Esposa de Moraes nega prints de Vorcaro e amplia disputa sobre mensagens
Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, nega ter recebido prints de mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro. A declaração é divulgada dias após nova apreensão de celulares do executivo e reacende a disputa sobre o conteúdo das comunicações sob investigação.
Nota pública em meio a nova leva de celulares
A manifestação parte da assessoria de Viviane e é enviada à imprensa depois que a Polícia Federal apreende ao menos três novos celulares ligados a Vorcaro em nova fase das investigações. À CNN Brasil, a equipe da advogada afirma que ela “não recebeu as referidas mensagens”, em referência às supostas capturas de tela de conversas que envolveriam o ministro do Supremo Tribunal Federal e sua esposa.
A negativa surge em um ambiente já pressionado por questionamentos sobre a autenticidade e o destino de mensagens que, segundo reportagem de 2024, são extraídas do celular do dono do banco Master durante perícia federal. A discussão transborda o caso individual de Vorcaro e alcança a credibilidade da cadeia de provas digitais que sustentam inquéritos sensíveis no STF e na PF.
Moraes rebate reportagem e cita organização de arquivos
Na última sexta-feira, 6, o próprio Alexandre de Moraes já havia reagido de forma pública. Em nota divulgada pelo STF, o ministro contesta reportagem que relata supostas trocas de mensagens de visualização única com Vorcaro no dia da prisão do banqueiro. Segundo o texto, a análise da documentação recebida pela CPMI do INSS mostra que os prints extraídos do celular do executivo “estão vinculados a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes”.
Moraes afirma ainda que “a mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro)”. Para o ministro, esse arranjo evidencia que as imagens estão associadas a outros números de telefone, e “jamais ao ministro Alexandre de Moraes”. A menção à CPMI, que funciona em Brasília e recebe em bloco os arquivos das perícias, busca ancorar a versão oficial em um procedimento formal de compartilhamento de dados.
O detalhe que reacende o debate aparece na própria organização desses arquivos. Entre as pastas listadas está o contato de Viviane Barci, registrado como “Vivi Moraes”. No mesmo diretório, os peritos localizam um print do bloco de notas de Vorcaro, com texto datado do dia da prisão: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear”. O conteúdo não indica, por si só, para quem a mensagem é destinada, mas a proximidade entre o contato e o arquivo amplia a zona de conflito político e jurídico.
Perícia digital, dúvidas técnicas e impacto institucional
Especialistas ouvidos pela CNN explicam que a forma como os arquivos aparecem organizados após a extração de dados de um celular não permite identificar automaticamente o destinatário de uma mensagem. Os softwares usados nesse tipo de perícia reorganizam fotos, prints e textos por critérios técnicos, como data, tipo de arquivo e origem interna do sistema, para preservar a integridade das evidências. O procedimento, conhecido como cadeia de custódia, busca garantir que nenhum dado seja alterado entre a apreensão e a análise.
Na prática, isso significa que uma pasta que agrupa contatos, prints e anotações não prova, de maneira isolada, que um print pertence a determinada conversa ou destinatário. A ressalva atende a duas frentes. De um lado, fortalece a argumentação de Moraes e de Viviane de que não há, até aqui, prova direta de recebimento das mensagens atribuídas a Vorcaro. De outro, alimenta a cobrança por transparência total sobre a origem, o caminho e o contexto de cada arquivo anexado aos inquéritos, especialmente aqueles que envolvem autoridades do STF.
O caso também expõe como mensagens de visualização única, recurso que apaga o conteúdo após a leitura, desafiam a perícia tradicional. Sem acesso direto ao histórico da conversa, investigadores dependem de capturas de tela e anotações do próprio usuário, como o bloco de notas que registra o pedido “Conseguiu ter notícia ou bloquear”. Cada novo print, a cada novo aparelho apreendido, precisa passar pelo mesmo escrutínio técnico e jurídico.
Investigações avançam e pressão por esclarecimentos cresce
A nova apreensão de três celulares de Vorcaro, autorizada neste ano, indica que a PF insiste em cruzar dados, reconstituir rotas de mensagens e identificar a extensão da rede do banqueiro, que inclui operadores como o apelidado “Sicário”, já confirmado morto pela defesa. A multiplicação de dispositivos amplia o volume bruto de informações, mas também torna mais complexa a tarefa de separar o que é conversa privada, o que é registro de operações financeiras e o que pode configurar tentativa de interferência em investigações ou decisões judiciais.
No plano político, a negativa formal de Viviane Barci ajuda a conter, ao menos por ora, o desgaste direto sobre o gabinete de Moraes, um dos ministros mais expostos do STF em casos envolvendo ataques à Corte e ao sistema eleitoral desde 2019. A cada nota, porém, cresce a exigência de que laudos, cronogramas de perícia e decisões sobre uso das mensagens sejam divulgados com mais clareza, dentro dos limites legais de sigilo.
Os próximos passos passam pela conclusão dos novos laudos nos celulares apreendidos, pelo eventual compartilhamento de resultados com o STF e por decisões sobre a validade de cada prova digital. As respostas da PF e do Supremo devem definir se o episódio se encerra como mal-entendido técnico ou se abre uma frente mais ampla de contestação sobre o uso de dados de celulares em investigações de alta sensibilidade. Enquanto os peritos trabalham, a disputa em torno de quem recebeu o quê e quando permanece como uma das principais perguntas em aberto.
