EUA classificam PCC e Comando Vermelho como ameaça à segurança
O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma nesta terça-feira (10/3) que vê o PCC e o Comando Vermelho como ameaças significativas à segurança regional. A declaração, divulgada em nota oficial, amplia a pressão sobre o governo Lula e acende alerta diplomático em Brasília.
Nota oficial expõe tensão em relação bilateral
A posição americana vem a público dois dias depois de o portal UOL revelar a intenção do governo Donald Trump de classificar as duas facções brasileiras como organizações terroristas. A nota, divulgada primeiro pelo jornal O Globo e confirmada pela BBC News Brasil, não confirma essa designação, mas deixa claro o enquadramento político de Washington. “Os Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional”, diz o texto.
O governo americano afirma que não antecipa “potenciais designações terroristas ou deliberações relativas a designações terroristas”. Ao mesmo tempo, registra que o país está “totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas”. A formulação mantém aberta a possibilidade de sanções, investigações e cooperação ampliada em segurança, sem anunciar um passo formal imediato.
Brasil resiste a rótulo de terrorismo
No Itamaraty e em outros órgãos do governo Lula, a leitura é de que a classificação de PCC e CV como terroristas deturpa o conceito previsto na legislação brasileira. Diplomatas e integrantes do governo ouvidos reservadamente pela BBC News Brasil consideram que não há indícios de que as facções pratiquem terrorismo segundo a Lei Antiterrorismo, de 2016. O texto define terrorismo como atos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, por razões de xenofobia, racismo ou intolerância religiosa, entre outros motivadores ideológicos.
Na avaliação oficial, PCC e Comando Vermelho agem movidos por lucro, controle de territórios e influência sobre o crime organizado, não por pauta política ou religiosa. A interpretação sustenta a recusa brasileira em aderir ao rótulo defendido por setores da direita norte-americana. Em maio de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, já havia rejeitado um pedido de um oficial do Departamento de Estado para tratar as facções como terroristas. “Nós não temos organizações terroristas aqui. Nós temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade”, disse Sarrubo, em entrevista à agência Reuters à época.
Bastidores de uma conversa sensível
A nova manifestação dos EUA ocorre após pelo menos um ano de conversas discretas entre os dois governos sobre o tema. Uma fonte ouvida em caráter reservado pela BBC News Brasil relata que, no domingo (8/3), o chanceler Mauro Vieira conversa com o secretário de Estado, Marco Rubio, justamente sobre o risco de escalada retórica. A preocupação central de Brasília é que a eventual designação terrorista sirva de base jurídica para ações unilaterais dos Estados Unidos na região.
Nos bastidores, auxiliares de Lula citam como exemplo os bombardeios a barcos na costa de países como Colômbia e Venezuela sob o argumento de combate ao narcotráfico. O temor é que, ao nivelar facções brasileiras a grupos terroristas internacionais, Washington reivindique o direito de atuar militarmente em mares e fronteiras sul-americanas, com menor espaço para contestação diplomática. Até agora, o Ministério das Relações Exteriores evita comentários públicos e tenta reduzir o atrito à porta fechada.
Crime organizado vira pauta de política externa
A discussão sobre PCC e Comando Vermelho extrapola a segurança pública doméstica e contamina a agenda bilateral em um momento delicado. Brasil e Estados Unidos negociam há pelo menos dois meses um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. Lula menciona a data de 16 de março como possível, mas a reunião ainda não está confirmada. A nota do Departamento de Estado insere um novo elemento de tensão nas conversas, em um cenário em que o crime organizado brasileiro já aparece em relatórios internacionais sobre tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
O PCC, nascido em presídios paulistas nos anos 1990, e o Comando Vermelho, surgido no sistema carcerário do Rio de Janeiro ainda na década de 1970, se tornam hoje redes com atuação além das fronteiras. Investigações apontam presença de membros e aliados em países vizinhos, como Paraguai, Bolívia e Peru, e participação em rotas que conectam a produção de cocaína andina a mercados na Europa e nos Estados Unidos. Para Washington, essa capilaridade dá às facções um alcance regional que justifica o alerta público.
Pressão externa alimenta disputa interna
No Congresso brasileiro, a movimentação do governo Trump encontra eco em parte da bancada de direita, especialmente entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Parlamentares desse grupo defendem há anos que o PCC e o Comando Vermelho sejam enquadrados como organizações terroristas. Um projeto de lei em tramitação equipara os crimes praticados por facções criminosas a atos de terrorismo. A proposta já passa pela Comissão de Segurança Pública da Câmara, mas ainda precisa dos votos do plenário da Câmara e do Senado antes de chegar à mesa de Lula.
A base governista vê o texto com desconfiança. Para assessores presidenciais, a mudança esvazia o conceito jurídico de terrorismo, abre margem para abusos e pode criminalizar de forma ampla comunidades vulneráveis em periferias e prisões. A pressão externa, porém, reforça o discurso de que o Brasil precisa endurecer leis para se alinhar aos parceiros ocidentais no combate ao crime organizado. A disputa não é apenas semântica: o enquadramento escolhido define quais instrumentos legais estarão disponíveis para investigação, cooperação internacional e até congelamento de bens.
O que pode mudar na prática
Mesmo sem a etiqueta formal de terrorismo, a classificação de PCC e CV como ameaça regional já oferece argumento político para ampliar investigações conjuntas, troca de inteligência e sanções financeiras. Órgãos americanos podem, por exemplo, pressionar bancos e empresas a monitorar com mais rigor operações suspeitas ligadas a brasileiros, sob risco de punições. Em países vizinhos, governos alinhados a Washington podem endurecer o controle de fronteiras e cooperação policial, o que afeta rotas usadas pelo crime organizado e por comunidades que dependem de comércio transfronteiriço informal.
Para o governo Lula, o desafio é equilibrar a necessidade de cooperação no combate ao crime com a defesa de soberania e da própria leitura jurídica sobre terrorismo. A insistência americana em aproximar as facções brasileiras do rótulo de terrorismo testa os limites dessa conciliação. A forma como Brasília responde, nas próximas semanas, pode influenciar não só o tom do encontro entre Lula e Trump, caso ele se confirme, mas também o lugar do Brasil em futuras iniciativas multilaterais de segurança.
Próximos passos e incertezas
Diplomatas preveem que a discussão reapareça em reuniões técnicas e ministérios setoriais ainda em março. Equipes de Justiça, Relações Exteriores e Defesa devem revisar posições e propostas de cooperação antes de um eventual encontro presidencial. A expectativa é de que o governo busque uma resposta que reconheça a gravidade da atuação de PCC e CV, mas rejeite qualquer brecha para ações militares unilaterais na região.
Enquanto a nota do Departamento de Estado circula em Brasília, a disputa em torno das palavras continua a produzir efeitos concretos. O adjetivo escolhido para descrever duas facções que nasceram em presídios brasileiros pode definir, nos próximos meses, o alcance de operações policiais, o teor de sanções econômicas e o grau de interferência externa na segurança sul-americana. A pergunta que domina corredores diplomáticos e gabinetes em Brasília é se os Estados Unidos permanecerão no campo da retórica ou darão o próximo passo.
