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EUA atualizam estratégia de defesa e resgatam Doutrina Monroe

O Pentágono publicou neste sábado (24/1) uma versão atualizada da Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos. O documento reposiciona as prioridades militares do país, reforça a disputa com China e Rússia e recoloca a Doutrina Monroe no centro da política para o Hemisfério Ocidental.

China no topo, Europa em segundo plano

A nova diretriz deixa explícito que a principal preocupação estratégica de Washington passa a ser a dissuasão da China e a proteção direta do território americano. A Europa segue como área relevante, mas perde o protagonismo que marcou a política de defesa desde o fim da Guerra Fria.

O texto, destacado pela agência russa Tass, classifica a Rússia como ameaça “persistente” ao flanco leste da Otan. Moscou permanece descrita como risco contínuo para aliados europeus, mas a solução do conflito na Ucrânia passa a ser apresentada como responsabilidade sobretudo dos governos do continente. A estratégia afirma que o peso das decisões e dos custos “recai em grande medida sobre os ombros europeus”.

O recado rompe com a tolerância histórica em relação a gastos mais baixos em defesa entre parceiros da Otan. O Pentágono indica que esse período “ficou no passado” e cobra que países na Europa, no Oriente Médio e na Península Coreana assumam a “responsabilidade primária” por sua própria segurança. A mensagem mira aliados que ainda resistem a elevar o orçamento militar a patamares equivalentes a 2% do PIB, meta formal da aliança atlântica desde 2014.

Esse deslocamento de foco acompanha uma leitura mais ampla, descrita no documento como “competição estratégica prolongada”. A Casa Branca busca preservar capacidade de projeção global, mas redistribui encargos e tenta reduzir o envolvimento direto em conflitos que não toquem de forma imediata o território americano, o chamado homeland.

Doutrina Monroe volta ao vocabulário oficial

O trecho mais sensível para a América Latina aparece na seção dedicada ao Hemisfério Ocidental. A estratégia afirma que os Estados Unidos “não cederão mais acesso ou influência sobre terreno-chave” na região, “do Ártico à América do Sul”, com o objetivo declarado de “garantir que a Doutrina Monroe seja mantida em nosso tempo”.

A referência é incomum. Formulada em 1823, a Doutrina Monroe nasce como aviso a potências europeias para que não intervenham no continente americano. Ao longo do século 20, serve de base para golpes apoiados por Washington, intervenções militares diretas e bloqueios econômicos na América Latina. Ao retomá-la de forma explícita em 2026, o Pentágono sinaliza que pretende limitar de maneira mais assertiva a presença de atores externos, sobretudo China e Rússia, em portos, bases, cabos de comunicação e rotas energéticas sensíveis.

Na prática, o texto abre espaço para maior pressão diplomática e militar em acordos de infraestrutura, tecnologia e defesa firmados por governos latino-americanos com Pequim e Moscou. A mensagem é dirigida a países que, nos últimos dez anos, ampliam laços com a China em áreas como mineração, 5G, energia e financiamento de obras. Em 2023, por exemplo, o comércio entre China e América Latina ultrapassa US$ 480 bilhões, segundo dados oficiais de Pequim, o que alimenta receios em Washington sobre perda de influência histórica.

A nova orientação se soma a um esforço de modernização do complexo industrial de defesa dos EUA, descrito no documento como empreitada que exige “mobilização do esforço de toda a nação americana”. O Pentágono fala em ampliar linhas de produção, garantir cadeias de suprimentos para munições de precisão e acelerar programas de armas hipersônicas e sistemas antimísseis. O texto é categórico ao tratar do arsenal atômico: “Os Estados Unidos nunca — jamais — ficarão vulneráveis à chantagem nuclear”.

Núcleo nuclear, drones e ameaças regionais

A modernização das forças nucleares aparece como eixo central da estratégia. O plano prevê a atualização dos três pilares do arsenal — mísseis balísticos intercontinentais em silos terrestres, submarinos lançadores e bombardeiros estratégicos — ao longo das próximas duas décadas. O objetivo é manter o poder de dissuasão em um cenário em que Rússia, China e Coreia do Norte ampliam seus estoques e capacidades.

O documento destaca a Coreia do Norte como “perigo claro e presente de ataque nuclear ao território americano” e afirma que o Irã não será autorizado a desenvolver armas nucleares. A formulação reflete a avaliação de que, além da competição com potências globais, o governo americano enfrenta riscos imediatos vindos de regimes regionais capazes de atingir bases e aliados, e, em perspectiva, cidades nos próprios Estados Unidos.

Na frente tecnológica, o Pentágono anuncia prioridade para sistemas de defesa contra veículos aéreos não tripulados e outras ameaças aéreas de baixo custo. Em conflitos recentes, de Nagorno-Karabakh à Ucrânia, drones comerciais adaptados e munições de circuito fechado se mostram capazes de paralisar blindados e defesas antiaéreas muito mais caras. O texto indica que o Departamento de Guerra — expressão usada na síntese divulgada pela Tass — vai concentrar recursos em sensores, armas de energia dirigida e redes de comando capazes de neutralizar enxames de drones.

A região do Indo-Pacífico aparece como palco principal dessa competição. A estratégia aponta a dissuasão da China como prioridade de longo prazo, mas ressalta que a política americana “não inclui tentativas de mudar o governo” em Pequim nem “outras formas de conflito” direto. A combinação de endurecimento militar e recusa formal a uma mudança de regime procura reduzir o risco de escalada descontrolada, ao mesmo tempo em que deixa claro que Washington está disposto a pagar o preço de uma corrida tecnológica mais intensa.

Aliados sob pressão e incertezas para a América Latina

A nova estratégia redistribui papéis na arquitetura de segurança global. Aliados europeus, parceiros no Oriente Médio e países da Península Coreana são instados a aumentar investimentos militares, ampliar estoques de munição e desenvolver capacidades autônomas. O entendimento em Washington é que, sem esse reforço, os Estados Unidos não conseguirão concentrar recursos no Indo-Pacífico e na defesa direta do homeland.

Esse redesenho tem efeitos imediatos para a política externa americana. Em negociações na Otan, em fóruns regionais e em acordos bilaterais, diplomatas dos EUA tendem a condicionar garantias de proteção a metas concretas de gasto em defesa e a reformas estruturais nas forças armadas parceiras. Em paralelo, países da América Latina passam a operar sob o sinal amarelo emitido pela menção direta à Doutrina Monroe. Qualquer aproximação com China e Rússia em bases, portos ou projetos de telecomunicações de grande escala tende a ser examinada em chave de disputa geopolítica, não apenas comercial.

A publicação da nova Estratégia Nacional de Defesa, em 24 de janeiro de 2026, não encerra esse movimento. O texto funciona como mapa para os próximos anos, balizando orçamentos trilionários, contratos industriais e negociações com aliados. A cada crise, de Kiev a Taipei, a leitura de Washington sobre riscos e linhas vermelhas será testada. Para a América Latina, a pergunta que permanece em aberto é como governos da região vão responder a um cenário em que os Estados Unidos reafirmam a primazia no hemisfério, enquanto a China se consolida como principal financiadora e compradora de commodities do continente.

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