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EUA dizem que governo cubano ‘está nas últimas’ e elevam pressão

O governo dos Estados Unidos afirma que o regime cubano “está nas últimas” e deve “ser cauteloso” em suas declarações, em meio à pior crise econômica da ilha em décadas. As falas, feitas nesta quinta-feira (5), ocorrem enquanto Havana enfrenta apagões, escassez de combustível e alta de preços, após o endurecimento do bloqueio americano ao petróleo.

Pressão pública e negociação em paralelo

A avaliação dura parte da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, em coletiva em 5 de fevereiro de 2026. “Penso que, tendo em vista o fato de que o governo cubano está nas últimas e seu país, à beira do colapso, eles deveriam ser cautelosos em suas declarações dirigidas ao presidente dos Estados Unidos”, declara. A frase expõe a estratégia de Washington: aumentar a pressão pública sobre Havana enquanto mantém conversas reservadas.

Segundo Leavitt, Cuba e Estados Unidos mantêm negociações em andamento, “nos termos impostos por Washington”. Na prática, o recado é que qualquer alívio na pressão econômica passa por condicionantes políticas definidas pelo governo Donald Trump, que volta a usar a ilha como vitrine de firmeza diante de rivais estratégicos como China e Rússia.

Horas antes, em Havana, o presidente Miguel Díaz-Canel procura mostrar outra imagem. Ele diz que o país está disposto a dialogar com os EUA, mas rejeita concessões que considere humilhantes. “[Dialogamos] em posição de igualdade, de respeito à nossa soberania, à nossa independência, à nossa autodeterminação. Sem abordar questões que entendamos como ingerência em nossos assuntos”, afirma a jornalistas na capital cubana.

Bloqueio ao petróleo agrava crise na ilha

Cuba enfrenta desde janeiro um bloqueio americano que, na prática, asfixia o abastecimento de energia da ilha. O governo dos EUA proíbe o envio de petróleo venezuelano para Havana e ameaça com tarifas países que insistirem em vender combustível aos cubanos. Sem acesso estável a fornecedores, a ilha, que depende majoritariamente de petróleo importado, convive com apagões em série, filas em postos de gasolina e aumento de preços de alimentos básicos.

O cerco se fecha poucos dias depois da queda de Nicolás Maduro na Venezuela, no início de janeiro, quando Washington passa a tutelar as exportações de petróleo do país sul-americano. Caracas era, até então, o principal fornecedor de combustíveis para Cuba. Em menos de um mês, o fluxo é interrompido e o governo Díaz-Canel se vê obrigado a racionar energia, redirecionar combustíveis para serviços essenciais e preparar a população para um período indefinido de escassez.

Trump justifica o endurecimento como resposta direta ao alinhamento político e militar de Havana com potências rivais. A Casa Branca cita o aprofundamento da cooperação com a China e, sobretudo, com a Rússia, que mantém presença militar crescente no Caribe. A mensagem para aliados é que o novo embargo reforça a estratégia americana de conter a influência de Pequim e Moscou em seu entorno imediato.

O governo cubano denuncia um “bloqueio ilegal” e insiste que não representa risco de segurança aos EUA. Em entrevista à CNN, o vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, rejeita qualquer discussão sobre mudança de regime. “Cuba não representa nenhuma ameaça aos Estados Unidos. Não é agressiva contra os Estados Unidos. Não é hostil. Não abriga terroristas, nem os patrocina. Não há bases militares estrangeiras em Cuba, ao contrário do que se diz – com exceção de uma, em Guantánamo, uma base americana”, afirma.

Impacto interno e disputa geopolítica

O novo bloqueio atinge o coração da já frágil economia cubana. Sem combustíveis, a produção agrícola perde capacidade de transporte e armazenamento, o que pressiona ainda mais os preços num país que já convive com inflação alta e desabastecimento. Empresas estatais reduzem turnos, serviços de transporte urbano encolhem, hospitais relatam dificuldades para manter geradores e a população sofre com cortes de luz que se estendem por várias horas ao dia.

O quadro social se deteriora num momento em que o governo tenta evitar protestos em massa como os de 2021. Restrições a internet e manifestações públicas se somam à narrativa oficial de que a crise é “fabricada” por Washington. Para os Estados Unidos, o colapso econômico aumenta a chance de fissuras internas no Partido Comunista e de desgaste direto da liderança de Díaz-Canel. O risco para a região é o efeito colateral de uma possível nova onda migratória em direção à Flórida, como em Mariel, em 1980, ou na crise dos balseros, em 1994.

Analistas veem na ofensiva de Trump um duplo movimento. De um lado, o governo reforça a imagem de dureza externa num cenário global marcado pela competição com China e Rússia. De outro, testa limites de Cuba em um momento em que o país depende de poucos parceiros estratégicos para manter o mínimo de estabilidade energética. A frase de que o governo cubano “está nas últimas” funciona como diagnóstico e como recado político para adversários internos em Havana.

No tabuleiro internacional, a escalada reacende debates sobre soberania, sanções econômicas e direitos humanos. Países latino-americanos mais próximos de Havana tendem a denunciar o bloqueio e a pressionar por vias diplomáticas na ONU e na OEA. Aliados de Washington, por outro lado, veem na medida um instrumento legítimo para constranger um governo que mantém laços estreitos com Moscou em plena guerra na Ucrânia.

Futuro das negociações e linha vermelha

Apesar da retórica inflamável, Washington e Havana seguem em contato. A Casa Branca confirma conversas em curso, mas deixa claro que qualquer avanço passa por mudanças concretas na postura externa cubana e por garantias políticas internas. O governo Díaz-Canel repete que não aceita condicionantes que, em sua avaliação, toquem no núcleo do sistema político da ilha.

O impasse expõe a distância entre os dois lados. Para os EUA, o endurecimento das sanções é ferramenta de pressão legítima e coerente com a disputa estratégica com China e Rússia. Para Cuba, o bloqueio é uma tentativa de estrangular a economia e forçar, na prática, uma mudança de regime que Havana diz não estar disposta a discutir. A combinação de crise energética, tensão diplomática e interesse de grandes potências faz da pequena ilha do Caribe um dos pontos mais sensíveis do mapa global em 2026. Resta saber se a retórica de colapso abre espaço para uma saída negociada ou empurra Cuba ainda mais para o eixo que Washington tenta conter.

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