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Escola que homenageia Lula é rebaixada no Carnaval do Rio 2026

A escola de samba que homenageia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é rebaixada no Carnaval do Rio de Janeiro de 2026, após avaliação técnica dos jurados. A decisão, anunciada dias depois dos desfiles, desperta leituras políticas e culturais no Brasil e no exterior.

Do desfile à queda: quando o enredo sai da avenida

O rebaixamento é confirmado na tarde de quarta-feira de cinzas, no dia 18 de fevereiro de 2026, após a apuração das notas da Marquês de Sapucaí. As planilhas exibem décimos perdidos em quesitos como evolução, harmonia e alegorias, suficientes para empurrar a agremiação para a divisão de acesso no ano seguinte.

O enredo, centrado na trajetória política e pessoal de Lula, vinha sendo tratado internamente como uma aposta de alto risco. Integrantes da escola relatam que, desde o anúncio do tema, em meados de junho de 2025, patrocinadores tradicionais hesitam em manter cotas e cobram garantias de que o desfile não se transformaria em palanque. Mesmo assim, a diretoria banca a escolha e busca apoio em comunidades do ABC paulista e do Nordeste, regiões associadas à base eleitoral histórica do petista.

Na avenida, a escola apresenta cerca de 3 mil componentes, 25 alas e 7 carros alegóricos, segundo dados da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio. O carro abre-alas recria o sertão nordestino dos anos 1950, com esculturas de retirantes e uma réplica de trem atravessando o cenário, enquanto outro carro representa o Palácio do Planalto em cores verde e vermelha. A bateria entra com paradinhas que citam jingles de campanhas presidenciais, o que provoca reação imediata nas arquibancadas. Parte do público canta, outra vaia.

Nos camarotes, políticos, empresários e artistas acompanham o desfile com celulares em punho. As imagens circulam em tempo real nas redes sociais. Perfis com milhões de seguidores transformam trechos da apresentação em memes, e em menos de 24 horas vídeos com o carro que simboliza o impeachment de 2016 ultrapassam 5 milhões de visualizações. A polarização que marca a política brasileira desde pelo menos 2014 reaparece, agora transposta para o asfalto da Sapucaí.

Na sala de jurados, a régua é outra. O manual da Liga, com mais de 40 páginas, orienta que notas sejam baseadas em critérios técnicos, como sincronismo das alas, acabamento visual das alegorias e adequação da trilha sonora ao enredo. As justificativas divulgadas após a apuração apontam falhas como “descompasso visível” entre a bateria e o carro de som em dois trechos e “acabamento irregular” em pelo menos três alegorias. Uma das anotações registra um buraco de aproximadamente 20 metros entre duas alas, penalidade pesada na contagem final.

Repercussão internacional e disputa de narrativas

A notícia do rebaixamento cruza fronteiras em poucas horas. Jornais na Europa, na Ásia e na América Latina destacam o destino da escola que leva a imagem de Lula para o maior palco do samba. Um diário espanhol descreve o episódio como “uma colisão entre o espetáculo popular e a memória recente do poder”, enquanto um site asiático de cultura pop questiona se a decisão “reflete algo além da técnica”.

No Brasil, comentaristas se dividem. Analistas de carnaval lembram que a escola já entra na avenida sob desconfiança depois de um ensaio técnico irregular em janeiro, quando um carro quebra e compromete o andamento por quase 15 minutos. “O resultado não surpreende quem acompanha os bastidores. A escola erra em quesitos básicos”, afirma um pesquisador de cultura popular ouvido pela reportagem. Militantes e simpatizantes de Lula, porém, enxergam sinais de perseguição. “Rebaixaram o símbolo, não o desfile”, diz um integrante de ala, que atribui parte das notas baixas a pressões políticas difusas.

O entorno do ex-presidente evita declarações públicas diretas sobre a apuração, mas aliados próximos consideram, em conversas reservadas, que a controvérsia mostra como a figura de Lula permanece no centro da disputa simbólica. Desde a primeira eleição do petista ao Planalto, em 2002, o Carnaval já registra enredos ligados a temas de governo, programas sociais e crises políticas. Poucos, porém, colocam um ex-chefe de Estado como protagonista explícito de toda a narrativa.

Especialistas em cultura destacam que o episódio expõe a tensão permanente entre liberdade artística e sistemas de avaliação. “O júri é instruído a olhar para a forma, não para o conteúdo. Mas, em manifestações populares, forma e conteúdo se misturam”, observa um professor de história da arte de uma universidade pública do Rio. Para ele, a repercussão internacional reforça a ideia de que o Carnaval brasileiro se tornou um dos principais termômetros da temperatura política do país.

Relatos colhidos em diferentes segmentos da indústria do entretenimento apontam preocupação com o efeito cascata do caso. Produtores de shows, curadores de festivais e diretores de teatro avaliam que a discussão sobre os limites da crítica política em palco tende a se intensificar. Em grupos de WhatsApp de carnavalescos, circula a avaliação de que enredos biográficos de figuras vivas, sobretudo de líderes políticos, podem enfrentar maior resistência na busca por patrocínios e apoios institucionais até 2028.

O que muda no Carnaval e na política cultural

O rebaixamento projeta consequências imediatas para a escola. O orçamento para 2027, que alcança cerca de R$ 12 milhões em 2026, deve encolher com a perda de visibilidade da elite do Carnaval. A presença na Série Ouro, considerada o segundo escalão, reduz o tempo de exposição em televisão aberta, afeta contratos de transmissão e altera a vitrine para marcas que investem em camarotes e fantasias.

Moradores da comunidade ligada à escola temem impactos diretos. Oficinas de fantasias e ateliês de alegorias, que empregam centenas de costureiras, carpinteiros e artistas plásticos temporários, já trabalham com a perspectiva de menos contratos no ano seguinte. “Quando você cai, perde não só glamour, perde emprego”, resume um funcionário veterano do barracão, com mais de 20 carnavais no currículo.

Políticos que acompanham de perto a relação entre governos e cultura monitoram os desdobramentos. A exposição global do caso alimenta debates no Congresso e em assembleias estaduais sobre critérios de financiamento público para projetos artísticos de forte teor político. Parlamentares de diferentes partidos discutem a possibilidade de estabelecer normas mais detalhadas para patrocínios via leis de incentivo, tanto para garantir liberdade criativa quanto para blindar órgãos públicos de acusações de favorecimento ideológico.

Na Liga das escolas, dirigentes prometem revisar, até agosto de 2026, o manual de avaliação, com a meta declarada de tornar mais transparentes as justificativas de notas e a divulgação dos pareceres. Integrantes pressionam por prazos claros para a publicação de relatórios completos, incluindo a possibilidade de recurso em casos considerados excepcionais, ainda que sem reverter resultados.

O episódio deixa uma pergunta em aberto para os próximos carnavais: até que ponto escolas estarão dispostas a arriscar enredos políticos em um ambiente marcado por polarização, escrutínio internacional e julgamentos cronometrados ao décimo? A escolha de temas para 2027, a ser anunciada ao longo do segundo semestre de 2026, indicará se o desfile em homenagem a Lula vira ponto fora da curva ou marco de uma nova fase em que a avenida, mais do que nunca, se torna palco de disputa pela memória política do país.

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