Estaduais entram na reta final com surpresas, dramas e clássicos decisivos
Os principais campeonatos estaduais do país chegam ao início de fevereiro de 2026 em clima de decisão. Surpresas na liderança, gigantes sob pressão e brigas contra o rebaixamento redesenham o mapa do futebol brasileiro neste começo de temporada.
Favoritos sob teste e líderes improváveis
O roteiro do Campeonato Paulista sintetiza o momento. A uma rodada do fim da primeira fase, quem manda na tabela não é nenhum dos grandes, mas o Novorizontino, com 16 pontos em sete jogos. Palmeiras, Bragantino e Portuguesa já carimbam presença no mata-mata, enquanto Corinthians, Guarani, Botafogo-SP e São Paulo ocupam hoje as vagas restantes nas quartas.
O São Paulo vira a chave depois de flertar com o rebaixamento. Vence no fim de semana, afasta o fantasma da queda e entra no G8. O contraste está no Santos. Décimo colocado, o time que volta a ter Gabigol em 2026 precisa ganhar do Velo Clube e torcer por tropeços de ao menos dois rivais diretos, entre Corinthians, Guarani, Botafogo-SP, São Paulo e Capivariano. Até poucos dias atrás, o risco real era voltar para casa sem nem respirar o mata-mata.
A parte de baixo do Paulista também acelera. A Ponte Preta já cai com antecedência. O Velo Clube entra na última rodada dentro do Z2, cercado por Noroeste e Primavera, que jogam a sobrevivência em 90 minutos. O estadual mais rico do país lembra, neste momento, que orçamento não garante paz.
No Rio, o cenário é quase o oposto. O Fluminense fecha a primeira fase com 15 pontos, melhor campanha geral, e levanta a Taça Guanabara. Flamengo, Vasco, Botafogo, Volta Redonda, Bangu, Madureira e Boavista completam o grupo dos oito que avançam às quartas. A rodada final expõe o fio da navalha: Flamengo e Vasco chegam ameaçados de ir para o quadrangular do rebaixamento, mas o 7 a 1 rubro-negro sobre o Sampaio Corrêa-RJ muda o clima e empurra os dois para o lado de cima da chave.
O sorteio não poupa ninguém. Botafogo e Flamengo fazem clássico em jogo único, com mando alvinegro, valendo vaga na semifinal. Fluminense encara o Bangu, Vasco enfrenta o Volta Redonda, e Madureira e Boavista completam a lista. Na outra ponta, Portuguesa-RJ, Maricá, Nova Iguaçu e o próprio Sampaio Corrêa-RJ entram em um quadrangular de seis rodadas em que o pior cai. Cada ponto agora vale uma divisão inteira.
Dramas por vaga, medo de queda e impacto na temporada
Minas Gerais amplia a sensação de instabilidade. Cruzeiro, América-MG, URT e North ocupam hoje as vagas nas semifinais, num regulamento que só leva adiante os líderes de cada chave e o melhor segundo colocado. O Atlético-MG olha a tabela e vê uma equação ingrata: vice-líder do grupo, atrás da URT, soma 11 pontos e perde na comparação entre segundos colocados para o North, que tem o mesmo número de pontos, mas três vitórias contra duas.
O time de Jorge Sampaoli chega à rodada final obrigado a ganhar do Itabirito, fora de casa, e a torcer por tropeços de North e Tombense. Uma classificação que parecia rotina vira cálculo milimétrico, com peso direto na confiança antes do Brasileirão e da Libertadores. “Não tem mais margem para erro”, admite um dirigente alvinegro nos bastidores, resumindo o clima na Cidade do Galo.
Do outro lado, o Cruzeiro respira. A vitória sobre o América-MG, somada à derrota do North, devolve a liderança do grupo à Raposa e entrega um cenário raro de controle: basta vencer na rodada final para assegurar vaga na semifinal sem depender de ninguém. Athletic Club e Betim, com seis pontos, ocupam hoje as posições de rebaixamento, enquanto Democrata-GV, Itabirito e Uberlândia ainda olham para baixo com desconfiança.
No Rio Grande do Sul, o calendário avança um passo. As quartas de final já empurram Internacional, Grêmio e Ypiranga para a semifinal, depois das vitórias sobre São Luiz, Novo Hamburgo e Caxias. Juventude e São José definem o último classificado, e a tabela só será cruzada após a definição de campanhas: o melhor encara o quarto, o segundo pega o terceiro. A briga contra o rebaixamento corre em paralelo, com Inter de Santa Maria, Monsoon, Avenida e Guarany de Bagé presos ao quadrangular que derruba dois ao fim de seis jogos.
Na Bahia, o torneio ainda parece sob controle de um só clube. O Bahia soma 19 pontos em sete rodadas, oito a mais que o Jequié, segundo colocado. Vitória aparece em terceiro, com 10 pontos, e o Porto-BA fecha o G4 que segue às semifinais. Os confrontos só ficam claros depois da nona rodada, mas o desenho é simples: líder contra quarto, segundo contra terceiro. Atlético-BA, com apenas dois pontos, e Bahia de Feira, com seis, ocupam o Z2 e convivem com a ameaça de um rebaixamento que muda orçamentos e projetos.
No Paraná, o mapa da disputa já se estreita. Athletico enfrenta o Londrina, e Coritiba encara o Operário-PR nas semifinais em ida e volta. Em ambos os lados, um clube da Série A encara um rival da Série B, cenário que reforça a cobrança pelo resultado. O Galo Maringá paga o preço do “torneio da morte”: perde duas vezes para o Maringá e tem o rebaixamento confirmado. FC Cascavel e Andraus lutam pela outra vaga na elite, com o Cascavel em vantagem após 1 a 0 fora de casa.
Pernambuco vive clima semelhante, mas com um trio tradicional no centro da cena. Sport e Náutico já entram nas semifinais por terem liderado a primeira fase. Santa Cruz e Retrô chegam depois de eliminar Decisão e Maguary. Os duelos de ida e volta, Sport x Retrô e Náutico x Santa, valem mais do que uma vaga na final: definem quem entra forte na Copa do Nordeste e nas Séries C e D do Brasileiro. O Jaguar já conhece o dissabor da queda, após terminar a primeira fase com apenas três pontos em sete rodadas.
Em Santa Catarina, a semifinal mistura novidades e velhos conhecidos. Chapecoense enfrenta o Brusque, Camboriú pega o Barra, todos em mata-mata de ida e volta. Avaí e Criciúma, símbolos do futebol catarinense, já saem de cena nas quartas, eliminados por Camboriú e Chapecoense. Figueirense e Joinville encaram um quadrangular amargo com Marcílio Dias e Carlos Renaux. O líder Figueira soma quatro pontos, mas três dos quatro clubes caem ao fim das seis rodadas, o que transforma cada empate em quase um risco calculado.
No Ceará, o desenho é de clássico agendado e tensão no rodapé. Fortaleza enfrenta o Ferroviário, enquanto o Ceará encara o Floresta nas semifinais. As torcidas já projetam um novo Clássico-Rei na decisão, mas Maranguape, Quixadá, Tirol e Maracanã jogam outra disputa, em quadrangular que rebaixa dois ao fim da terceira rodada. No momento, Tirol e Maracanã aparecem como candidatos à queda.
Calendário, dinheiro e futuro em jogo
O Campeonato Goiano adiciona mais uma camada ao quadro nacional. As quartas de final começam neste meio de semana, com Goiás x CRAC, Vila Nova x Anápolis, Atlético-GO x Abecat e Jataiense x Anapolina, todos em confrontos de ida e volta. As oito vagas são ocupadas pelos melhores da primeira fase, e o cruzamento respeita a campanha. O Inhumas já conhece o destino após somar só dois pontos. Aparecidense e Centro Oeste decidem o outro rebaixado em um playoff que vale a diferença entre calendário cheio e meses de estádio vazio.
O peso desses jogos vai além do orgulho estadual. A presença no mata-mata garante mais bilheteria, acordos pontuais de patrocínio e minutos preciosos de exposição em TV e streaming. A HBO Max transmite todos os jogos do Paulistão 2026, com assinatura a partir de R$ 22,90 pelo UOL Play, e transforma a reta final em vitrine para clubes médios e pequenos. Avançar uma fase pode significar equilibrar o caixa de um semestre inteiro.
Quem corre risco de queda encara outro tipo de realidade. Rebaixado no estadual, o clube passa a negociar em patamares menores, perde apelo para atrair jogadores e pressiona ainda mais as divisões de base. Em muitos casos, a permanência na elite estadual garante vaga em competições nacionais ou regionais, que oferecem cotas de TV relevantes para orçamentos enxutos. A queda pode significar menos jogos oficiais e meses sem receita consistente de bilheteria.
O desempenho nos estaduais também redefine o ambiente esportivo. Um título ou uma campanha sólida dá lastro para o trabalho de treinadores, segura dirigentes e reduz o ruído antes de Copa do Brasil, regionais e Brasileirão. Uma eliminação precoce, como ameaça hoje Santos no Paulista ou Atlético-MG no Mineiro, tende a antecipar cobranças, acelerar mudanças de comando e abrir espaço para protestos de torcedores. “O estadual ainda pauta o humor da arquibancada”, admite um executivo de mercado ouvido pela reportagem.
Estaduais fortes, com clássicos decisivos logo em fevereiro, também interferem no planejamento físico. Clubes de Série A já reduzem o número de reservas em campo, antecipam estreias de reforços e tratam as últimas rodadas como laboratório sob pressão real. A maratona começa antes do calendário nacional e exige elencos mais longos em 2026, ano em que a Confederação Brasileira de Futebol aperta prazos para encaixar datas de seleções e competições continentais.
As próximas semanas definem mais do que taças tradicionais. A reta final dos estaduais decide quem entra em 2026 com estádio cheio, cofres menos apertados e elenco confiante, e quem inicia a temporada apagando incêndios. A tabela oferece um recado claro a dirigentes e torcedores: em campeonatos de tiro curto, o erro de fevereiro pode custar caro em novembro.
