EUA acusam China de testes nucleares e pedem novo tratado global
Os Estados Unidos acusam a China de conduzir testes nucleares secretos e cobram um novo tratado global de armas atômicas nesta sexta-feira (6), em Genebra. As declarações ocorrem um dia após o vencimento do Novo START, acordo que limitava os arsenais estratégicos de Washington e Moscou.
Acusações em meio ao fim de um pilar do desarmamento
O ataque diplomático parte do subsecretário de Estado americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, durante a Conferência sobre Desarmamento da ONU, na Suíça. Ele afirma que Washington tem evidências de que Pequim conduz testes com explosivos nucleares e prepara experimentos com rendimentos na casa das “centenas de toneladas”, em violação aos compromissos de proibição de testes.
DiNanno acusa o Exército chinês de tentar esconder as detonações, usando técnicas que reduzem a capacidade de monitoramento sísmico internacional. “O Exército chinês buscou ocultar os testes disfarçando as explosões nucleares porque reconheceu que esses testes violam os compromissos de proibição de testes”, declara. Segundo ele, a China recorre ao chamado “desacoplamento”, que reduz a propagação de ondas sísmicas no solo e dificulta a detecção de explosões subterrâneas.
O subsecretário afirma ainda que um teste de “produção de rendimento” ocorre em 22 de junho de 2020, em instalação não identificada. A denúncia surge em um momento considerado “grave” por especialistas da ONU, que veem um vácuo regulatório inédito desde a década de 1970, após a expiração do Novo START, assinado em 2010 e em vigor até ontem.
O tratado, que limita a aproximadamente 1.550 o número de ogivas nucleares estratégicas operacionais de cada lado, deixa de valer sem um substituto imediato. Pela primeira vez em mais de meio século, Washington e Moscou ficam sem qualquer restrição juridicamente vinculante para a quantidade de mísseis e ogivas estratégicas posicionadas.
China reage e nega violações enquanto corrida armamentista avança
A resposta chinesa é dura, mas calculada. O embaixador da China para o desarmamento, Shen Jian, evita comentar ponto a ponto as acusações sobre testes nucleares, porém rejeita a narrativa americana. “A China observa que os EUA continuam, em suas declarações, a exagerar a chamada ameaça nuclear chinesa. A China se opõe firmemente a essas narrativas falsas”, afirma. Para ele, “os EUA são os culpados pelo agravamento da corrida armamentista”.
Shen insiste que Pequim age com “prudência e responsabilidade” em assuntos nucleares e repete a posição oficial de não aderir, por agora, a qualquer mesa de negociação com Washington e Moscou. O governo chinês lembra que detém cerca de 600 ogivas nucleares, uma fração das aproximadamente 4.000 ogivas de cada um dos dois gigantes tradicionais, Estados Unidos e Rússia.
O discurso americano mira justamente essa dinâmica. DiNanno sustenta que a realidade de 2026 torna obsoleto um acordo bilateral. “Hoje, os Estados Unidos enfrentam ameaças de múltiplas potências nucleares. Em resumo, um tratado bilateral com apenas uma potência nuclear é simplesmente inadequado em 2026 e no futuro”, diz. Ele repete projeções de Washington segundo as quais o arsenal chinês pode ultrapassar 1.000 ogivas até 2030, em ritmo de expansão acelerado.
Diplomatas presentes à conferência classificam as novas acusações como “preocupantes” e veem um movimento coordenado de pressão sobre Pequim. No mesmo fórum, Reino Unido e França sinalizam que apoiam a tese de um novo arcabouço de controle de armas que inclua China, Rússia e Estados Unidos. O governo britânico fala em “nova era” de regulação nuclear. Paris, por sua vez, alerta para um “enfraquecimento sem precedentes” das normas que cercam o uso de armas atômicas.
Vácuo regulatório amplia risco de erro de cálculo nuclear
O fim do Novo START abre um vazio perigoso em plena escalada de tensões globais, da guerra na Ucrânia às crises no Oriente Médio. Desde 1972, quando Washington e Moscou assinam o primeiro grande acordo para limitar seus arsenais estratégicos, a arquitetura de controle de armas serve como freio a mal-entendidos e corridas armamentistas de alto custo. Sem amarras jurídicas, cada lado tende a trabalhar com as piores suposições sobre o outro e a planejar de acordo com cenários extremos.
Analistas de segurança apontam que a ausência de limites claros pode incentivar não apenas a modernização, mas também o aumento dos arsenais de Estados Unidos e Rússia. A situação se torna mais complexa com a ascensão da China ao clube das grandes potências nucleares. A combinação de três arsenais em expansão aumenta o risco de erros de cálculo e dificulta qualquer tentativa de construir confiança mútua.
A Rússia, por ora, busca se mostrar aberta ao diálogo. O ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, declara que Moscou prefere negociar um novo entendimento com os Estados Unidos, mas “está preparada para qualquer cenário”. O Kremlin divulga que, em reuniões recentes em Abu Dhabi, as duas potências chegam a um entendimento de que “agiriam com responsabilidade” até que um novo quadro seja negociado. Ao mesmo tempo, Moscou pressiona para que Reino Unido e França, aliados nucleares da Otan, participem de futuras conversas, algo que Londres e Paris rejeitam.
O cenário técnico também muda. A Rússia investe em sistemas chamados de “exóticos”, como o míssil de cruzeiro Burevestnik e o torpedo nuclear submarino Poseidon, projetados para contornar defesas antimísseis tradicionais. Do lado americano, o governo Donald Trump promete erguer um sistema de defesa antimíssil baseado no espaço, apelidado de “Domo Dourado”, o que pode estimular Moscou e Pequim a desenvolver armas ainda mais sofisticadas para atravessar esse escudo.
Pressão sobre aliados e incerteza sobre novo tratado
Os movimentos em Genebra têm impacto que vai além das três principais potências. A percepção de que o guarda-chuva de tratados se desfaz alimenta, em bastidores, debates em países aliados dos EUA sobre a necessidade de arsenais próprios. Especialistas citam Japão, Coreia do Sul e Polônia como exemplos de nações que podem sentir maior pressão doméstica para discutir abertamente a opção nuclear caso a erosão do controle de armas continue.
Qualquer novo tratado abrangente, porém, não nasce da noite para o dia. Negociações desse tipo, lembram diplomatas, levam anos mesmo em períodos de relativa calma internacional. Hoje, com conflitos ativos em várias frentes e deterioração da confiança entre grandes potências, o prazo tende a ser ainda mais longo. Enquanto isso, testes, modernizações e deslocamentos de ogivas seguem sem transparência mínima obrigatória.
Na Conferência sobre Desarmamento, o Reino Unido e a França reforçam o discurso em favor de um acordo entre os Estados com maiores arsenais e cobram que a China entre à mesa. Pequim, porém, insiste em manter distância, amparada na diferença de escala entre seus números e os de Washington e Moscou. “Nesta nova era, esperamos que os EUA abandonem a mentalidade da Guerra Fria e adotem a segurança comum e cooperativa”, afirma Shen Jian.
A denúncia americana de testes nucleares secretos se soma a esse impasse e eleva a tensão em um momento de transição delicada. A pressão por um novo tratado multilateral tende a crescer, mas a convergência política ainda parece distante. Até que Estados Unidos, China e Rússia se alinhem minimamente sobre regras comuns, o mundo entra em uma fase mais incerta, na qual a pergunta central permanece sem resposta: quem vai impor limites à próxima corrida nuclear?
