Estudo com bonobo Kanzi revela capacidade de imaginar objetos
O bonobo Kanzi, um dos primatas mais estudados do mundo, demonstra lidar com objetos que não estão diante dele em um novo experimento. A descoberta, conduzida recentemente pela cientista brasileira Amália Bastos na Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, indica que a imaginação complexa pode não ser exclusividade humana.
Cientista brasileira testa os limites da mente de um bonobo
À primeira vista, a sala de testes em St. Andrews parece simples: uma tela, símbolos coloridos e um bonobo de quase 90 quilos sentado diante de pesquisadores. O que acontece ali, porém, reorganiza uma parte importante do que a ciência sabe sobre a mente animal. Ao responder a comandos que envolvem objetos ausentes, Kanzi mostra que consegue representar mentalmente coisas que não vê, não toca e não cheira naquele momento.
O estudo, concluído em 2026 e apresentado em data próxima à publicação desta reportagem, é liderado por Amália Bastos, brasileira especializada em cognição animal. Ela integra um time internacional que acompanha Kanzi há anos e decide, desta vez, testar uma fronteira específica: a capacidade de manipular mentalmente objetos imaginários. Não se trata apenas de reconhecer figuras, mas de raciocinar sobre elementos que só existem na cabeça do animal.
Nos experimentos, Kanzi recebe combinações de símbolos em um teclado especial, semelhante a um painel de pictogramas. Cada símbolo representa um objeto ou uma ação, como “banana”, “pedra” ou “colocar em cima”. Em várias sessões, os pesquisadores retiram fisicamente esses objetos da sala e pedem que ele execute instruções que só fazem sentido se ele imaginar a cena. Quando escolhe o símbolo correto ou aponta para a sequência pedida, Kanzi responde a algo que não está ali, como se projetasse mentalmente um pequeno filme.
Amália descreve essa diferença como um salto qualitativo em relação a testes clássicos com primatas. Em vez de apenas associar imagem e recompensa, Kanzi precisa lidar com combinações abstratas, envolvendo dois ou três elementos ausentes ao mesmo tempo. Em algumas tarefas, ele é orientado a agir como se segurasse um objeto inexistente para então tomar outra decisão. A precisão das respostas, medida ao longo de dezenas de tentativas, fica muito acima do que seria esperado ao acaso, segundo a equipe.
Ao longo da carreira, Kanzi já se torna conhecido por entender centenas de símbolos e seguir instruções em inglês. A nova série de testes adiciona uma camada a essa história. Ele não só responde ao que vê, mas parece operar com representações internas, uma forma de imaginação. “Quando um animal consegue combinar mentalmente objetos que não estão presentes, entramos em um território que, até pouco tempo atrás, muitos reservavam apenas aos humanos”, afirma Amália em nota distribuída à imprensa universitária.
O que a imaginação de um bonobo muda para a ciência
O resultado pressiona uma ideia ainda muito presente no senso comum: a de que apenas pessoas seriam capazes de imaginar de maneira complexa. Em campos como psicologia, filosofia e neurociência, a imaginação costuma aparecer ligada à linguagem sofisticada, planejamento de longo prazo e criação artística. Ao mostrar que um bonobo consegue manipular mentalmente objetos ausentes em contextos controlados, o estudo sugere que formas de pensamento abstrato podem ter raízes evolutivas mais antigas do que se supunha.
Pesquisas anteriores já indicam que alguns primatas lembram de eventos passados e antecipam situações futuras em testes de laboratório. A novidade, agora, é demonstrar com maior rigor experimental que esse tipo de operação mental inclui objetos que não estão fisicamente disponíveis. A equipe registra taxas consistentes de acerto ao longo de múltiplos dias de ensaio, em diferentes combinações de símbolos, o que reduz a chance de simples memorização mecânica.
O impacto prático vai além da curiosidade sobre um animal excepcional. A forma como a ciência descreve a mente de outros primatas influencia debates éticos sobre cativeiro, bem-estar e direitos animais. Se um bonobo imagina, planeja e representa o mundo interno com tamanha sofisticação, argumentos para mantê-lo em ambientes pobres em estímulo se tornam ainda mais frágeis. Centros de pesquisa e zoológicos que abrigam grandes primatas podem ser pressionados a rever protocolos de enriquecimento ambiental e interação social.
O estudo também reforça a presença brasileira em pesquisas de ponta em cognição animal. Em um campo dominado por universidades dos Estados Unidos e da Europa, a participação de uma cientista formada no Brasil em um trabalho de alta visibilidade funciona como vitrine para grupos que, no país, enfrentam cortes de verba e instabilidade orçamentária. Ao mesmo tempo, abre portas para colaborações em novas linhas de investigação, incluindo comunicação, aprendizado e tomada de decisão em primatas.
Na prática, laboratórios interessados em entender a origem da linguagem e do pensamento simbólico podem adaptar protocolos semelhantes ao aplicado com Kanzi. A possibilidade de testar não só o que o animal vê, mas o que ele consegue imaginar, amplia o conjunto de perguntas que a ciência pode fazer. O desenho experimental, com controle rígido da presença ou ausência de objetos e registro detalhado das escolhas do bonobo, se torna uma referência metodológica para estudos futuros.
Próximos passos e as novas fronteiras da imaginação animal
Os desdobramentos devem aparecer em pelo menos duas frentes. De um lado, equipes em outros centros já discutem a aplicação de testes semelhantes em chimpanzés, gorilas e até espécies mais distantes, como corvos e papagaios, conhecidos por habilidades cognitivas incomuns. A comparação entre grupos pode ajudar a mapear até onde vai a imaginação animal e quais capacidades dependem de cérebros maiores ou de vida social mais complexa.
De outro lado, a própria rotina de Kanzi tende a se tornar ainda mais monitorada. Cada novo experimento com o bonobo precisa equilibrar o interesse científico com limites claros de bem-estar. A forma como a comunidade internacional responde a esse desafio indicará se a descoberta leva também a mudanças concretas em padrões éticos. Ao revelar que um primata é capaz de manipular mentalmente objetos inexistentes, o estudo conduzido com participação decisiva de uma cientista brasileira não só amplia o entendimento da inteligência animal, como obriga a sociedade a rever, com mais cuidado, quem consideramos capaz de imaginar.
