EUA bombardeiam ilha petrolífera iraniana e elevam risco no Golfo
Os Estados Unidos lançam na noite desta sexta-feira (13) um bombardeio de grande escala contra a ilha iraniana de Kharg, no Golfo Pérsico. A ofensiva mira instalações militares e aumenta a tensão em torno do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Trump mira “joia da coroa” do petróleo iraniano
A operação atinge o principal centro petrolífero do Irã, mas poupa, por ora, a infraestrutura de produção. Kharg, a cerca de 30 quilômetros da costa iraniana, abriga o maior terminal de exportação de petróleo do país e é descrita em Washington como a “joia da coroa” energética de Teerã.
Donald Trump anuncia o ataque nas redes sociais e exibe o resultado como demonstração de força. “Decidi NÃO demolir a infraestrutura petrolífera da ilha”, escreve o republicano, em maiúsculas. Em inglês, ele afirma que as Forças Armadas dos EUA executam um “ataque de precisão em larga escala” e destroem depósitos de minas navais, bunkers de mísseis e mais de 90 alvos militares em Kharg.
O bombardeio ocorre como resposta direta ao bloqueio imposto pelo Irã no estreito de Ormuz, corredor estratégico para o comércio global de energia. Há duas semanas, Teerã restringe a passagem de petroleiros e navios cargueiros, em meio a uma guerra que se espalha pelo Oriente Médio desde 28 de fevereiro. A Casa Branca acusa o regime iraniano de tentar chantagear o mercado internacional de petróleo.
Na véspera da ofensiva americana, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, eleva o tom e ameaça abandonar “toda moderação” se Estados Unidos e Israel atacarem as ilhas do Golfo. Em vez de recuo, a advertência serve de antecâmara para a escalada. Trump reage com um dos bombardeios mais intensos da campanha e afirma ter “aniquilado completamente todos os alvos militares” em Kharg.
Mercado de petróleo sob pressão e guerra em expansão
A decisão de não destruir o terminal petrolífero iraniano funciona como trégua parcial, mais condicionada do que estável. “Se o Irã, ou qualquer outro, fizer algo para interferir na passagem livre e segura de navios pelo estreito de Ormuz, reconsiderarei minha decisão imediatamente”, adverte Trump. A frase ecoa em bolsas de energia e câmbio, que já operam sob forte volatilidade desde o início da guerra.
O bloqueio iraniano e o risco de novos ataques sobre Kharg pressionam o preço do barril e alimentam temores de choque de oferta, especialmente na Ásia e na Europa. Países dependentes do petróleo do Golfo fazem contas diárias sobre estoques estratégicos e rotas alternativas, enquanto armadores avaliam o custo de operar em uma zona que se torna, de fato, teatro de guerra naval. A promessa americana de iniciar “muito em breve” a escolta de petroleiros em Ormuz sinaliza um corredor protegido, mas também transforma a região em alvo ainda mais sensível.
Na manhã deste sábado (14), o conflito transborda fronteiras. Jornalistas ouvem explosões em Doha, capital do Catar, após ordens de evacuação de algumas áreas. O Irã mantém represálias aéreas contra países vizinhos do Golfo, em resposta não apenas ao bombardeio em Kharg, mas à ofensiva coordenada de Estados Unidos e Israel.
Israel informa ter realizado 7.600 ataques em território iraniano em duas semanas, além de 1.100 bombardeios no Líbano. As autoridades libanesas contabilizam 773 mortos, entre eles 103 crianças, e cerca de 2.000 feridos. Um ataque a um centro de saúde no sul do país mata ao menos 12 profissionais de saúde, segundo o Ministério da Saúde local. A violência atinge também a missão da ONU, após bombardeios contra um quartel-general de capacetes azuis no sul do Líbano.
No front político e interno, o Irã tenta projetar resiliência. Em Teerã, o chefe de segurança Ali Larijani aparece em público ao lado do presidente Masoud Pezeshkian, sob chuva e alerta de novos bombardeios. A manifestação reúne uma multidão nas principais avenidas da capital, mesmo após ataques que já deixam mais de 1.200 mortos, de acordo com números oficiais, e mais de 1.800, segundo a ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA). “Quanto mais ele intensificar sua pressão, mais se fortalecerá a determinação da nação”, provoca Larijani, em referência a Trump.
Refreforço militar, caça a líderes e horizonte de guerra longa
A Casa Branca se prepara para um conflito prolongado. Reportagens da imprensa americana indicam o envio de cerca de 2.500 fuzileiros navais e ao menos três navios de guerra adicionais para a região. Entre eles, o navio de assalto anfíbio USS Tripoli, deslocado do Japão em direção ao Oriente Médio, com tropas e aeronaves embarcadas.
Washington lança ainda uma ofensiva política e de inteligência contra a cúpula iraniana. O governo oferece US$ 10 milhões em recompensa por informações que levem à localização de dez altos dirigentes da República Islâmica, entre eles o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, e o próprio Larijani. O estado de saúde de Khamenei é incerto após ter sido supostamente ferido em um bombardeio. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, afirma que ele “provavelmente” ficou desfigurado.
O Hezbollah, aliado do Irã, promete um “longo confronto” com Israel. Em comunicado, a Guarda Revolucionária iraniana declara ter lançado, junto com o grupo libanês, mísseis e drones contra território israelense em represália aos ataques de americanos e israelenses. O Oriente Médio volta a operar em múltiplas frentes de guerra, com riscos cruzados para civis, infraestrutura energética e navegação comercial.
Trump já antecipa uma nova fase da campanha militar. Ele afirma que os Estados Unidos pretendem atacar o Irã “mais forte” na próxima semana, embora reconheça que a mudança de poder esperada em Teerã “talvez não aconteça imediatamente”. Nas bolsas, investidores tentam precificar um conflito sem prazo definido, que mexe com as principais rotas de energia do planeta e com alianças estratégicas de Washington, Moscou, Pequim e das capitais europeias.
Kharg se torna símbolo dessa encruzilhada. Se novos ataques atingirem o terminal petrolífero, a interrupção das exportações iranianas pode forçar um redesenho do mapa de fornecimento global, elevar ainda mais o custo de energia e testar a disposição de outras potências em permanecer à margem do confronto. A equação que sai da ilha no Golfo não se limita a Teerã e Washington; ela chega às bombas de combustível e às contas de luz em boa parte do mundo.
