incluem o bloqueio a combustíveis e o isolamento financeiro.

Em Havana, o presidente Miguel Díaz-Canel tenta reequilibrar o tabuleiro diplomático. Ele reconhece a existência de diálogo, mas rejeita qualquer negociação que envolva concessões consideradas humilhantes para o regime. “[Dialogamos] em posição de igualdade, de respeito à nossa soberania, à nossa independência, à nossa autodeterminação. Sem abordar questões que entendamos como ingerência em nossos assuntos”, diz a jornalistas na capital cubana.

O governo cubano busca mostrar que ainda controla a narrativa interna, mesmo diante de filas crescentes, desabastecimento e perda de poder de compra. O discurso de firmeza, porém, convive com um quadro de fragilidade econômica sem precedentes desde a crise dos anos 1990, após o colapso da União Soviética.

Bloqueio do petróleo, crise interna e disputa geopolítica

O novo bloqueio americano começa dias depois da queda de Nicolás Maduro na Venezuela, no início de janeiro. Caracas, agora sob forte tutela de Washington nas exportações de petróleo, deixa de ser o principal fornecedor da commodity para a ilha. Primeiro, os EUA proíbem que o petróleo venezuelano siga para Cuba. Em seguida, ameaçam com tarifas países que mantenham o envio de combustível a Havana.

Cuba depende majoritariamente de petróleo importado para gerar energia. Com o fluxo reduzido, o governo faz racionamento de luz, corta serviços e admite dificuldades para manter o transporte público funcionando. Apagões se espalham por diversas províncias, afetam hospitais, escolas e pequenas fábricas. Nos mercados, o impacto aparece na alta de preços de arroz, feijão e óleo de cozinha, que sobem em sequência ao aumento do custo logístico.

A Casa Branca justifica o aperto como resposta às relações políticas e militares de Cuba com China, Rússia e Venezuela. Em linha com a postura adotada na crise venezuelana, o presidente Donald Trump apresenta o bloqueio como forma de “conter a influência autoritária” dessas potências no Caribe. Na prática, a estratégia amplia o cerco a Moscou e Pequim em uma região historicamente sensível para Washington desde a crise dos mísseis de 1962.

Havana tenta desarmar o discurso de ameaça. Em entrevista à CNN na quarta-feira (4), o vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, afirma que uma mudança de regime não está em discussão. “Cuba não representa nenhuma ameaça aos Estados Unidos. Não é agressiva contra os Estados Unidos. Não é hostil. Não abriga terroristas, nem os patrocina. Não há bases militares estrangeiras em Cuba, ao contrário do que se diz – com exceção de uma, em Guantánamo, uma base americana”, diz.

O confronto retoma elementos do embate histórico entre Washington e Havana, mas em um cenário internacional mais fragmentado. A presença chinesa em infraestrutura e telecomunicações na América Latina, a aproximação militar da Rússia e a instabilidade na Venezuela transformam a crise cubana em peça de uma disputa mais ampla por influência regional.

Impacto para a população e riscos para a região

O custo imediato da pressão recai sobre os cubanos. Desde o início do bloqueio, moradores relatam cortes diários de energia, falta de combustível em postos e redução de estoques em supermercados. O encarecimento de alimentos atinge famílias que já convivem com salários baixos e moeda enfraquecida. Em bairros periféricos de Havana, refeições passam a depender de doações, remessas de parentes no exterior e distribuição estatal irregular.

Organismos internacionais e analistas temem o avanço de uma crise humanitária silenciosa, em um país que já enfrenta dificuldades crônicas de abastecimento. Com menos energia disponível, hospitais operam com geradores, escolas encurtam horários e indústrias trabalham abaixo da capacidade. O risco de protestos em larga escala, como os de julho de 2021, volta ao radar de governos da região.

No Caribe e na América Latina, o impasse acende alertas diplomáticos. Países dependentes de médicos e serviços cubanos, como programas de cooperação em saúde, observam com cautela. Uma deterioração rápida da economia da ilha pode acelerar fluxos migratórios rumo aos Estados Unidos, ao México e a nações vizinhas, pressionando fronteiras e sistemas de acolhimento.

Para Washington, o cálculo envolve custo político interno e disputa global. Uma eventual queda abrupta do regime poderia ser apresentada por Trump como vitória estratégica contra Moscou e Pequim. Se a pressão resultar em caos prolongado e aumento de migração, porém, o governo americano passa a responder também por esse efeito colateral.

Negociações em curso e incertezas à frente

Os dois países mantêm canais abertos, apesar da retórica dura. A Casa Branca admite conversas sob “termos americanos”; Havana aceita falar, desde que sem “condicionantes restritivas”. A distância entre as posições segue grande, mas a própria existência do diálogo indica que nem Washington nem o governo Díaz-Canel ignoram o risco de uma ruptura descontrolada.

Diplomatas ouvidos reservadamente apontam três cenários principais para os próximos meses: endurecimento do bloqueio com objetivo de testar o limite da resistência cubana; abertura para um acordo parcial que alivie o fornecimento de petróleo; ou uma fase prolongada de impasse, na qual a população paga a maior parte da conta. Enquanto isso, a influência de China, Rússia e Venezuela continua a pesar nas decisões de Havana.

A crise atual recoloca Cuba no centro da agenda internacional e obriga Washington a calibrar até onde pode ir a política de pressão máxima. A resposta, em grande parte, dependerá de quanto tempo a ilha suportará apagões, falta de combustível e inflação sem que o descontentamento interno transborde para as ruas. A pergunta que permanece em aberto é se a aposta americana em encurralar o regime acabará produzindo mudança política ou apenas mais uma rodada de sofrimento para os cubanos.

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