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EUA admitem dificuldade para conter drones iranianos em guerra no Golfo

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, admite nesta quarta-feira (4), em reunião no Capitólio, que drones iranianos driblam a defesa aérea americana. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, confirma o diagnóstico e reconhece que o desafio é maior do que o previsto. A revelação ocorre em meio à escalada da guerra entre Washington e Teerã.

Drones mudam o equilíbrio no campo de batalha

Hegseth e Caine descrevem a mudança de cenário a portas fechadas, diante de parlamentares que cobram respostas para uma campanha militar iniciada no sábado (28). Segundo duas fontes presentes, ouvidas pela CNN, os dois admitem que os drones iranianos representam hoje um problema mais complexo do que mísseis balísticos tradicionais.

Os equipamentos voam baixo e devagar, o suficiente para escapar com mais facilidade dos radares e dos sistemas de defesa pensados para ameaças mais rápidas e previsíveis. Uma terceira fonte, familiarizada com a reunião, relata que autoridades tentam, ao mesmo tempo, minimizar o temor no Congresso e lembrar que países do Golfo estocam interceptores, os mísseis usados para derrubar alvos aéreos.

A discussão acontece enquanto o governo Trump sustenta que já destruiu mais de 1.700 alvos no Irã. Na terça-feira (3), o presidente afirma que a “maioria” das instalações militares iranianas está “destruída” e que os últimos ataques miram a liderança do regime. O anúncio vem dias depois da morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano, em uma operação conjunta dos Estados Unidos e de Israel.

A eliminação de Khamenei, divulgada pela mídia estatal iraniana no domingo, abre uma disputa inédita de sucessão em Teerã. Trump diz que “muitos” dos potenciais sucessores também morrem na ofensiva, o que aprofunda a incerteza sobre quem comandará o país em meio à guerra. Em paralelo, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, promete a “ofensiva mais pesada” da história e defende a vingança contra Washington e Tel Aviv como “direito e dever legítimo”.

Guerra se prolonga e expõe vulnerabilidades dos EUA

O reconhecimento das dificuldades com os drones expõe uma fragilidade concreta da maior máquina militar do planeta. Cada Shahed produzido em série por Teerã custa uma fração do valor de um míssil interceptador americano, mas força o disparo de munições sofisticadas e caras. O senador democrata Mark Kelly, astronauta aposentado e integrante da Comissão de Serviços Armados do Senado, resume o dilema em números: “Não temos um suprimento ilimitado”.

Kelly lembra que o Irã mantém grande estoque de drones e mísseis balísticos de curto e médio alcance. “Em algum momento, isso vira um problema matemático: como reabastecer as munições de defesa aérea? De onde elas virão?”, questiona. O cálculo preocupa também aliados no Golfo, que veem portos, oleodutos e refinarias como alvos naturais de uma escalada. A guerra começa a ser traduzida em risco direto ao fluxo de petróleo e gás do Oriente Médio, pilar do abastecimento global de energia.

No Capitólio, os próprios prazos da operação entram em disputa. O senador republicano Tommy Tuberville, do Alabama, sai da reunião dizendo que ouviu de Hegseth, Caine e do secretário de Estado, Marco Rubio, uma estimativa de três a cinco semanas para o fim do envolvimento direto dos EUA. Já o também republicano Josh Hawley, do Missouri, relata que não há qualquer data clara na apresentação das autoridades. “Para mim, pareceu muito vago”, afirma.

O líder da minoria na Câmara, o democrata Hakeem Jeffries, reforça a leitura de conflito aberto. Segundo ele, os informantes indicam que a guerra pode se arrastar por semanas, sem explicação convincente sobre a decisão de atacar. “Não há explicação para o que realmente motivou a decisão de travar essa guerra por opção, na ausência de qualquer evidência de ameaça iminente aos Estados Unidos ou a interesses americanos na região”, diz.

O debate avança para a legalidade da campanha. O Congresso não vota uma autorização formal para o uso da força contra o Irã, como fez nas guerras do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2002. Críticos, entre democratas e parte dos republicanos, veem repetição de erros que custaram milhares de vidas e trilhões de dólares. Aliados de Trump respondem que a situação se assemelha à intervenção de Barack Obama na Líbia, em 2011, conduzida sem aval prévio dos parlamentares.

O presidente da Câmara, o republicano Mike Johnson, evita chamar o conflito de guerra. Ele o descreve como “uma operação perigosa e importante”. Segundo Johnson, a Casa Branca age diante de “ameaça iminente”, mas ainda não entra no terreno de uma declaração formal de guerra. Propostas que exigem voto do Congresso para a continuidade da campanha devem ser derrotadas ainda nesta semana.

Pressão interna cresce enquanto guerra se espalha

A ofensiva americana e israelense contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, desencadeia uma reação em cadeia na região. Teerã passa a mirar países que abrigam bases dos Estados Unidos, como Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Iraque. Cada novo ataque amplia o risco de que a disputa bilateral se transforme em conflito regional, envolvendo diretamente monarquias do Golfo, milícias apoiadas pelo Irã e, em última instância, outras potências.

Dentro dos Estados Unidos, a dinâmica lembra confrontos anteriores, mas com tecnologia diferente. Em vez de batalhões de tanques atravessando fronteiras, o que preocupa agora são enxames de drones baratos forçando sistemas de defesa bilionários a disparos sucessivos. A assimetria pesa sobre o planejamento do Pentágono e alimenta a sensação, entre parlamentares, de que o país entra em mais uma guerra sem mapa de saída.

Jeffries evita responder se apoiará novos recursos para a Defesa, diante do ritmo de consumo de munições. Ele concentra o discurso em outra frente: “Neste momento, o que temos pela frente é a resolução de reafirmar a autoridade do Congresso, devido à falha da administração em buscar apoio para esta guerra sem fim”. A crítica ecoa entre democratas que temem ver o arsenal americano se esgotar em uma campanha de duração imprevisível.

Trump mantém o tom de desafio. Na véspera, promete ataques “ininterruptos durante toda a semana ou pelo tempo que for necessário” para alcançar o que chama de “paz em todo o Oriente Médio e, de fato, no mundo”. Ao reagir às ameaças de vingança iranianas, ele sobe o volume: “É melhor que eles não façam isso, porque, se fizerem, nós os atingiremos com uma força nunca antes vista”.

A admissão de que os drones iranianos superam, hoje, parte da defesa aérea americana adiciona uma camada de urgência a esse discurso. O Pentágono precisa mostrar que consegue adaptar radares, sistemas de comando e munições a uma guerra de baixo custo para o inimigo, mas de alto desgaste para Washington. Enquanto isso não acontece, o conflito segue consumindo recursos, elevando o preço do barril de petróleo e empurrando o Oriente Médio para mais uma crise prolongada — sem resposta clara sobre quando, e como, essa operação termina.

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