EUA ameaçam atacar Irã e Teerã promete resposta “feroz”
Os Estados Unidos ameaçam lançar ataques militares contra instalações do programa nuclear iraniano em fevereiro de 2026. Teerã reage em público e promete uma resposta “feroz” a qualquer ofensiva americana. A escalada reacende o risco de um conflito aberto no Oriente Médio.
Tensão cresce em ritmo de contagem regressiva
A troca de ameaças ganha intensidade após novas imagens de satélite indicarem, segundo Washington, avanços significativos de pelo menos 20% na capacidade de enriquecimento de urânio do Irã nos últimos meses. Integrantes do governo Donald Trump afirmam, sob reserva, que “todas as opções estão na mesa” e mencionam um prazo de semanas para “decisões difíceis”.
Em Teerã, autoridades tratam as declarações americanas como “chantagem militar” e dizem que o país não aceita voltar atrás em seu programa nuclear. O chanceler iraniano afirma que o país “não busca a guerra, mas não hesita em se defender com toda a força”. Em discurso transmitido pela TV estatal, um assessor militar do líder supremo promete que qualquer ataque dos EUA encontrará uma resposta “rápida, feroz e devastadora”.
O clima lembra outros momentos de confronto direto entre os dois países, como a crise de janeiro de 2020, quando um ataque americano matou o general Qassem Soleimani em Bagdá e desencadeou uma série de retaliações. Agora, a diferença é o grau de exposição pública das ameaças. Em menos de dez dias, três declarações oficiais em Washington e ao menos quatro pronunciamentos em Teerã alimentam a percepção de que os dois lados testam limites em praça aberta.
A terceira rodada de negociações, prevista para a segunda quinzena de fevereiro em Genebra, passa a ser tratada nos bastidores como um último freio antes de uma escalada militar. Diplomatas europeus envolvidos nas conversas falam em “janela estreita” para um acordo que congele atividades sensíveis do programa nuclear iraniano em troca de alívio parcial de sanções. Ninguém arrisca, porém, um percentual de chance de sucesso.
Risco de choque armado e impacto econômico global
Uma ofensiva americana contra o Irã teria efeito imediato sobre o coração energético do planeta. Cerca de 20% do petróleo transportado por mar passa diariamente pelo estreito de Ormuz, corredor estratégico entre o Golfo Pérsico e o mar de Omã. Oficiais iranianos repetem que, em caso de ataque, o país poderá “tornar insegura” a navegação na região, sinal claro de que o fluxo de navios petroleiros pode virar alvo.
Investidores já reagem ao cenário. Desde o início de fevereiro, o preço do barril de Brent oscila em alta, com picos superiores a 8% em um único dia após declarações mais duras de Washington. As bolsas asiáticas, altamente expostas ao petróleo do Golfo, registram quedas sucessivas, enquanto moedas de países emergentes sofrem com a busca por ativos considerados mais seguros.
Governos aliados dos EUA no Oriente Médio acompanham com preocupação a escalada. Israel reforça sua defesa aérea e mantém caças em prontidão nas principais bases. A Arábia Saudita revisa planos de contingência para ataques contra instalações petrolíferas, ainda traumatizada pelos ataques de drones de 2019. Fontes diplomáticas afirmam que, em reuniões fechadas, representantes desses países pressionam Washington a calibrar o tom para não empurrar Teerã para uma reação descontrolada.
No outro polo, aliados políticos e econômicos do Irã, como Rússia e China, criticam publicamente as ameaças americanas e pedem “moderação máxima”. Moscou classifica uma possível ação militar dos EUA como “erro histórico com consequências incalculáveis”. Pequim reforça a importância de manter estáveis as rotas energéticas, em especial para a Ásia, que hoje responde por mais de 60% da demanda global de crescimento em petróleo.
A pressão também se espalha pelos corredores de instituições multilaterais. Em menos de duas semanas, conselhos de segurança e agências de energia dedicam sessões extraordinárias ao caso iraniano, tentando medir o quão perto o planeta está de um novo choque militar de grandes proporções. Analistas lembram que os EUA mantêm cerca de 40 mil militares distribuídos em bases na região, enquanto o Irã investe há anos em mísseis de médio alcance e forças paramilitares capazes de agir por procuração em países vizinhos.
Negociações decisivas e um futuro em aberto
O calendário diplomático não para, apesar da retórica bélica. A próxima rodada de conversas prevê a apresentação de um rascunho de entendimento que limite o nível de enriquecimento de urânio iraniano e estabeleça inspeções adicionais em instalações sensíveis. Em troca, discute-se o afrouxamento de sanções específicas sobre o setor bancário e sobre exportações de petróleo, hoje reduzidas a uma fração do volume registrado antes de 2018.
Diplomatas europeus e enviados da ONU tentam costurar garantias mínimas para os dois lados venderem um acordo internamente. No caso americano, o desafio é mostrar ao Congresso e aos aliados regionais que qualquer concessão não abrirá caminho para uma bomba nuclear iraniana em poucos anos. No caso iraniano, o governo precisa provar à população que não cede sob pressão militar e que obtém ganhos econômicos concretos, como liberação de bilhões de dólares hoje bloqueados no exterior.
Analistas veem três cenários principais para os próximos 90 dias. Um acordo parcial que congele a escalada, uma ofensiva limitada com ataques pontuais a instalações iranianas ou uma extensão indefinida deste impasse de alta tensão. Nenhuma dessas opções, porém, elimina o risco de erro de cálculo em um ambiente saturado por tropas, navios de guerra, mísseis e discursos inflamados.
À medida que fevereiro avança, a distância entre a mesa de negociações em hotéis suíços e as bases militares espalhadas pelo Golfo parece encolher. O desfecho dessa disputa definirá não só o equilíbrio de poder no Oriente Médio, mas também o preço da energia, o humor dos mercados e a margem de manobra da diplomacia internacional pelos próximos anos. A pergunta que permanece, em Washington e em Teerã, é se ainda há tempo político para recuar antes que a ameaça se torne disparo real.
