Estudo revela como as “cachoeiras de sangue” freiam geleira na Antártica
Um raro alinhamento de instrumentos em 2018 desvenda, pela primeira vez, o que acontece com a Geleira Taylor durante as erupções das chamadas Cachoeiras de Sangue, na Antártica. O estudo, publicado em 2026 na revista Antarctic Science, mostra que os jatos de água salgada avermelhada afundam o gelo, desaceleram a geleira e resfriam o lago vizinho, afetando todo o ecossistema local.
O que há por trás da “catarata vermelha” do gelo
As Cachoeiras de Sangue, nos Vales Secos de McMurdo, sempre chamam atenção nas fotos da Antártica. A cena parece saída de um filme de ficção científica: um véu vermelho escorre pela superfície branca da Geleira Taylor e desemboca no Lago Bonney. A cor, se sabe há anos, vem de uma salmoura rica em ferro que fica presa sob o gelo. Quando a enorme pressão subglacial força essa água para fora, o ferro encontra o oxigênio do ar, oxida na hora e assume o tom de ferrugem, que lembra sangue.
O que a ciência não sabia, até agora, era como essas erupções afetam o próprio corpo da geleira e o frágil lago logo abaixo. A nova pesquisa responde a essa pergunta com dados inéditos e conecta, em uma única história física, o movimento do gelo, a descarga de água salgada e a vida microscópica que sobrevive em um dos ambientes mais extremos do planeta.
Entre setembro e outubro de 2018, uma sequência de coincidências científicas transforma a paisagem num laboratório natural. Uma câmera fixa em lapso de tempo observa a base das Cachoeiras de Sangue. Um sistema de GPS, instalado diretamente na superfície da Geleira Taylor, mede seu deslocamento e sua altura com precisão de milímetros. Uma corrente de sensores térmicos mergulha nas águas estratificadas do Lago Bonney, registrando variações de temperatura em diferentes profundidades.
A combinação simultânea dessas três ferramentas, algo inédito no local, permite seguir um único e longo episódio de vazamento do começo ao fim. “Tivemos a sorte de estar na hora certa, com os instrumentos certos ligados”, relatam os autores no estudo. A sequência de dados revela uma engrenagem natural complexa, que só funciona quando gelo, água e sal se alinham em silêncio sob a superfície.
Geleira afunda, freia e resfria o lago vizinho
As imagens em lapso de tempo mostram que, a partir de 10 de setembro de 2018, a salmoura começa a jorrar de forma intermitente pelas Cachoeiras de Sangue. O fluxo dura cerca de um mês, tingindo a frente da Geleira Taylor de vermelho. No mesmo período, o GPS instalado no topo registra uma mudança inesperada: a superfície da geleira afunda 15 milímetros e sua velocidade de deslizamento diminui quase 10%, de 5,0 para 4,6 metros por ano.
O comportamento tem explicação subglacial. A água que escapa não é apenas um filete colorido visível na paisagem. Ela faz parte de um reservatório enterrado, comprimido pelo peso de centenas de metros de gelo. Abaixo da geleira, essa água funciona como um colchão hidráulico, que amortece o peso do gelo, e como lubrificante, que ajuda a massa de gelo a deslizar sobre as rochas. “Quando a pressão dessa salmoura sobe demais, a geleira procura uma saída e abre canais rumo à superfície”, descrevem os pesquisadores.
O episódio de descarga funciona como a válvula de uma panela de pressão. À medida que a salmoura escapa, o reservatório oculto se esvazia e a pressão sob o gelo cai. Sem o colchão pressurizado, a superfície cede ligeiramente, provocando o rebaixamento de 15 milímetros. Ao mesmo tempo, a perda de lubrificação reduz a facilidade de deslizamento, o que explica a queda na velocidade da Geleira Taylor. Em vez de uma massa inerte, o estudo desenha uma geleira que responde em tempo quase real às mudanças invisíveis de água no seu interior.
Enquanto isso, os sensores submersos no Lago Bonney registram outro efeito, desta vez fora do gelo. Em determinadas profundidades, a temperatura da água cai de forma brusca, chegando a quedas de até -1,5 °C. Não se trata de uma frente fria vinda da atmosfera, mas de uma dança de densidades provocada pela própria salmoura. Muito mais salgada e fria, essa água escura e pesada afunda assim que entra no lago. Ela desce até encontrar uma camada com a mesma densidade, cerca de 17,89 metros de profundidade, e se espalha lateralmente, criando bolsões gelados que bagunçam a estratificação normal do lago.
Essas injeções de salmoura são episódicas, mas intensas. Ao mexer nas camadas de temperatura do Lago Bonney, elas alteram o transporte de nutrientes e de gases dissolvidos, como oxigênio. Em uma região árida e congelada como os Vales Secos de McMurdo, onde praticamente não chove e o vento domina, qualquer mudança na circulação interna dos lagos impacta diretamente a vida microscópica. Bactérias e micro-organismos que dependem de gradientes estáveis de temperatura e sal para sobreviver enfrentam um ambiente mais instável a cada pulsação das Cachoeiras de Sangue.
Janela para o futuro das geleiras e do clima polar
Os resultados do estudo vão além da curiosidade visual das cascatas vermelhas. Ao detalhar como a pressurização e o esvaziamento de reservatórios subglaciais controlam o movimento da Geleira Taylor, a pesquisa ilumina um ponto crítico da ciência do clima: o que acontece na base das grandes massas de gelo. Processos assim influenciam desde a estabilidade de geleiras até a forma como elas respondem ao aquecimento global.
Em outras partes da Antártica, a água sob o gelo também atua como lubrificante e pode acelerar ou frear o escoamento de geleiras rumo ao mar. A diferença é que, na maioria desses locais, os canais subglaciais permanecem invisíveis. A Geleira Taylor e as Cachoeiras de Sangue oferecem uma vitrine rara, onde a descarga de salmoura deixa marcas claras na superfície e nos lagos vizinhos. “Entender esses pulsos ajuda a refinar modelos que projetam a evolução do gelo antártico e do nível do mar”, afirmam os cientistas.
O impacto ecológico também entra no radar. O Lago Bonney e outros lagos dos Vales Secos funcionam como laboratórios naturais para o estudo de formas de vida extremófilas, que sobrevivem com pouca luz, muito sal e frio intenso. Essas comunidades servem de referência para pesquisas em astrobiologia e para analogias com possíveis ambientes em Marte e em luas geladas, como Europa, de Júpiter. Qualquer alteração na circulação interna desses lagos, provocada por descargas de salmoura, pode redesenhar cadeias alimentares microscópicas inteiras.
A sofisticação técnica do monitoramento, com câmeras de lapso de tempo, GPS de alta precisão e sensores térmicos submersos, abre uma nova etapa de observação em regiões polares. A possibilidade de acompanhar, em tempo quase real, eventos discretos como o vazamento de salmoura permite testar hipóteses sobre estabilidade de geleiras, fluxo de nutrientes e resposta dos ecossistemas a pequenas variações de energia. Esse tipo de dado alimenta modelos climáticos globais e embasa relatórios internacionais sobre mudanças ambientais na Antártica.
Os autores defendem a expansão desse tipo de monitoramento para outras geleiras e lagos subglaciais do continente. A expectativa é combinar séries mais longas de dados com novas tecnologias, como sensores autônomos e sistemas de satélite de alta resolução. Em um cenário de aquecimento acelerado, a frequência e a intensidade de descargas como as das Cachoeiras de Sangue podem mudar, alterando a dinâmica de geleiras e ecossistemas inteiros. A pergunta que fica, diante da engenhosidade natural revelada na Geleira Taylor, é por quanto tempo essa delicada engrenagem de gelo, água e sal continuará funcionando da mesma forma em um planeta em rápida transformação.
