Escritório da esposa de Moraes recebe R$ 40,1 mi do Banco Master em 2025
O escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, recebe R$ 40,1 milhões do Banco Master em 2025. O valor faz da banca o principal destino de recursos jurídicos do banco no ano, dentro de um contrato estimado em R$ 129 milhões ao longo de três anos.
Contrato bilionário no centro do debate público
O fluxo de pagamentos se concentra entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, período em que o Banco Master passa por uma fase crítica, que culmina na liquidação extrajudicial da instituição. Documentos apresentados pelo próprio banco à Receita Federal e acessados pelo jornal O Globo mostram que o escritório Barci de Moraes lidera, com folga, a lista de bancas contratadas.
O Master, ligado ao empresário Daniel Vorcaro, desembolsa R$ 265 milhões em serviços advocatícios em 2025, distribuídos entre 61 escritórios. Sozinho, o escritório de Viviane recebe R$ 40,1 milhões, mais que o dobro da média de R$ 3,7 milhões paga às demais bancas e R$ 13 milhões acima do segundo maior beneficiário. Os números acendem o alerta sobre transparência, critérios de contratação e possíveis conflitos de interesse, devido à ligação familiar com um ministro do Supremo.
A contratação é revelada em 2024 pelo colunista Lauro Jardim, também de O Globo. O contrato prevê pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões e um teto de R$ 129 milhões ao longo de três anos, para consultorias jurídicas estratégicas em diferentes frentes. O caso passa a ser acompanhado de perto por especialistas em ética pública, que veem na combinação entre um banco sob pressão regulatória e o escritório da esposa de um ministro da cúpula do Judiciário um teste para os limites da lei e da percepção social sobre independência de poderes.
Em manifestação enviada ao O Globo, o escritório Barci de Moraes evita confirmar os valores e contesta a divulgação. “O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados esclarece que foi contratado, no período entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, pelo cliente Banco Master, para o qual realizou ampla consultoria e atuação jurídica, por meio de uma equipe composta por 15 (quinze) advogados”, afirma a nota. A banca diz ainda que não confirma “essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos”.
Como atuou o escritório e o que está em jogo
O escritório detalha um trabalho intenso de consultoria, que inclui 94 reuniões de trabalho, 36 pareceres e a coordenação de outros três escritórios especializados. Segundo a nota, 79 encontros ocorrem presencialmente na sede do banco, com cerca de três horas de duração, envolvendo superintendências de Compliance e a área corporativa. Outras 13 reuniões reúnem a presidência da instituição e a equipe jurídica, em parte na sede da banca, em parte por videoconferência.
As frentes de atuação vão de temas previdenciários e trabalhistas a questões regulatórias e de crédito. O texto enviado pelo escritório descreve a revisão de políticas internas de integridade, combate à lavagem de dinheiro e relacionamento com o poder público. A banca diz ter participado da revisão do programa de compliance do Master e da preparação do banco para certificações de ética e governança, com elaboração de manuais, treinamentos e reestruturação de áreas sensíveis.
Outra parte da equipe se dedica a casos penais e administrativos ligados ao banco e a seus dirigentes, com análise estratégica de inquéritos policiais, ações penais, inquéritos civis e ações civis públicas. O escritório menciona atuação em uma ação penal ajuizada em 17 de outubro de 2024 e em um inquérito da Polícia Federal no qual se habilita em 8 de abril de 2024. “Outra equipe do escritório Barci de Moraes, juntamente com os consultores, atuou, principalmente, na área penal e administrativa”, afirma a nota.
A banca faz questão de frisar que não defende o Master em processos na Corte em que atua o marido. “O escritório esclarece ainda que nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF (Supremo Tribunal Federal)”, registra o comunicado. A ressalva mira diretamente o ponto mais sensível do caso: a linha tênue entre uma relação privada, amparada em contrato, e a imagem de independência de um ministro da mais alta instância do Judiciário.
Natural de São Paulo, Viviane Barci de Moraes tem 56 anos e é formada em Direito pela Universidade Paulista (UNIP). O escritório informa ter quase duas décadas de atuação em consultoria para grandes clientes e se apresenta como uma estrutura que combina “visão jurídica e abordagem estratégica”. O histórico, porém, não impede que o contrato com o Master seja lido sob o prisma da influência política, ainda que não haja, até aqui, prova de interferência direta em decisões do Supremo.
Pressão por transparência e possíveis desdobramentos
O tamanho do contrato e o momento em que ele é firmado colocam nova pressão sobre as fronteiras entre esfera pública e interesses privados. O Master atravessa, no período da contratação, um cenário de forte escrutínio regulatório, que termina com a liquidação extrajudicial em novembro de 2025. A decisão do banco de concentrar R$ 40,1 milhões em um único escritório, ligado à família de um ministro do STF, cria terreno fértil para questionamentos de órgãos de controle e para o desgaste de imagem das instituições envolvidas.
Especialistas ouvidos por bastidores políticos apontam que o caso tende a abastecer debates no Congresso sobre regras mais rígidas de transparência em contratos de grandes bancos com escritórios de advocacia, sobretudo quando há parentes de autoridades em posição estratégica. A discussão inclui a possibilidade de ampliar exigências de divulgação de contratos, critérios objetivos de contratação e mecanismos de prevenção a conflitos de interesse, mesmo quando a lei não proíbe formalmente esse tipo de vínculo.
A repercussão também pode respingar no próprio Supremo. O tribunal vive uma fase de exposição intensa, em que decisões individuais de ministros alimentam narrativas de politização da Justiça e de excesso de poder. A associação entre um contrato milionário e o nome de um integrante da Corte reforça, para parte da opinião pública, a percepção de que a fronteira entre Judiciário e grandes grupos econômicos se torna cada vez mais porosa.
O episódio tem potencial para movimentar ainda órgãos de fiscalização financeira e o Ministério Público, que podem ser pressionados a analisar a regularidade dos pagamentos, a efetiva prestação de serviços e a eventual existência de tratamento privilegiado. O escritório, por sua vez, insiste na narrativa de atuação técnica. “Foram produzidos 36 (trinta e seis) pareceres e opiniões legais acerca de uma ampla gama de temas”, afirma a banca, ao listar políticas de ética, de relacionamento com o poder público, de canais de denúncia, de sucessão de administradores e de risco operacional, entre outras.
Ainda não há, até agora, anúncio oficial de investigação específica sobre o contrato. O debate, porém, já transborda para o campo político e para as redes sociais, com cobranças por respostas de órgãos reguladores e questionamentos sobre a conduta de autoridades. Em um ambiente de desconfiança generalizada, cada novo detalhe tende a alimentar uma disputa de narrativas: de um lado, a defesa de que se trata de um contrato privado legítimo; de outro, a tese de que valores dessa magnitude exigem um grau extra de transparência e controle.
O caso entra em uma zona cinzenta da vida pública brasileira, em que a legalidade formal nem sempre basta para afastar dúvidas sobre ética, influência e privilégios. A reação de instituições como Banco Central, Receita Federal, Ministério Público e o próprio Supremo indicará se a história termina em mais um episódio de desgaste pontual ou se inaugura uma nova rodada de discussão sobre limites para negócios de familiares de autoridades com grandes grupos econômicos.
