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EUA ampliam armada no Golfo e elevam pressão militar sobre o Irã

Os Estados Unidos ampliam a presença militar perto do Irã e enviam caças F-22 para Israel nesta quarta-feira (25). O movimento ocorre em meio à escalada de ameaças sobre o programa nuclear iraniano e à retomada de negociações diplomáticas em Genebra.

Escalada no Golfo em ritmo de guerra fria regional

A nova leva de aeronaves chega à região em 2026 e consolida uma armada já rara em tempos de paz. O Pentágono mantém dois porta-aviões, 13 contratorpedeiros e destróieres e três pequenas embarcações de combate distribuídos pelo Golfo Pérsico e pelo mar da Arábia, em posição de pressão direta sobre Teerã.

O reforço aéreo inclui uma dúzia de caças F-22 Raptor, entre os aviões de combate mais avançados dos EUA. O modelo ataca alvos em terra e no ar com baixa assinatura de radar, o que dificulta a detecção por defesas inimigas. Essas mesmas aeronaves integram, no ano passado, a Operação Midnight Hammer, que bombardeia instalações militares iranianas e agrava a desconfiança de Teerã em relação a Washington.

A dimensão atual da frota americana, segundo o Centro para Estudos Internacionais Estratégicos, se aproxima da estrutura usada na Operação Raposa do Deserto, em 1998, quando o então presidente Bill Clinton ordena ataques ao Iraque. A comparação alimenta a percepção de que a Casa Branca volta a flertar com uma estratégia de ataque preventivo no Oriente Médio.

O governo de Donald Trump evita detalhar a lógica militar da concentração de meios. Assessores repetem que o objetivo é “dissuasão máxima”, sem explicar qual é o plano após um eventual bombardeio. Generais no Pentágono alertam o presidente sobre o risco de um conflito prolongado com o Irã, que dispõe de forças convencionais relevantes, milícias alinhadas em países vizinhos e capacidade de interromper o fluxo de petróleo no estreito de Ormuz.

Pressão militar, sanções e negociação em Genebra

Ao mesmo tempo em que reforça o cerco militar, Washington aperta o torniquete econômico. O Departamento do Tesouro anuncia novas sanções contra empresas, indivíduos e embarcações que, segundo o governo, participam da produção e da venda ilegal de mísseis balísticos iranianos. As restrições cortam acesso a bancos internacionais, congelam ativos em dólares e encarecem seguros e fretes ligados ao comércio com Teerã.

Trump usa o discurso do Estado da União para justificar a ofensiva. Ele acusa o Irã de desenvolver mísseis capazes de atingir o território americano e define o país como “patrocinador número um do terrorismo”. “Minha preferência é para resolver esse problema por meio da diplomacia. Mas uma coisa é certa: eu nunca vou permitir o patrocinador número um do terrorismo, o que os iranianos são de longe, ter uma arma nuclear”, afirma. O governo iraniano reage e chama as acusações de “mentiras”.

Teerã insiste que o programa nuclear tem fins civis e recusa discutir o arsenal de mísseis balísticos, tratado como seguro mínimo em uma vizinhança hostil. O presidente Massoud Pezeshkian tenta adotar um tom mais conciliador. Ele diz ver uma “boa perspectiva” nas tratativas com os EUA e afirma que o objetivo é superar o estado de “nem guerra, nem paz” que domina a relação desde a saída americana do acordo nuclear, em 2018.

Delegações dos dois países voltam a se encontrar em Genebra nesta quinta-feira. Trump envia o genro e conselheiro Jared Kushner e o enviado para assuntos de conflito, Steve Witkoff, para conduzir as conversas com ministros do governo do aiatolá Ali Khamenei. Washington exige o fim do programa nuclear sensível e a renúncia ao arsenal de mísseis de médio alcance. A liderança iraniana considera essas concessões incompatíveis com a própria sobrevivência do regime.

A oposição democrata em Washington vê a estratégia como temerária. A ex-presidente da Câmara, Nancy Pelosi, acusa Trump de desmontar o acordo nuclear negociado por Barack Obama sem apresentar uma alternativa sustentável. “Todos nós concordamos que o Irã não pode ter uma arma nuclear. O presidente Obama, de forma magistral, com grande virtuosidade, teve uma solução diplomática em como nós poderíamos ter um acordo nuclear com o Irã. Ele reverteu isso, rejeitou, deixou de lado, e agora está usando a ameaça militar e o resto. É tão ridículo”, critica.

Risco de conflito prolongado e impacto regional

A concentração de poder militar americano perto do Irã altera o cálculo de risco em toda a região. Países do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, veem com alívio a mensagem de proteção, mas temem retaliações iranianas a bases e instalações de petróleo. Israel acompanha de perto os movimentos, já que os F-22 decolam de seu território e podem operar em apoio direto à defesa do país.

Um confronto aberto colocaria em xeque o fluxo diário de milhões de barris de petróleo pelo estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do comércio global de óleo. Mesmo sem tiros, a mera percepção de risco já pressiona os contratos futuros e alimenta volatilidade nos mercados financeiros. O endurecimento das sanções também aprofunda a crise econômica iraniana, com inflação alta, queda na moeda local e aumento da insatisfação social.

Dentro dos EUA, a escalada produz uma nova linha de fratura política. Republicanos ligados à ala mais dura defendem que a pressão máxima é o único idioma que Teerã entende. Democratas e parte da comunidade de segurança argumentam que um ataque poderia repetir o desgaste do Iraque e arrastar o país para mais uma guerra sem saída clara. O impasse se reflete em audiências no Congresso e em debates públicos sobre os limites do uso da força.

Analistas ouvidos por centros de pesquisa em Washington lembram que a experiência no Oriente Médio mostra um padrão: operações cirúrgicas raramente permanecem limitadas. O histórico de intervenções desde a década de 1990 indica que ações aéreas tendem a gerar respostas assimétricas, como ataques com drones, sabotagens e ofensivas de milícias aliadas do Irã no Líbano, no Iraque, na Síria e no Iêmen.

Próximos movimentos e incertezas

Os próximos dias giram em torno de Genebra e do tabuleiro militar no Golfo. Uma eventual declaração conjunta, ainda que vaga, poderia reduzir a temperatura e abrir espaço para um novo desenho de acordo nuclear, com prazos e inspeções mais rígidos. A ausência de avanços, por outro lado, fortalece a ala que, em Washington, prega uma resposta “rápida e decisiva” a qualquer novo teste de míssil iraniano.

Trump mantém o discurso de que prefere a negociação, mas segue ampliando a pressão econômica e militar. Pezeshkian insiste que não aceita negociar “sob ameaça”, mas precisa lidar com uma economia acuada e uma sociedade cansada de isolamento. Entre navios de guerra, caças furtivos e mesas de negociação na Suíça, a disputa entre Washington e Teerã entra em uma fase em que um erro de cálculo, de qualquer lado, pode transformar a atual “nem guerra, nem paz” em um conflito de alcance imprevisível.

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