Especialistas alertam para riscos do controle excessivo de métricas
Psicólogos e neurocientistas brasileiros alertam, em fevereiro de 2026, para os riscos do monitoramento obsessivo de calorias, sono, exercícios e gastos. O excesso de controle, dizem, deixa de organizar a rotina e passa a alimentar ansiedade, culpa e insatisfação permanente.
Quando o relógio dita o humor do dia
A cena se repete em muitas casas no Brasil. O despertador toca, a pessoa estende o braço e, antes mesmo de perceber como se sente, confere no smartwatch a nota do sono. O número na tela define se a noite foi boa ou ruim, ainda que o corpo não tenha sequer tempo de registrar as próprias sensações.
Na sequência, o café da manhã vira planilha. Cada pedaço de pão entra em um aplicativo de calorias, cada gole de café pesa na meta diária. Na academia, o treino só parece “valer” se o relógio estiver carregado, registrando batimentos, tempo, gasto calórico e o lugar no ranking do aplicativo de competição. De volta para casa, o gasto na farmácia entra em outra planilha, mais uma linha em um arquivo que tenta domar o caos financeiro.
O automonitoramento nasce de um desejo compreensível. Em um país onde o noticiário econômico oscila e a rotina digital despeja estímulos o dia inteiro, o cérebro busca previsibilidade. “O automonitoramento nasce de uma intenção positiva: a busca do cérebro por previsibilidade, estabilidade e evolução em um mundo cheio de informações”, afirma o psicólogo e neurocientista Rafael Nunes.
A fronteira, no entanto, é frágil. Quando métricas começam a comandar decisões cotidianas, a ferramenta vira vigilância. “O problema é quando deixa de ser uma ferramenta de auxílio, de controle da situação, de acompanhamento e se torna uma vigilância constante sobre si mesmo”, diz a psicóloga Larissa Fonseca, especialista em ansiedade, crise de pânico, burnout e sono.
O risco cresce à medida que o aplicativo se torna uma espécie de juiz interno. Nessa lógica, o que vale não é a sensação de bem-estar após uma caminhada, mas o número de passos exibido no celular. Um jantar só parece “permitido” se o contador de calorias autoriza. A sensação subjetiva, construída ao longo da vida, cede espaço a gráficos coloridos e metas diárias.
Quando o dado manda mais do que o corpo
Especialistas veem nesse movimento um terreno fértil para a ansiedade. A cada dia, o usuário se vê diante de metas, alertas e notificações. Se a meta não é cumprida, a sensação de fracasso se impõe. Se é atingida, o alívio dura pouco e abre espaço para um novo desafio. “A pessoa ansiosa é a que tenta antecipar as situações e controlar qualquer possibilidade de erro. E ela sempre vai enxergar a falha”, explica Larissa.
O sono aparece como um dos primeiros alvos do descontrole. Monitorar a quantidade de horas ou o tempo em sono profundo pode ajudar em alguns casos, mas perde o sentido quando impede o relaxamento. Em vez de desacelerar à noite, a pessoa se deita fazendo contas. Se dorme menos que a meta, acorda com a convicção de que o dia seguinte está arruinado. O resultado é um sono mais leve, fragmentado e menos restaurador, exatamente o oposto do que se buscava.
Na clínica, Larissa relata ver um padrão se repetir. “Percebo na clínica uma sensação constante de insuficiência. Um exercício que se torna compulsivo, uma relação difícil com a comida e com o sono, e aí o comportamento obsessivo vai aumentando”, diz. O que começa como apoio vira, em pouco tempo, uma régua inalcançável.
O sistema de recompensa do cérebro também entra em cena. Segundo Nunes, o prazer ligado à notificação de objetivo concluído é intenso, mas curto. “O sistema de recompensa é efêmero”, afirma. Ele compara o fenômeno a comer um hambúrguer: o prazer acaba junto com a última mordida. Para sentir o mesmo efeito, a pessoa passa a buscar metas cada vez maiores, encurtando o intervalo entre uma cobrança e outra.
Em um cenário de forte adoção de tecnologia no país, com mais de 250 milhões de linhas móveis ativas, segundo dados da Anatel de 2025, aplicativos de saúde, finanças e produtividade ganham terreno. O discurso de “otimizar a vida” se espalha, e a fronteira entre cuidado e controle se confunde. Sem uma régua interna clara, o risco é o indivíduo terceirizar decisões fundamentais para interfaces que não conhecem sua história, seu cansaço ou seus limites.
A consequência prática se traduz em autonomia reduzida. Em vez de escolher a hora de encerrar o expediente pelo cansaço percebido, a pessoa espera o alerta de pausa do aplicativo. Em vez de decidir o que comer segundo a fome e o contexto, ela se guia apenas por números, ignorando sinais do corpo. O comportamento, apontam os especialistas, fragiliza a confiança nas próprias percepções e aumenta a dependência de validação externa.
Como retomar o controle sobre o próprio bem-estar
A reversão desse quadro passa por um ajuste fino na relação com a tecnologia. Nunes defende que o primeiro passo é recuperar a autonomia sobre decisões básicas. “É preciso ter clareza de quais são seus verdadeiros desejos e vontades”, afirma. O dado pode continuar existindo, mas deixa de ser a única bússola. A métrica entra como referência, não como sentença.
Psicólogos sugerem, por exemplo, um “jejum” programado das ferramentas de monitoramento. Em uma semana de 7 dias, o usuário pode escolher 2 noites para dormir sem relógio ou 2 treinos sem registrar nada. A proposta não é abandonar a tecnologia, mas testar como o corpo reage sem testemunhas digitais. A observação posterior ajuda a medir se a satisfação com a atividade depende do registro ou da experiência em si.
Buscar acompanhamento profissional aparece como outro caminho importante. O apoio de um psicólogo ou psiquiatra permite identificar se o uso das ferramentas já cruzou a linha do saudável. Em consultório, é possível mapear gatilhos, trabalhar a relação com metas e reconstruir, aos poucos, a confiança em sinais internos como fome, cansaço e prazer.
Pequenos rituais diários ajudam a deslocar o foco do número para a sensação. Antes de abrir o aplicativo de calorias, a pessoa pode se perguntar se o almoço trouxe saciedade e bem-estar. Ao acordar, pode tentar avaliar o próprio corpo antes de checar o relatório de sono. O gesto é simples, mas, repetido dia após dia, reforça a ideia de que a experiência vivida vem antes do gráfico.
Os especialistas não defendem o fim do automonitoramento. Defendem proporção. A tecnologia segue útil para organizar finanças, registrar treinos, acompanhar a evolução de hábitos. O alerta é contra a entrega cega de decisões íntimas a algoritmos que, por definição, operam com médias, não com singularidades.
À medida que fevereiro de 2026 avança, a discussão sobre bem-estar digital ganha espaço em consultórios, universidades e nas próprias empresas de tecnologia. O próximo passo, apontam os entrevistados, é transformar essa consciência em prática cotidiana. Em um mundo que oferece métricas para quase tudo, a pergunta que permanece é se cada nova notificação melhora de fato a vida ou apenas mede, com cada vez mais detalhes, o nosso cansaço.
