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EUA caçam e abordam petroleiro Aquila II em disputa por petróleo venezuelano

Forças militares dos Estados Unidos perseguem e abordam, na noite de 9 de fevereiro de 2026, o petroleiro Aquila II em alto-mar, após o navio violar o bloqueio a embarcações ligadas à Venezuela. A operação, sem registro de confronto, expõe o alcance da ofensiva norte‑americana para controlar o fluxo de petróleo venezuelano rumo à China.

EUA ampliam caça a navios após captura de Maduro

O Aquila II deixa águas venezuelanas no início de janeiro, carregando cerca de 700 mil barris de petróleo bruto pesado, segundo documentos da estatal PDVSA. O destino declarado é a China, em mais uma rota que tenta contornar as sanções impostas por Washington ao regime de Caracas.

A embarcação integra uma flotilha de petroleiros que se arriscam nesse corredor, em meio ao aperto gradual das medidas econômicas dos EUA. A maioria desses navios recua para portos venezuelanos ou acaba apreendida por forças norte‑americanas antes de completar a viagem.

O cenário muda de patamar no mês anterior, quando uma operação militar em Caracas resulta na captura de Nicolás Maduro e na queda abrupta da cúpula chavista. O governo norte‑americano responde com uma quarentena mais rigorosa a embarcações ligadas à Venezuela, em especial às que abastecem a economia chinesa com petróleo subsidiado.

O Aquila II se torna, nesse contexto, um alvo exemplar. O Departamento de Guerra dos EUA afirma que o petroleiro desafia diretamente a “quarentena de embarcações sancionadas no Caribe”. A decisão é tratada como um teste à capacidade de Washington de projetar poder em mares distantes.

A caçada começa no Caribe e se estende por milhares de quilômetros até o Oceano Índico. “O Departamento de Guerra rastreou e caçou esta embarcação do Caribe até o Oceano Índico… Vocês ficarão sem combustível muito antes de nos despistarem”, escreve o secretário de Guerra, Pete Hegseth, em uma rede social.

Horas antes, ele já havia divulgado um vídeo da operação: “Durante a noite, as forças militares dos EUA realizaram uma interdição marítima e abordaram o Aquila II sem incidentes. Ele fugiu e nós o seguimos”. A mensagem vem acompanhada de um recado político: “Quando o Departamento de Guerra diz quarentena, é quarentena”.

O direito de visita e interdição marítima, conceito jurídico usado pelos EUA, permite a abordagem de navios sob suspeita em alto-mar em certas circunstâncias. Na prática, significa que o Aquila II é parado, inspecionado e colocado sob controle operacional das forças norte‑americanas, ainda que seu registro formal não esteja claro nos bancos de dados de navegação.

Disputa por petróleo e pressão sobre China e Caracas

A ofensiva contra o Aquila II ultrapassa um ato isolado de fiscalização de sanções. O alvo é o coração da relação energética entre uma Venezuela enfraquecida e uma China disposta a comprar petróleo com desconto em meio à crise global de combustíveis fósseis.

Cerca de 700 mil barris em um único navio não alteram sozinho o equilíbrio do mercado global, que movimenta mais de 100 milhões de barris por dia. O gesto militar, porém, envia um sinal a companhias de transporte, seguradoras e refinarias asiáticas: cruzar o bloqueio americano pode sair caro.

Os EUA exibem também disposição de atuar “em oceanos do outro lado do mundo”, como escreve Hegseth. A mensagem mira Pequim, que observa uma rota estratégica ser fechada a milhares de quilômetros do Caribe, mas também os aliados de Caracas e armadores que ainda veem lucro na triangulação do petróleo venezuelano.

Empresas de navegação que operam petroleiros do tipo Suezmax, com capacidade semelhante à do Aquila II, calculam o risco em dólares por dia. Cada apreensão, cada perseguição em mar aberto, eleva o custo de seguro, reduz opções de porto e pressiona contratos de longo prazo. Em poucos meses, a rota pode deixar de ser financeiramente viável.

O impacto se espalha por refinarias na Ásia que apostam em óleo pesado venezuelano para manter margens de lucro. Interrupções frequentes obrigam ajustes de fornecimento, renegociação de prazos e busca de alternativas em países como Rússia, Irã e produtores africanos. Ao mesmo tempo, exportadores rivais ganham espaço em um mercado que vê o risco político virar parte da formação de preço.

Na outra ponta, a economia venezuelana, já combalida, perde uma de suas últimas fontes relevantes de divisas. Cada navio bloqueado ou desviado representa centenas de milhões de dólares a menos em receitas potenciais ao longo de um ano. A pressão combina sanções financeiras, isolamento diplomático e, agora, interdições físicas em mar aberto.

Tensões crescentes e incertezas no tabuleiro geopolítico

A perseguição ao Aquila II aprofunda as tensões entre Washington, Caracas e aliados de Pequim. Governos da região acompanham com cautela o avanço de operações militares em águas internacionais, temendo que a linha entre fiscalização e escalada bélica se torne cada vez mais tênue.

Diplomatas veem espaço para respostas em várias frentes, de protestos formais em organismos multilaterais a retaliações discretas em acordos comerciais. Cada interdição de navio vira munição para narrativas opostas: para os EUA, a de defesa da ordem internacional e combate a regimes autoritários; para a China e aliados, a de uso unilateral da força para garantir acesso privilegiado a recursos.

Consultores de energia esperam dias mais voláteis no mercado. A lembrança de embargos passados, como o bloqueio ao petróleo iraniano na década anterior, serve de alerta. Quando Washington decide ir além das sanções financeiras e agir diretamente sobre a logística, custos sobem, prazos se alongam e investidores reprecificam riscos geopolíticos.

O Aquila II, agora sob controle dos EUA após a fuga frustrada, torna‑se símbolo desse novo estágio. O destino da carga, a eventual transferência para outros navios e o tratamento dado à tripulação podem indicar o tom das próximas operações.

Autoridades americanas evitam detalhar próximos alvos, mas o recado de Hegseth indica que a caçada continua. Cada petroleiro que deixar ou se aproximar da Venezuela passa a navegar sob um holofote militar e diplomático.

A pergunta que se impõe, para governos e mercados, é por quanto tempo essa ofensiva se sustenta sem transbordar para um confronto mais amplo com a China e sem empurrar o preço do petróleo a novos patamares de instabilidade.

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