Mundo

EUA anunciam guinada nas relações com Venezuela sob governo Delcy

O secretário Chris Wright anuncia, nesta quarta-feira (11), uma “reviravolta absolutamente dramática” nas relações entre Estados Unidos e Venezuela, em Caracas. A sinalização marca o movimento diplomático mais ousado de Washington no país em quase três décadas, apesar da recusa formal em reconhecer o governo de Delcy Rodríguez.

Virada em meio a vácuo político

A declaração vem menos de 40 dias após a captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, episódio que redesenha o tabuleiro de poder em Caracas. No vácuo deixado pelo ex-presidente, Delcy Rodríguez assume o comando político, sem que Washington lhe conceda o selo de reconhecimento formal, mas aceitando negociar diretamente com sua equipe.

Wright fala após uma reunião de duas horas com autoridades venezuelanas na capital. Ele descreve o momento como uma mudança de rota não apenas bilateral, mas continental. “Acredito que veremos uma reviravolta absolutamente dramática na trajetória desta nação, no estado das relações entre a Venezuela e os Estados Unidos, e nas condições de negócios e ambiente para o comércio, não apenas entre nossos dois países, mas no hemisfério ocidental”, afirma.

O nome de Maduro surge apenas uma vez na conversa oficial entre as delegações, segundo o secretário. A ausência expõe a tentativa de ambos os lados de enterrar rapidamente o capítulo mais recente de confronto direto e sanções, sem ainda definir com clareza como será o arranjo político interno da Venezuela daqui para frente.

Delcy Rodríguez mantém esse tema em suspenso. Horas antes da coletiva, ela se recusa a responder a jornalistas se o país terá eleições em breve, num sinal de que a recomposição institucional corre em ritmo próprio, enquanto a agenda econômica avança em velocidade maior.

Petróleo no centro da reaproximação

No coração dessa reviravolta está o petróleo. O governo venezuelano aprova uma reforma da lei de hidrocarbonetos que abre espaço inédito para empresas estrangeiras. Em um setor onde o Estado por décadas concentrou controle quase absoluto, a mudança representa uma brecha decisiva para a entrada de capital privado, especialmente dos Estados Unidos.

Wright elogia o pacote de mudanças e o define como um marco político. “É um símbolo do desejo de impulsionar a reforma e mover o país em uma direção positiva”, diz. Em Washington, a Casa Branca prevê que, com o novo quadro regulatório, companhias norte-americanas possam anunciar, ainda em 2026, projetos bilionários em exploração, refino e logística, em um cronograma que tende a se estender por ao menos dez anos.

A movimentação ocorre num cenário de disputa global por fontes de energia e matérias-primas. A China já compra parte do petróleo venezuelano intermediado pelo governo dos EUA, segundo Wright. Ele classifica as operações como aceitáveis. “Negócios legítimos chineses sob condições legítimas de negócios – isso é aceitável”, afirma, num recado que mistura tolerância e delimitação de fronteiras estratégicas.

O secretário admite que a nova fase não se limita ao petróleo. As duas delegações discutem mineração de minerais críticos, como lítio, nióbio e terras-raras, e a reconstrução da rede elétrica venezuelana, que acumula apagões recorrentes desde meados da década passada. Técnicos falam em investimentos de vários bilhões de dólares em dez anos para estabilizar o sistema e modernizar linhas de transmissão.

A visita de Wright, a mais alta de um representante norte-americano ao país em quase 30 anos, funciona como chancela política dessa agenda. O gesto sinaliza ao mercado que, mesmo sem reconhecimento formal de Delcy Rodríguez, Washington está disposto a operar uma espécie de reconhecimento de fato, medido por contratos, licenças e fluxos de caixa.

Poder, negócios e riscos na virada venezuelana

A guinada reabre a Venezuela ao capital estrangeiro em um momento em que o país tenta sair de uma década de recessão profunda, hiperinflação e êxodo de mais de 7 milhões de pessoas. Empresas de energia, construção, mineração e serviços de engenharia despontam como as principais beneficiadas imediatas. Companhias norte-americanas e chinesas, além de grupos europeus, disputam protagonismo nos primeiros contratos.

O governo venezuelano aposta que a entrada maciça de dólares pode elevar a produção de petróleo em centenas de milhares de barris por dia nos próximos anos, com impacto direto nas receitas públicas. Washington, por sua vez, busca diversificar o abastecimento global em meio a conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio, reduzir a pressão sobre o preço internacional do barril e, ao mesmo tempo, recuperar influência política em uma região onde a presença chinesa cresce de forma consistente desde os anos 2000.

O movimento, porém, não é isento de riscos. Ao negociar com um governo que não reconhece formalmente, os Estados Unidos abraçam uma estratégia pragmática que pode enfrentar resistência no Congresso e entre aliados na região. Setores da oposição venezuelana temem que a injeção de recursos fortaleça Delcy Rodríguez sem garantias claras de abertura política, realização de eleições competitivas ou respeito a direitos civis.

Na prática, o recado de Wright é que a normalização econômica pode vir antes da normalização institucional. A aposta é que a melhora nas condições de vida e a reconstrução de serviços, como energia e infraestrutura urbana, criem ambiente mais estável para discutir reformas políticas. Não há, porém, datas, metas ou percentuais públicos que vinculem investimentos a avanços democráticos.

Mercados financeiros reagem com expectativa cautelosa. Investidores monitoram a forma como contratos serão assinados, quais garantias jurídicas serão oferecidas e como ativos venezuelanos bloqueados no exterior poderão ser usados para destravar a cadeia de pagamentos. Cada passo da negociação bilateral tende a repercutir no preço do petróleo e nas projeções para o crescimento da América Latina em 2026 e 2027.

Próximos movimentos e incertezas

Os próximos meses devem ser decisivos para saber se a promessa de “reviravolta dramática” se materializa em acordos concretos. Equipes técnicas começam a desenhar, ainda neste primeiro semestre de 2026, memorandos de entendimento em três frentes: exploração de petróleo, mineração de minerais críticos e recuperação da rede elétrica. A expectativa em Washington é anunciar os primeiros pacotes de investimento antes do fim do ano.

Em Caracas, a pressão interna por um calendário eleitoral mais claro tende a crescer na mesma proporção em que avançarem os entendimentos econômicos. Delcy Rodríguez evita compromissos públicos e preserva margem de manobra, enquanto a oposição tenta vincular qualquer abertura de capital estrangeiro a reformas políticas mínimas. No meio desse tabuleiro, os Estados Unidos testam um novo modelo de influência regional, menos baseado em sanções e mais ancorado em petróleo, infraestrutura e minerais estratégicos. A pergunta que permanece sem resposta é se essa arquitetura econômica será suficiente para reconduzir a Venezuela a um caminho estável de democracia e crescimento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *